PUBLICIDADE
Topo

Motoesporte

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Qual é a melhor idade para começar a competir de moto?

Divulgação
Imagem: Divulgação
Roberto Agresti

Sobre o Autor - Roberto Agresti dirigiu durante mais de 30 anos revistas especializadas em motocicletas. Cobriu corridas da MotoGP, do Mundial de Motocross, de Enduro e um inesquecível Paris-Dakar na África. É comentarista da rádio CBN, onde desde 2014 tem o CBN Moto, onde fala sobre motociclismo em rede nacional.

Colunista do UOL

07/12/2021 10h37

Esta pergunta tinha uma resposta direta e reta até bem pouco tempo atrás, e era "quanto antes, melhor!". No entanto, este conceito está sendo revisto, e o motivo é trágico.

O fato: em 2021 três jovens motociclistas perderam a vida em competições importantes do calendário do motociclismo internacional. Em maio, o francês Jason Dupasquier (19 anos) faleceu em treinos do campeonato mundial da Moto3, na pista de Jerez de la Frontera, Espanha.

Dois meses depois Hugo Millan, espanhol de 14 anos, morreu na etapa de Aragón da European Talent Cup, também disputada com motos da categoria Moto3. O último desta lista foi Dean Berta Viñales, 15 anos, que em setembro perdeu a vida em Jerez, quando competia no campeonato mundial da Supersport 300.

A dinâmica dos acidentes que os vitimaram foi sempre a mesma: caíram disputando posições e foram atropelados pelo enxame de pilotos que os seguia. Dois deles morreram na hora, um outro um dia depois.

Estes acidentes fizeram a Federação Internacional de Motociclismo tomar atitudes drásticas, diminuindo o número de participantes nas corridas - que em determinadas categorias superava os 40 participantes -, e aumentando o padrão de exigências para equipamentos de proteção (o macacão com airbag se tornou obrigatório), além de elevar a idade mínima para ingresso nas categorias do campeonato mundial de motovelocidade, seja ele da MotoGP (protótipos) ou da Superbike (motos de série), que passou dos atuais 16 anos para 18 anos.

Premissa básica sobre o tema: esportes a motor são perigosos, todos sabem, e é inclusive por isso que são apaixonantes. Risco fascina, atrai competidores e público. Mas é preciso lembrar que não estamos mais nos tempos do Império Romano, e que as pistas não podem virar uma versão moderna do coliseu, onde o público ia para ver sangue ser derramado. Três eventos fatais, seguidinhos, demonstraram que havia algo de errado no motociclismo, e a Federação agiu para tentar reduzir o problema.

Eu gosto de corridas desde que me conheço por gente, mas não de tragédias. Nem eu e nem ninguém em sã consciência pode gostar. Genuínos apaixonados pelo esporte a motor apreciam disputas ombro a obro, exaltam a técnica aplicada à pilotagem e à mecânica, seja em duas ou em quantas rodas for, mas ao assistir uma corrida ao vivo ou pela TV o que queremos é sorrir e vibrar de alegria, e não chorar de tristeza.

O quê está acontecendo de errado na motovelocidade? Por qual razão tantos garotos perderam a vida este ano? Na minha opinião, de um tempo para cá as categorias ditas "de acesso", cujas motos são todas iguais (mesmo motor, pneu e etc...) estimulam a uma tocada baseada no exagero. O padrão é mão colada no fundo do acelerador, sempre. Motos iguais, desempenhos iguais, e deste modo o que fará a diferença é talento. Ou menos juízo...

Os garotos tem mais medo de serem derrotados, de amarelar, do que de se machucarem. E isso os faz assumir riscos que podem machucar outros e a si próprios. As pistas (ao menos as de fora do Brasil) estão cada vez mais seguras, com enormes áreas de escape, caixas de brita e guard-rails forrados de 'air fences' (colchões de ar que amortecem impactos).

Capacetes, luvas e macacões estão altamente tecnológicos, dando a ilusão de que em caso de tombo nada mais grave acontecerá. E realmente quase não acontece. Mas não há equipamento que consiga proteger 100% contra um impacto por atropelamento.

A pilotagem agressiva virou padrão, e o que se vê são bolos de 10, 15, 20 motos separadas por centímetros brigando por posições a 200 km/h. É de arrepiar, e quando algo dá errado, nem os anjos da guarda mais experimentados podem fazer algo.

A cultura de queimar etapas, de chegar cedo ao topo do esporte, é a razão da excessiva juventude dos competidores. Tanta afobação não vem de hoje: campeões do passado como Kevin Schwantz, Wayne Rainey ou o brasileiro Alex Barros também começaram cedo, mas em época onde os grids de largada não tinham 40 ou mais pilotos e as motos não eram tão uniformizadas quanto à performance. Dada a largada a galera se espalhava, hoje ficam amontoados da luz verde à bandeirada.

Os garotos que hoje começam no motociclismo (assim como alguns pais, chefes de equipe e amigos...) acreditam que inexperiência não é motivo para maneirar até pegar a mão da coisa. A mentalidade vigente é começar cedo e se destacar rápido, desprezando solenemente riscos e a necessária aprendizagem gradual.

Não vejo pecado em fazer crianças de 5 anos montarem em minimotos de cross e participarem de corridas em pistinhas pensadas para elas, e o mesmo vale para os kartódromos, onde garotinhos experimentam o prazer da pilotagem de minimotos no asfalto, mas DESDE QUE AS VELOCIDADES SEJAM CONTIDAS, assim como a agressividade nas disputas. Porém, há quem ache que já aos dez ou doze anos, um garoto (ou garota) pode pilotar uma moto de verdade em uma pista de verdade, e é exatamente este "salto" precoce que a Federação Internacional de Motociclismo tenta coibir.

O limite de idade para entrar no Mundial da categoria Moto2 e Moto3, antes de 16 anos, passará a ser 18 anos. Idem para o mundial da WSS 300 e WSS600. E para chegar a categorias máximas, as 1000cc da MotoGP e Superbike? Só com 19 anos e, claro, experiência pregressa.

Enfim, a Federação freou a velocidade da carreira dos garotos em dois anos. Com isso os meninos não serão impedidos de começar cedo, mas terão mais tempo para amadurecer, praticar com motos adequadas (pequenas e pouco potentes) e em locais certos, traçados lentos com muitas curvas e retas curtas.

Profissionalizar garotos que mal chegaram à adolescência, tendência das últimas décadas, foi um erro de consequências ruins. O mesmo vale para as motos. As 300 da categoria WSS pesam mais de 160 kg e passam dos 200 km/h. As Moto3, mais leves, passam dos 230 km/h... Demais para corpos e mentes em processo de formação.

Vamos perder algo com esta redução na pressa de "chegar lá"? Não acho, pois no fim das contas, quem tem talento de verdade o terá sempre, começar um tantinho mais tarde não afetará nada. A mesma lógica serve para os "pregos", como são chamados os mais lentos, pois começar cedo nunca fará deles verdadeiros campeões.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL