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Mora nos Clássicos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Nem tão futurista assim: primeiro híbrido é um Porsche de 120 anos

Rodrigo Mora

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigomobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

Colunista do UOL

01/05/2021 04h00

(SÃO PAULO) - Nascido em 3 de setembro de 1875 em Maffersdorf - região que então pertencia ao império austríaco e que hoje compõe o território da República Checa -, Ferdinand Porsche sempre apostou na eletricidade como solução para qualquer tarefa. Escondido do pai, fazia experimentos no sótão; aos 18, equipou a casa da família com iluminação elétrica e campainha.

Seu primeiro grande projeto na área automotiva nasce em 1898: Egger-Lohner C2 Phaeton, uma carruagem equipada com motor elétrico de 5 cv e que esbarrava nos 25 km/h de velocidade máxima. (Abandonado num galpão na Áustria desde 1902, foi recuperado em 2014 e hoje faz parte do acervo do Porsche Museum):

Egger Lohner - Rodrigo Mora / UOL Carros - Rodrigo Mora / UOL Carros
Imagem: Rodrigo Mora / UOL Carros

Encurtando a história, no ano seguinte Porsche vai parar na Jacob Lohner, uma fabricante vienense de carruagens luxuosas ciente de que os dias de transporte a cavalo estavam contados. Por isso contratara o jovem engenheiro, designado para desenvolver uma nova fonte motriz - àquela época disputada entre vapor, gasolina e eletricidade.

E assim, em abril de 1900, durante a Expo Paris, apresenta-se o Lohner-Porsche Electromobile, dotado de um conceito revolucionário: ao invés de um, dois motores elétricos, agora instalados nos cubos das rodas dianteiras, somando 5 cv e levando o veículo a 37 km/h.

Já naqueles tempos as corridas serviam como laboratórios, e para elas Porsche seguiu com uma versão mais eletrizante (trocadilho inevitável) do automóvel que acabara de construir. Na primeira tentativa, em setembro daquele ano, o Lohner-Porsche modelo J cumpriu apenas cinco dos dez quilômetros da prova e os pneus não aguentaram os 1.100 kg do carro.

Lohner-Porsche race car - Divulgação  - Divulgação
Ferdinand Porsche ao volante do Lohner-Porsche de corrida
Imagem: Divulgação

Outras vieram, mas o peso da bateria (chegava a 410 kg) e a autonomia baixa limitavam o uso do Lohner-Porsche, sobretudo em áreas rurais.

Sempre Vivo

Daí veio a solução de unir aos motores elétricos um propulsor de combustão interna. Na verdade, dois De Dion de 3,5 cv e refrigerados a água, instalados no meio do carro, que acionavam dois geradores. Desconectados das rodas, os motores a gasolina se limitavam a recarregar a bateria.

Semper Vivus  - Divulgação  - Divulgação
Semper Vivus
Imagem: Divulgação

No entanto, o mesmo problema de peso se repetia, e talvez por isso o Semper Vivus - o primeiro híbrido da história - estreou no Salão de Paris de 1901 sem carroceria. Uma evolução dele, batizada de Lohner-Porsche Mixte, apareceu no fim do ano, com 25 cv e menos capacidade elétrica devido a baterias menores, uma solução para reduzir peso.

Lohner-Porsche Mixte - Divulgação  - Divulgação
Ferdinand Porsche ao volante de um Lohner-Porsche Mixte, em 1903
Imagem: Divulgação

Até 1905, apenas 11 unidades foram comercializadas. Por custar o dobro do que um carro convencional e ter um sistema de propulsão complexo e caro de manter o Mixte fracassou, enquanto do Lohner-Porsche puramente elétrico vendeu-se 65 exemplares no mesmo período.

Em 1908, uma crise enfrentada pela incipiente indústria automotiva pôs fim ao desenvolvimento de híbridos e elétricos - por motivos enfrentados novamente hoje: falta de rede de recarga, baterias pesadas, autonomia curta e desenvolvimento oneroso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL