PUBLICIDADE
Topo

Motoesporte

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Inveja dos argentinos: eles têm etapas do Mundial

Divulgação
Imagem: Divulgação
Roberto Agresti

Sobre o Autor - Roberto Agresti dirigiu durante mais de 30 anos revistas especializadas em motocicletas. Cobriu corridas da MotoGP, do Mundial de Motocross, de Enduro e um inesquecível Paris-Dakar na África. É comentarista da rádio CBN, onde desde 2014 tem o CBN Moto, onde fala sobre motociclismo em rede nacional.

Colunista do UOL

08/10/2021 16h23

Morro de inveja dos argentinos. Motivo: em tempos normais, sem pandemia, eles recebem duas etapas das categorias mais importantes do motociclismo, a MotoGP e a Superbike (WSBK), o mundial das motos derivadas de série. O Brasil já foi sede de Grande Prêmios da categoria da 500cc no passado, e também de sua sucessora, a MotoGP.

Goiânia sediou por três anos consecutivos - de 1987 a 1989 - gloriosos GP Brasil, que movimentaram a capital do agronegócio. Tais eventos até hoje snao lembrados não só pela atividade em pista como por o que aconteceu fora dela, nas festas, onde gringos e locais se esbaldaram como se não houvesse amanhã. Vi tudo isso de pertinho...

Depois teve a etapa borocochô em Interlagos, SP, em 1992, cornetada tanto por causa da pista insegura quanto pelo clima ruim, no duplo sentido da palavra, pois fez frio naquele final de semana de agosto em São Paulo, e o astral estava péssimo, pouca festa, pouco público nas arquibancadas.

Aí veio a fase Rio de Janeiro, que entre 1995 e 2004 virava capital da moto no Brasil. Um sucesso! Havia público, festas (muitas!) e boas disputas. Depois desta fase, nada de nada, apenas boas (e más) intenções, das quais o inferno está cheio.

Fato concreto é que, depois da morte de Jacarepaguá, não há mais pista no Brasil que cumpra as exigências (principalmente as de segurança) que a Federação Internacional de Motociclismo impõe a quem deseja receber um evento válido pelo campeonato mundial.

Interlagos, pista nº 1 do país e palco da Fórmula 1 desde os anos 1970, não se presta às motos. Grandes reformas exigiriam investimento pesado que os donos do circuito, a Prefeitura de São Paulo, nunca quis bancar mesmo rolando uma infinidade de projetos, vistorias e ideias para solucionar o problema maior, o da segurança da pista. Aliás, comenta-se que quem pesa a mão contra reformas em Interlagos são os próprios organizadores da Fórmula 1, que não querem que se toque em nada, e tampouco querem um evento que possa fazer alguma sombra.

Jacarepaguá não existe mais graças ao ex-prefeito Cesar Maia, Carlos Augusto Nuzman e outros gestores, que decretaram a sentença de morte da lendária pista, ali instalada desde os anos 1960, para fazer a vila olímpica, hoje às moscas e pernilongos, subutilizada, deteriorando-se. Detalhe: quem conhece a região de Jacarepaguá sabe perfeitamente que, no entorno, terreno para fazer a vila olímpica não faltava, mas mesmo assim optaram por destruir o autódromo. Tirar uma coisa e colocar outra em vez de dar um jeito de ter as duas coisas. Bem Brasil isso.

Sobrou o quê de pista no Brasil? Às tradicionais (e pouco adequadas para eventos de porte internacional) Curitiba, Guaporé, Tarumã, Fortaleza, Londrina, Cascavel -, às quais se juntara,se juntaram, nos últimos anos, outras como a gaúcha Santa Cruz do Sul, as mineiras Cristais e Potenza e as paulistas ECPA, Velocittà e Panamericano, todas pistas privadas, mais voltadas para testes e pequenos eventos fechados ao público.

Eu acho que quem enfiou dinheiro para fazer estas pistas pensou pouco, ou mal, ou os dois. Terra custa caro, colocar asfalto no chão também, e mais ainda o resto da infraestrutura, os boxes e tudo mais. O esforço e a despesa feita nesses locais, se direcionados corretamente, nos dariam circuitos homologáveis para as categorias principais do motociclismo e automobilismo, o que me faz voltar aos argentinos.

Construíram uma bela pista, a que recebe (ou melhor, recebia antes da pandemia) a MotoGP, em uma localidade chamada Termas de Rio Hondo, que como o próprio nome diz fica em uma estância termal, lugar turístico, mas cuja infraestrutura é bem criticada, mas isso ocorre também na Europa. Também a pista de San Juan de Villicum, onde a Superbike deve fazer etapa no final de semana de 15 a 18 de outubro, sofre tais críticas quanto a infraestrutura hoteleira principalmente, mas o circuito em si é bacana apesar do entorno, capenga.

Nesta altura me pergunto: por qual razão os empresários brasileiros socam dinheiro para fazer as pistas que não prestam para eventos mundiais? Um Grande Prêmio, de qualquer categoria do motociclismo ou automobilismo mundial é, se bem gerido, um belo business. Estranho que na Argentina (onde, ouvi no rádio, circula menos dinheiro do que na cidade de São Paulo) consigam ter dois eventos de campeonato mundial e nós nenhum. Vende se mais pneu de moto, óleo de moto ou as próprias motocicletas na Argentina? Não. Então, qual é?

Se olharmos fotos das motos que competem nestes campeonatos veremos que praticamente todos os patrocinadores tem negócios no Brasil, e não me refiro só a empresas do setor, tipo Michelin, Honda, Yamaha, Castrol, etc e tal. Falo de Red Bull, Repsol, Lenovo, Estrella Galicia, Enel, Tissot, Oakley e tantas outras, que apostam que a vitrine do motociclismo é boa para pilhar negócios.

Ok, nos falta um ídolo. Aliás, sempre faltou. Jamais tivemos um Senna, Piquet ou Fittipaldi das motos, mas nem por isso faltava público em Jacarepaguá ou Goiânia. O que falta, mesmo, é pista, e organizadores com tino para ver que a chance de fazer um belo espetáculo (e bons negócios) no âmbito do motociclismo está sendo desperdiçada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL