PUBLICIDADE
Topo

Crise? Como a Porsche bateu recorde de vendas no Brasil em plena pandemia

Rafaela Borges

Rafaela Borges é jornalista automotiva desde 2003, com passagens por Carsale e Estadão. Escreve sobre o mercado de veículos, supercarros, viagens sobre rodas e tecnologia.

Colunista do UOL

10/06/2020 04h00

O mês passado teve uma leve recuperação da indústria de carros em relação a abril. As montadoras venderam 11,76% a mais que em um dos piores meses dos últimos anos, mas registraram recuo de 77,8% ante maio de 2020. A exceção a essa regra foi a Porsche.

A montadora de carros esportivos e SUVs de luxo vendeu no mês passado 264 carros no mercado brasileiro. O número pode parecer baixo, mas para a marca, não é. Representou o melhor maio da história da montadora desde a chegada de sua operação própria ao País, há cinco anos.

Antes disso, a Porsche era representada no Brasil pela Stuttgart. Os dados não são de emplacamentos. Eles foram divulgados pela própria Porsche. Com os principais Detrans do País fechados no mês passado, inclusive os de São Paulo e Rio de Janeiro, o número de unidades emplacados apresenta grande diferença ante o de vendas realizadas.

Em emplacamentos, a Porsche somou 156 unidades, de acordo com informações da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

Outro número que chama a atenção no resultado da Porsche é o de emplacamentos do esportivo 911, carro cuja versão mais barata, Carrera, custa R$ 519 mil. Foram 62 exemplares do carro, ante os 45 de abril, que já havia sido um bom mês para o modelo.

Para comparação, em dezembro do ano passado, antes da pandemia, foram emplacados 27 unidades do 911 - e 19 em novembro.

Por que a Porsche bateu recorde

Dizer que não há crise no mercado de luxo é uma maneira muito superficial de analisar o fenômeno de vendas da Porsche em maio. No mundo todo, em qualquer segmento, marcas de luxo estão sofrendo com a crise gerada pela pandemia - seja pelo fechamento de lojas físicas ou a insegurança dos consumidores em investirem em bens de alto valor agregado nesse momento.

No caso da Porsche, são dois os principais fatores que levaram ao recorde: lista de espera e manutenção dos preços mesmo com a disparada do dólar. Quem quer o 911, por exemplo, tem de entrar em uma fila que pode levar até seis meses, dependendo da versão.

Quem pagou o sinal lá atrás, se tem reserva financeira - e estamos falando de um carro com valor muito alto -, dificilmente vai querer encarar uma nova fila. Principalmente porque, mesmo que a Porsche não confirme, os aumentos de preço podem ocorrer em breve.

Quase todas as fabricantes, inclusive as de carros nacionais, já reajustaram suas tabelas. Como os carros da Porsche são importados, o valor do dólar tem grande influência no preço no Brasil.

A montadora, no entanto, informa que os preços acertados no momento da reserva são garantidos na entrega do carro. Mesmo que ela leve seis meses, ou mais.

O fato de a marca não ter mexido nos preços também influencia a decisão de quem quer comprar modelos que são mais comum nos estoques da marca, e têm menos espera - ou nenhuma fila. Se o cliente esperar, corre o risco de em breve ver a tabela reajustada.

Entre esses modelos estão as linhas Macan e Cayenne. Em um Cayenne Coupé, por exemplo, um aumento de 10% representa R$ 45,9 mil - o carro tem preço sugerido de R$ 459 mil. E o SUV cupê nem está entre os mais caros vendidos pela Porsche no Brasil.

Outras marcas de luxo

Mas e quanto às outras marcas de luxo? A maioria já fez aumentos em suas tabelas de preço. Exemplo é o BMW 330e, que foi lançado recentemente por R$ 269.950 e, semanas depois, passou a R$ 297.950.

Executivos de montadoras de luxo ouvidos pela reportagem informaram que a expectativa de queda no período da pandemia era mais alta do que a que de fato ocorreu. E, em maio, o segmento já estava registrando um bom crescimento ante abril.

Ainda assim, as vendas ficaram abaixo do projetado antes do período de pandemia. No geral, as montadoras de luxo estão sofrendo menos que as marcas especializadas em carros mais populares. Ainda assim, a crise está afetando bastante mesmo essas marcas.

Mercado de usados

No mercado de usados, a expectativa é de que, mesmo em caso de alta de modelos zero-km da Porsche, os seminovos não devam ter o mesmo percentual de reajuste.

Sócio-diretor da Wish Motors, loja de modelos de luxo que tem foco em veículos da marca alemã, Pietro Consolini estima que, no segundo semestre, as vendas de usados da Porsche voltem aos mesmos níveis registrados antes da pandemia - agora, estão um pouco abaixo.

Isso porque, como há grande espera pelos modelos esportivos novos, muitos clientes recorrem aos seminovos em busca do Porsche sem filas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.