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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As inevitáveis mortes no motociclismo e ciclismo: Viñales e Tejada

Dean Berta Viñales morreu aos 15 anos após acidente em etapa do Supersport em Jerez - Divulgação
Dean Berta Viñales morreu aos 15 anos após acidente em etapa do Supersport em Jerez Imagem: Divulgação
Roberto Agresti

Sobre o Autor - Roberto Agresti dirigiu durante mais de 30 anos revistas especializadas em motocicletas. Cobriu corridas da MotoGP, do Mundial de Motocross, de Enduro e um inesquecível Paris-Dakar na África. É comentarista da rádio CBN, onde desde 2014 tem o CBN Moto, onde fala sobre motociclismo em rede nacional.

Colunista do UOL

30/09/2021 19h23

O final de semana passado foi particularmente cruel para os aficionados pelos esportes em duas rodas. No sábado, o jovem piloto Dean Berta Viñales (15 anos), primo do astro da MotoGP Maverick Viñales, morreu em Jerez de La Frontera, na Espanha, quando disputava uma corrida do WSS300, categoria do Campeonato Mundial de Superbike.

No domingo, o veterano Fredy Tejada (65 anos), campeão de trial nos anos 1980, atleta soberbo e motociclista "raiz" convertido ao ciclismo de alto nível, morreu no L'Étape Brasil, competição de ciclismo em estrada disputada na região de Campos do Jordão, SP, evento que emula uma etapa do famoso Tour de France.

A tristeza destas perdas não encontra muito conforto no fato de que ambos acidentes foram brutais, o que significa que imediatamente foi constatado que havia bem pouco a fazer para salvá-los no que pese o socorro ter sido imediato. Todavia, em ambos os casos, cabe a pergunta: como estas vidas poderiam ter sido poupadas? Afoitos do teclado já se preparam para comentar que, se ambos tivessem ficado em casa dormindo, cuidando do jardim ou fuçando no celular, não teriam morrido, o que é fato.

Não conheci Dean Berta Viñales, mas Fredy Tejada sim, um amigo de quatro décadas, e posso afirmar que ele sabia muito bem o que estava fazendo. Sua opção por estar ali, onde encontrou a morte, era sua vida. Terminar seus dias competindo fazia parte do jogo.

É importante e ao mesmo tempo emblemático lembrar que Fredy Tejada era um ativista da segurança em duas rodas: nunca o vi de andar de moto sem estar convenientemente equipado, e idem na bicicleta. Aliás, sua página no Facebook, ainda ativa, traz uma foto de Fredy ao guidão de uma bicicleta com uma frase ao lado "Perceba o risco, proteja a vida!". Tal frase, paradoxal diante dos fatos, designa a consciência diante da realidade, um estímulo a ter cuidado vindo de quem sabia do risco mas não renunciou ao que lhe dava prazer.

No caso do jovem Dean Berta Viñales, a questão é semelhante. Mesmo sendo muito jovem ele sabia exatamente o que queria e onde estava, e quais as consequências de tal opção, as boas e más... Sua família, sabendo da intenção dos organizadores do WSS300 de suspender as atividades de domingo em Jerez, pediu que a programação fosse mantida, pois assim fazendo homenagearia a memória de Dean, piloto por que queria ser e não por obrigação.

Volto à pergunta de parágrafos atrás - como estas vidas poderiam ter sido poupadas? - e, sinto dizer, não poderiam. Algumas atividades esportivas, como o ciclismo de estrada que vitimou Fredy, o motociclismo que levou Dean ou mesmo o alpinismo, o mergulho livre, o boxe, o surfe de ondas grandes e até mesmo a ginástica olímpica cobram um caro preço de seus praticantes. Assim é e assim será, sempre. Chame isso do que quiser, fatalismo ou lógica, ou saque a fácil arma da ofensa, o que não mudará o resultado prático: o risco atrai os humanos, o fascínio de desafiar a própria existência, ganhar ou perder, é ancestral.

No que pese os equipamentos de segurança que Fredy e Dean usavam serem os melhores disponíveis atualmente, o corpo humano é o que é há milhares de anos, aguenta muito desaforo, mas não todos. Agora mesmo, enquanto escrevo este texto, olho pela janela e vejo uma telha deslocada, e lembro que há semanas preciso colocá-la no lugar, o que representará subir no telhado, e risco (escada, altura, vacilo...).

Dizendo isso, mando outra bola pingando aos afoitos do teclado: "arrumar o telhado é obrigação, não opção", dirão. Certo! Mas viver a vida durante 15 ou 65 anos, fazendo só o que é obrigação, não vale a pena. Esta é a minha opinião, era a opinião de Fredy Tejada e a de Dean Berta Viñales, e certamente é a opinião de suas famílias, no que pese a dolorosa perda.

R.I.P. Fredy Tejada e Dean Berta Viñales.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL