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Mora nos Clássicos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sobre Modern Love, clássicos e separações

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Rodrigo Mora

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigomobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

Colunista do UOL

30/10/2021 04h00

(SÃO PAULO) - Há uns três meses, por volta das nove da noite de uma quarta ou quinta-feira, estava me encaixando no sofá para assistir Framing John DeLorean quando a Adriana apareceu na sala e sabotou meus planos: "você deveria dar uma chance para Modern Love. Na segunda temporada tem um episódio com um carro antigo, o que pode render algo pra sua coluna".

Usar carro antigo como apelo obviamente me convenceu. Então, resolvi me render à história de Stephanie Curran (Minnie Driver) e seu Triumph Stag, que ela, uma médica beirando os 50, insiste em manter apesar dos seguidos e incontornáveis enguiços. Nem seu mecânico vê esperanças para o carro.

Sua teimosia é legítima, pois o conversível inglês pertencera ao namorado de faculdade - depois marido e pai de sua filha - que agora é apenas uma memória nos passeios solitários de Stephanie ao volante do Stag. Dirigi-lo é uma forma de trazer Michael (Tom Burke), seu grande amor, de volta.

Em nome da história que viveu com o ex-marido, falecido há anos, Stephanie submete à atual família o fardo de bancar um carro problemático, justo quando as contas apertam e é preciso reduzir as despesas. Por fim, ela aceita a realidade e encerra o drama vendendo o Stag para um colecionador.

Mas o que escrever, afinal? O que eu poderia dizer que o próprio autor não dissera? A melancólica e divertida história já estava ali, deliciosamente contada. Rabiscar algo sobre como clássicos conversíveis - sejam eles ingleses, franceses, americanos, alemães ou italianos - embelezam a vida mesmo na tristeza e na saudade? Isso é óbvio.

Falar do Stag? Creio que não passem de meia dúzia os interessados nele por essas bandas, mas vamos lá: lançado em 1970, foi bem recebido até descobrirem suas falhas de fabricação, que inclusive levaram a revista Time a elencá-lo como um dos piores automóveis já produzidos. Ou seja, o que Stephanie sofreu na mão do estiloso Triumph não era mero teatro. Até 1977, foram quase 26 mil unidades fabricadas.

Em resumo, não me arrependi por deixar a surreal história de John DeLorean para outro dia, mas também não fui capaz de pinçar daquele episódio de Modern Love um olhar diferente ou uma reflexão que rendesse uma coluna.

Isso até nos separarmos, Adriana e eu.

Porque se Stephanie e Michael eram aquele raro tipo de casal formado por melhores amigos que dividem a cama à noite, conosco não era diferente.

Amantes, éramos também a melhor companhia um para o outro para quase tudo. Desde perambular de carro sem destino, ir a shows, jogar Uno, tomar cerveja na Augusta e passar vergonha na pista de dança do Astronete a assistir Grey's Anatomy. Até o patético 90 Dias Para Casar ficava divertido. O importante era estar junto.

Não por acaso eu era identificado na agenda do seu celular como "BPE", de Best Partner Ever. Preciso traduzir?

Testando carros ao redor do mundo, entre uma reflexão e outra sobre o objeto da minha análise, pensava nela (e, de 2015 em diante, também no Bernardo) ali comigo compartilhando as experiências que vivi e conhecendo os lugares que visitei (ambos incríveis) por meio da profissão de jornalista automotivo.

O que inclui enfrentar perrengues culinários na China, passar o maior frio de todos na Islândia ou embarcar na única roda-gigante que encaro, a de Le Mans, sem borrar as calças. (Prometo manter a Hungria intocada, ok?).

Na ficção, Stephanie experimentava a saudade nas nubladas, vazias e sinuosas estradas inglesas; os únicos sons ao redor eram o do vento a revoar seus cabelos e o do Stag, quando ele decidia funcionar.

Por aqui não foi tão charmoso assim. Saí da Lício Marcondes do Amaral para a Diogo Pereira pelo trânsito barulhento e opressor de São Paulo, cenário nada favorável para curar a dor de uma separação.

Mais confortável, espaçoso e confiável do que o carro da Stephanie, o Audi Q5 S-line azul com interior caramelo que me levou da antiga para a nova casa foi um bom companheiro.

Seu poderoso sistema de som tocou bem alto Absolute Beginners, Pictures Of You, Let You Down e Quase um Segundo, entre outras canções que antes embalaram e agora interpretam nossa história de amor, parceria, cumplicidade e amadurecimento - e desencontros, de certo modo.

Com os olhos encharcados, por sorte não colidi num poste ou no carro da frente. Mas tenho certeza de que a qualidade de construção alemã e os airbags (tem até para a cabeça) do Q5 me protegeriam de qualquer ferimento. Mesmo porque tem coisa doendo muito mais do que uma fratura exposta.

Fui tratado com carinho por aqueles largos bancos em couro com extensor de assento, pelo primoroso acabamento interno e reconheço o excelente trabalho do isolamento acústico. Até o inconfundível e delicioso cheiro do interior dos Audi tentou, mas nenhum luxo ali serviu para me confortar de verdade.

Quanto ao porta-malas de 520 litros (que pode chegar a 1.520 com os bancos traseiros rebatidos), preciso admitir seu excelente trabalho em carregar tudo o que pôde: malas, quadros, aspirador de pó, mesa de cabeceira...

Só faltou trazer quem eu mais queria.

Quem sabe, um dia, um Triumph Stag traga.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL