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Paula Gama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Problemas no paraíso? Desafios de ter um carro em Fernando de Noronha

Fernando de Noronha tem cerca de 1 mil carros, até o fim de 2021, 10% deles serão elétricos - Arquivo pessoal
Fernando de Noronha tem cerca de 1 mil carros, até o fim de 2021, 10% deles serão elétricos Imagem: Arquivo pessoal
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Paula Gama

Jornalista especializada no mercado automotivo desde 2014, Paula Gama tem 28 anos e avalia diversos modelos no Brasil e no exterior. Nesta coluna, você terá opiniões sinceras sobre os lançamentos, cultura automotiva, tendências e análises de comportamento do consumidor.

Colunista do UOL

29/10/2021 11h00

Que os preços em Fernando de Noronha são altíssimos não é segredo. O fato de estar a 545 quilômetros da costa, sendo possível chegar apenas por via marítima ou aérea, faz com que o frete para abastecimento da Ilha seja caríssimo. O que pouca gente pensa é nos desafios que os cerca de 3 mil habitantes do destino mais cobiçado do país enfrentam todos os dias, um deles é o transporte.

Fernando de Noronha tem 26 km², sendo que apenas 17 deles correspondem à ilha principal, onde estão a maior parte das atrações e serviços. É lá que está a menor rodovia no Nordeste, a BR 363, com apenas 7,5 km.

Para atender os três mil habitantes, são disponibilizadas cerca de mil licenças de automóveis, de acordo com o administrador do local, nomeado pelo governo de Pernambuco, Guilherme Rocha. Mas é importante levar em consideração que boa parte desses veículos prestam serviços de transporte a turistas e muitos deles são buggies.

Para comprar um veículo novo em Noronha, é preciso ter uma dessas licenças. Não existe a possibilidade de um novo automóvel entrar da Ilha sem que o antigo saia, a menos que o comprador tenha recebido uma licença nova, liberadas de tempos em tempos pela administração. Para se ter uma ideia, em 2006, eram permitidos 832 veículos na Ilha, considerando motos, carros e utilitários.

Conquistando o direito de comprar um carro, é hora de analisar os custos. Apenas com o frete, o noronhense gasta em torno de R$ 10 mil, fora todos os outros custos para adquirir um veículo comum em todas as cidades. E vem mais um problema: o combustível, que é mais um dos produtos impactados pelo valor do transporte. No único posto da Ilha, um litro de gasolina custa R$ 9,39.

Socorro a caminho

Para entender de perto esse cenário, estive em Fernando de Noronha neste mês a convite da Renault. A solução encontrada para todo esse imbróglio que envolve transportes na Ilha foi uma saída sustentável: eletrificar 100% da frota até 2030.

A partir de agosto de 2022, será proibida a entrada de novos carros a combustão no local. Para a população se animar, incentivos: isenção do frete (aquele que custa em torno de R$ 10 mil) e do IPVA. Além disso, estão sendo negociadas linhas de financiamento específicas para moradores da Ilha.

O resultado já está aparecendo: até o fim de 2021, é esperado que 10% da frota de carros de Noronha seja elétrica, em 2022, a porcentagem deve subir para 20%, com 200 automóveis eletrificados, segundo informações do administrador Guilherme Rocha.

Renault Zoe em um carregador abastecido por energia solar - Paula Gama - Paula Gama
Renault Zoe em um carregador abastecido por energia solar
Imagem: Paula Gama

Outra meta é aumentar o número de postos de recarga de carros elétricos abastecidos com energia solar para por fim à polêmica sobre a energia de Noronha ser gerada por termelétrica, que não utiliza fonte renováveis. Durante a minha visita, foi possível ver diversos postos de carregamento solares, quase sempre ocupados, principalmente durante a noite, quando é bem difícil conseguir uma vaga. O serviço é gratuito.

"Mesmo utilizando uma energia gerada por combustíveis fósseis, o carro elétrico ainda polui 20% menos do que modelos a combustão. No entanto, a nossa proposta é que os carregadores funcionem por energia solar", informa Guilherme Rocha.

Além disso, a expectativa é que Noronha não dependa mais de termelétrica até 2030.

A frota elétrica

Durante os quatro dias em que passei na Ilha, o meio de transporte foi o Renault Zoe. Apesar de as principais atrações ficarem dentro de 17 km², é necessário algum tipo de transporte automotor em uma viagem a turismo. Noronha tem capacidade para receber 675 visitantes por dia, o que não causa a sensação de superlotação, mesmo quando o limite é atingido. Ainda é possível encontrar vagas e mesas em restaurantes com tranquilidade.,

O Zoe tem um porta-malas de 388 litros, que foi suficiente para carregar duas malas de bordo e uma de 23 quilos - Paula Gama - Paula Gama
O Zoe tem um porta-malas de 388 litros, que foi suficiente para carregar duas malas de bordo e uma de 23 quilos
Imagem: Paula Gama

A maior parte dos carros elétricos disponíveis são da Renault e da Jac Motors. A Renault, inclusive, doou seis veículos para administração, sendo três Zoe , dois Twizy e um Kangoo Z.E ., além de quatro carregadores de baterias.

O Zoe é um veículo que surpreende. Tem mais de 300 km de autonomia, 135 cv de potência e 25 kgfm de torque imediato, o que faz com que a arrancada seja bem gostosa. No quesito espaço, confesso que achei que ele deixaria a desejar, mas foi o suficiente para transportar quatro adultos, duas malas de bordo e uma mala de 23 kg, além de bolsas e mochilas. Em apenas 30 minutos de recarga, no modo de recarga ultrarápida, é possível chegar a uma autonomia de 157 km.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL