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Polo GTS não é único: veja outros 3 carros que causaram espanto por preços

Rafaela Borges

Rafaela Borges é jornalista automotiva desde 2003, com passagens por Carsale e Estadão. Escreve sobre o mercado de veículos, supercarros, viagens sobre rodas e tecnologia.

Colaboração para o UOL

31/01/2020 04h00

As redes sociais deram voz às pessoas. Analisando comentários e outros parâmetros em plataformas como YouTube, Facebook e Instagram, entre outras, se observa o que pensa um grupo. No mundo do automóvel, a polêmica do momento nas redes é o preço do Volkswagen Polo GTS.

Em diversas esferas virtualmente sociais, há um inconformismo. Como pode um Polo custar R$ 100 mil? Não é a primeira vez que isso ocorre. Na história recente do mercado automobilístico, modelos como os Honda WR-V e HR-V Touring, além do novo Hyundai Santa Fe, foram lançamentos cujos preços geraram polêmica no universo virtual.

O consumidor médio - aquele que não faz parte do nicho de entusiastas automotivos - não se apega a fatores que podem interferir no preço de um carro. Entre eles estão estratégia da marca, o fato de ele ser importado (e recolher 35% de imposto na alfândega) e o pacote tecnológico que o modelo oferece. Fora do universo das marcas de luxo, para quem compra o que vale é o preço a ser pago pelo produto.

No geral, o brasileiro considera caro qualquer veículo vendido no País. Mas, quando o preço de um automóvel gera comoção além da normal no período de lançamento, é por causa de alguns fatores. O mais importante é a comparação de sua tabela com a dos concorrentes.

Além disso, há uma tendência a se analisar o preço do carro ante o dos demais veículos da mesma marca. No caso da Honda, por exemplo, as principais reações negativas foram desencadeadas por esse parâmetro.

Há ainda a dificuldade de percepção sobre uma versão de nicho de um modelo mais popular. O Polo se enquadra exatamente nesse caso.

Aqui, vou analisar os carros com preços de lançamento que geraram comoção. E como essa reação negativa impactou - ou ainda pode impactar - em suas carreiras no mercado.

Polo GTS assusta

O Polo de R$ 100 mil está comovendo o consumidor brasileiro. É comum no universo virtual ler comentários indignados com o fato de um dos carros mais populares da linha Volkswagen ter preço de Corolla e Civic, entre outros modelos de construção superior.

A tabela exata do Polo GTS é R$ 99.470. Com opcionais (pacote de som Beats e pintura metálica), vai a R$ 103.440. Abaixo da opção com apelo esportivo, agora topo de linha, há a Highline (1.0 turbo de 128 cv), que parte de R$ 76.990.

Com todos os opcionais, o Polo Highline vai a R$ 86.340, R$ 17.100 a menos que o GTS completão.

Quando se compara o Polo GTS com a versão mais barata, o abismo é ainda maior. Essa opção do hatch sai por R$ 53.590. Quase a metade do preço.

Para o consumidor comum isso é inconcebível. E fatores como o Polo GTS ser o mais barato modelo com o excelente motor 1.4 turbo de 150 cv do Grupo Volkswagen - acima dele, há o T-Cross Highline, a partir de R$ 109.990 - parecem não ter impacto nenhum nessa posição.

Nem mesmo as mudanças feitas na suspensão e a introdução de modos de condução têm sido capazes de convencer o brasileiro que o Polo GTS vale o que custa. Afinal, entram na conta da compra racional fatores como desvalorização - e existe a tendência a se pensar que a da versão com apelo esportivo será bem mais alta que a das convencionais - e o status que quem paga caro espera receber. Um Polo garante status?

A comoção negativa seria um termômetro de que o Polo GTS está fadado ao fracasso? A minha opinião: ocorrerá o contrário.

Polo GTS é carro de nicho

Aquele que esbraveja nas redes sociais sobre o preço do Polo GTS possivelmente não é o cliente que a Volkswagen almeja para o carro. O hatch com apelo esportivo é herdeiro de uma tradição histórica. Ele nasce para substituir o emblemático Golf GTI, que acaba de deixar o mercado brasileiro.

Além disso, carrega o peso da sigla GTS, e tudo o que ela representou na linha Gol. Há também quem a associe ao saudoso Gol GTI, sonho de consumo de uma juventude hoje com maior poder aquisitivo.

O cliente que, em minha análise, a Volkswagen almeja, é o maior dos entusiastas. Aquele que é conectado à história do automóvel, e que considera o prazer de dirigir e a emoção de estar ao volante do herdeiro de uma tradição, muito mais importantes que fatores racionais, como preço e desvalorização.

Esse consumidor deixa de comprar um Corolla ou Civic, ou um SUV compacto que seja unanimidade, para ter um carro como o Polo GTS. É o cliente que quer fugir do senso comum em prol de uma identidade: a de grande entusiasta.

Se o vizinho disser o negócio ruim, ele não se importa. Entusiasta que é entusiasta é movido pela paixão, não pela razão nem por opinião generalista. Vale mais a percepção de seu grupo de apaixonados por carros.

O consumidor emocional é a minoria da minoria, ainda mais fora do universo das marcas premium. Em contrapartida, se o Polo GTS fizer sucesso entre clientes que são também formadores de opinião de pequenos grupos, vai potencializar a credibilidade das demais versões do Polo entre o grande público.

E garantir ao carro, hoje o mais vendido da marca, o primeiro passo para ter um peso histórico, quem sabe, um dia próximo ao do agora do Gol.

Santa Fe foge do padrão da concorrência

O novo Santa Fe custa R$ 297 mil. A referência do segmento, o VW Tiguan - na versão de topo R-Line, parte de R$ 187.990 e chega a R$ 195.625. O modelo da Hyundai não é superior a ele nem em números, nem em equipamentos.

O Santa Fe é 7 cm mais comprido que o Tiguan, mas oferece o mesmo entre-eixos e porta-malas bem inferior. Traz motor V6 com 60 cv a mais que o 2.0 turbo do VW, mas com menor torque. É bem mais lento no 0 a 100 km/h - cerca de 1,5 segundo.

O preço do Tiguan é o padrão do praticado para as versões de topo dos SUVs médios. O VW é até um pouquinho mais caro. Ou seja: o Santa Fe custa mais de R$ 100 mil a mais que a concorrência.

É difícil compreender a estratégia da Hyundai. Talvez a marca queira vendê-lo como um SUV grande, não médio, por suas dimensões de carroceria. Ou talvez o imposto de importação (o Santa Fe vem da Coreia do Sul e recolhe 35%; os mexicanos Tiguan e Equinox são isentos dessa taxa) tenha inviabilizado um preço mais competitivo.

Nesse caso, a estratégia da Hyundai deverá ser semelhante à da Honda, com o novo CR-V. Como o modelo deixou de vir do México e passou a ser trazido dos EUA, a marca o transformou em um carro de nicho, com expectativa de vendas anunciada no lançamento (há pouco menos de dois anos) de 50 unidades ao mês, no máximo - número conivente com seu volume de importação.

E é importante ressaltar que o sucesso não depende do ranking de vendas, e sim da expectativa traçada pela marca em ralação a um produto. Vale lembrar que o CR-V custa R$ 194.900. Apesar da boa tecnologia embarcada, seu 1.5 turbo gera 190 cv, 90 cv a menos que o Santa Fe.

As polêmicas da Honda

Murilo Góes/UOL
Imagem: Murilo Góes/UOL

Os preços de lançamento de modelos Honda que mais geraram polêmica foram os comparados aos de carros da própria marca. No universo das redes sociais, ninguém entendeu o fato de o HR-V Touring ser lançado por R$ 11 mil a mais que o Civic Touring.

Apesar do conjunto motor-câmbio idêntico, o sedã tem plataforma mais moderna, suspensão independente nas quatro rodas, porta-malas maior e lista de equipamentos mais tecnológica.

E realmente é difícil explicar essa diferença. Analisando o contexto do mercado, dá para apostar que o preço superior do SUV de topo foi justificado, na estratégia da Honda, pelo fato de os utilitários-esportivos terem muito mais apelo junto ao consumidor que os sedãs médios.

Atualmente, a diferença diminuiu. O sedã ficou apenas R$ 3.200 mais caro. Sai por R$ 137.700. Mas não houve nenhuma redução no preço do HR-V Touring, que mantém os R$ 139.900 do lançamento, no primeiro semestre de 2019. Foi o Civic que ficou bem mais caro.

Quanto ao WR-V, a polêmica surgiu por ele ter sido lançado com o mesmo preço do HR-V, à época o SUV mais vendido do País. O modelo menor, com um motor pior, saía pelos mesmos R$ 80 mil iniciais.

A estratégia da Honda foi lançar o WR-V só com câmbio automático. O preço era semelhante ao do manual do HR-V, que segundo informações da marca tinha apenas 1% das vendas da gama.

Quando se comparava o WR-V de entrada com o HR-V automático mais barato, a diferença aumentava para quase R$ 6 mil. Porém, o modelo de entrada ainda perdia feio. Além de trazer motor inferior, oferecia menos equipamentos.

Estratégias à parte, as redes sociais não aceitaram o preço inicial semelhante. Até pela grande semelhança entre o WR-V e o hatch compacto Fit.

Preço muito alto nem sempre intimida

Divulgação
Imagem: Divulgação

Modelos criticados pelo preço alto em redes sociais não estão fadados ao fracasso no mercado. Há vários exemplos, e o principal é o Tiguan.

O SUV médio chegou com boa variação de versões. Mas, na opção topo de linha, veio à época mais caro que o Chevrolet Equinox Premier 2.0, que é 42 cv mais potente. Ainda assim, o modelo da VW faz imenso sucesso desde seu lançamento, inclusive na configuração mais cara.

Para comparação, em 2019 foram vendidos 13.074 Tiguan e 4.630 Equinox. Em segmentos de maior valor agregado, o senso comum do mundo virtual parece não ter nenhum apelo. Que o diga o caríssimo Toyota SW4, que frequentemente aparece na lista dos dez SUVs vendidos do Brasil.

No caso do WR-V, no entanto, as críticas foram coniventes com o desempenho de mercado do carro. A Honda nunca divulgou sua expectativa de vendas para o modelo. Ainda assim, ele nunca teve grande participação no segmento.

Além disso, a medida que foram chegando mais concorrentes, perdeu cada vez mais espaço. Em 2019, foi apenas o 14º SUV mais vendido do País.

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Tabela Fipe

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.