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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Da MotoGP para o Rally Dakar, um desafio inédito

Roberto Agresti

Sobre o Autor - Roberto Agresti dirigiu durante mais de 30 anos revistas especializadas em motocicletas. Cobriu corridas da MotoGP, do Mundial de Motocross, de Enduro e um inesquecível Paris-Dakar na África. É comentarista da rádio CBN, onde desde 2014 tem o CBN Moto, onde fala sobre motociclismo em rede nacional.

Colunista do UOL

02/12/2021 17h58

Danilo Petrucci é um italiano de 31 anos. Com um passado relevante na categoria MotoGP, Danilo encerrou sua carreira na categoria no final desta temporada, fazendo um anúncio bombástico: em janeiro de 2022 competirá no Rally Dakar, que será disputado na Árábia Saudita.

Danilo não era um "mané" na MotoGP. Teve um momento mágico como piloto oficial da Ducati, e pisou dez vezes no pódio em sua carreira, duas delas em 1º lugar. Bateu Marc Márquez e Andrea Dovizioso em uma dessas vitórias (Itália 2018), e na outra venceu de ponta a ponta (França 2019). Feitos para se orgulhar até o fim dos tempos...

Pilotos que decidem trocar o asfalto pela terra/areia/pedregulhos não são novidade: o espanhol Fernando Alonso, bicampeão da F1, fez o Rally Dakar em 2020 e foi bem. Antes dele, o lendário belga Jacky Ickx, duas vezes vice-campeão na F1 (1969/1970) - e seis vezes vencedor das 24 horas de Le Mans entre 1969 (!!!) e 1985, fez bonito vencendo o Dakar de 1983 e sendo segundo colocado em 1986.

Porém, trocar o asfalto pela areia em carros é algo bem mais suave do que a aposta de Danilo Petrucci, que larga o guidão baixo de sua MotoGP de mais de 250 cv, calçada com pneus slick, pelo guidão alto e largo da KTM 450 Rally oficial, de cerca 80 cv de potência, calçada com pneus de cravos. Uma mudança e tanto.

O Rally Dakar já foi bem mais "luminoso" no contexto do esporte a motor mundial, na época em que era disputado no norte da África (até 2007). A migração para a América do Sul, onde foi disputado de 2009 até 2019, o fez perder visibilidade. Desde 2020 está em novo cenário, na Arábia Saudita, com a areia e as dunas que caracterizavam as edições pioneiras.

Tenta recuperar o brilho midiático de outrora. Porém, uma coisa é certa: esta competição é uma graaaaande encrenca. Uma das mais difíceis do planeta, senão a mais difícil.

Um piloto de ponta da MotoGP encarar as duas semanas de correria no deserto é algo inédito, fenomenal sob diversos aspectos. Pilotos do Mundial de Motovelocidade tem uma ligação estreita com a prática do off-road, pois é com motos de cross ou de enduro que eles treinam entre um GP e outro.

Aliás, o campeão Marc Márquez deve a essa prática seu mais recente problema físico, a visão dobrada (diplopia) resultante de um tombo treinando motocross, que abreviou sua participação no campeonato de 2021. Valentino Rossi, ora aposentado, há anos tem uma estrutura em sua propriedade, no nordeste da Itália, onde o que não falta são pistas e motos off-road de todo tipo.

A escolha de Danilo Petrucci, participar de um Dakar pela equipe oficial da KTM (maior vencedora desta competição), vai bem além do que os meros treinos durante horas de folga. Equivale a, mais ou menos, pular da arquibancada no meio da arena de uma tourada, com um pano vermelho nas mãos, confiando que o touro preto babando de raiva vai te dar um desconto porquê é sua "primeira vez".

Mas Danilo Petrucci não é bobo, sabe bem onde está se enfiando, claro, e a KTM já providenciou um intenso programa de treinamento para seu novo piloto. No entanto, esta notícia de alguém do planeta MotoGP vai aterrissar no Dakar 2022 é, para mim, um dos mais saborosos motivos para - como faço a décadas - seguir atentamente a correria no oriente médio que começa em 2 de janeiro e termina no dia 14 do mesmo mês.

Até ontem Petrucci era um dos poucos seres humanos capaz de fazer a gestão da mais complexa motocicleta que o homem criou, poço de tecnologia cheia de eletrônica, potentíssima e com ajustes tipo "fio da navalha", que exigia uma pilotagem precisa, justa, exata.

Agora sua máquina será outra, e deve ser capaz de rodar nos piores terrenos, com tecnologia que visa a resistência em vez de velocidade. Porém, diferentemente da corrida em circuito, onde o italiano se esmerava em repetir curva após curva o mais rapidamente possível, no Dakar ele mal saberá o caminho que deverá percorrer até a hora da largada. O percurso terá que ser achado lendo uma tela plantada sobre o guidão, de pé na pedaleira, chacoalhando por horas seguidas no meio do nada.

Será que Danilo termina? Será que se enfia no "top ten" de ao menos uma etapa? Não vejo a hora de saber. Eu e ele.
E vocês?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL