PUBLICIDADE
Topo

Como francês Alpine A108 virou Willys Interlagos, nacional raro e venerado

Rodrigo Mora

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigomobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

Colunista do UOL

17/10/2020 07h00

(SÃO PAULO) - O que o Fusca foi para a Volkswagen, o 500 para a Fiat e o 2CV para a Citroën, o 4CV foi para a Renault. Desenvolvido secretamente durante a Segunda Guerra Mundial por engenheiros obrigados a esconder seus planos do domínio nazista, foi apresentado no Salão de Paris de 1946. Barato e simples, era compatível com a iminente austeridade pós-guerra e foi o primeiro carro francês a vender mais de um milhão de unidades.

Em sintonia com o humor nacional, era puramente racional: disponível apenas em azul, oferecia só um motor, de 747 cm3, quatro cilindros e 24 cv, instalado na traseira para otimizar o espaço interno. Uma versão esportiva, de 1,1 litro venceu um Rali de Monte Carlo e uma 24 Horas de Le Mans.

Pela mecânica simples e aberta a incrementos, o 4CV conquistou Jean Rédélé, um piloto e concessionário Renault instalado em Dieppe, na França, que em 25 de junho de 1955 fundou a Société des Automobiles Alpine. "Gostei muito de cruzar os Alpes no meu Renault 4CV, e isso me deu a ideia de chamar meus futuros carros de 'Alpines', para que meus clientes experimentassem o mesmo prazer de dirigir", disse certa vez.

Renault 4CV  - Divulgação  - Divulgação
Renault 4CV
Imagem: Divulgação

Em 6 de outubro do mesmo ano era apresentada oficialmente a marca Alpine e o A106 no Salão do Automóvel de Paris. Versão esportiva do 4CV, emprestou do modesto modelo urbano motor, suspensão e chassi para que 251 unidades fossem produzidas até 1959. Destaque para a carroceria em poliéster, encaixada no chassi original do 4CV.

Alpine A106 - Divulgação  - Divulgação
Alpine A106
Imagem: Divulgação

Do A106 Rédélé evoluiu para o A108, que recorria ao Renault Dauphine para que o Ventoux de 845 cm3 assumisse o cofre, também na traseira. Alterações no estilo deixaram o A108 bem mais atraente do que o A106.

Alpine A108 - Divulgação  - Divulgação
Alpine A108
Imagem: Divulgação

Willys Interlagos

Se não podia expandir sua quase artesanal produção para outros países - em parte para ganhar escala e poder homologar seus carros em competições -, ao menos Rédélé convenceu parceiros a fabricarem seus carros sob licença.

Willys Interlagos Anhembi f - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Um deles foi a Willys-Overland do Brasil, fundada em 1952 e que por aqui já produzia o jipe Universal, o SUV Rural, o compacto Renault Dauphine (sob licença) e o sedã médio Aero Willys.

Willys Interlagos Anhembi t - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

A decisão de fabricar o esportivo francês foi do então presidente da Willys. "O Wiliam Max Pierce era um cara ligado a esporte. Ele era entusiasta dessas loucuras", explica José Vignoli, estudioso da marca que já entrevistara Pierce.

Confiáveis e fáceis de montar, os Alpine A108 começaram a ser fabricados no Brasil como Willys Interlagos em 1961, No final daquele ano foi a estreia oficial, durante a segunda edição do Salão do Automóvel de São Paulo, quando o evento era no Pavilhão do Ibirapuera e a frota brasileira tinha pouco mais 200 mil veículos. O nome veio do publicitário Mauro Salles, amigo de Pierce.

Produção Willys Interlagos - Divulgação  - Divulgação
Produção Willys Interlagos no bairro de Santo Amaro, em São Paulo
Imagem: Divulgação

Construídos em fibra de vidro e plástico reforçado, eram leves (cerca de 600 kg) e por isso o motor não precisava ser bruto, mas sim um compacto bloco de 845, 904 ou 998 cm3, que alcançava de 40 a 56 cv - sem falar na configuração para as pistas, com dois carburadores e 70 cv, que esbarrava nos 160 km/h.

Willys Interlagos motor - Divulgação  - Divulgação
Motor do Willys Interlagos é instalado na traseira
Imagem: Divulgação

Eram praticamente iguais, Alpine A108 e Willys Interlagos, oferecidos nas carrocerias cupê, conversível e berlineta (uma espécie de cupê de dois volumes, sem o vidro traseiro incorporado ao porta-malas). Assim como o 4CV fora um doador de peças e motor para o A106 e o Dauphine para o A108, o sucessor A110 era baseado no Renault 8.

Alpine A110 - Divulgação  - Divulgação
Alpine A110
Imagem: Divulgação

Outros países que produziram os Alpine foram México, Espanha e Bulgária.

Ao todo, 822 unidades foram fabricadas até 1966.

Equipe Willys

A partir de 1960, começaram a se organizar corridas exclusivas para modelos nacionais, como as 24 Horas de Interlagos. Propagandas gratuitas das habilidades técnicas dos carros, as competições atraíram os investimentos das fabricantes, que passaram a participar com suas próprias equipes.

Primeiro veio a Vemag, com seu DKW. Na sequência surgiram a FNM (correndo de 2000 JK), a Simca (Chambord) e em abril de 1962 a Equipe Willys, que estreou nos Mil Quilômetros de Brasília com um terceiro lugar de Christian Heins e Aguinaldo de Góes Filho pilotando um Interlagos.

Bino, como também era chamado Heins, além de ser um piloto jovem e promissor comandava a Equipe Willys, que nada menos foi do que a catapulta de pilotos como José Carlos Pace, Emerson Fittipaldi, Wilson Fittipaldi, Francisco Lameirão e Bird Clemente, entre outros.

Bird Clemente  - Divulgação  - Divulgação
Bird Clemente, ex-piloto da Willys
Imagem: Divulgação

Em 1963, o próprio Jean Rédélé convidou Bino para disputar as 24 Horas de Le Mans em um Alpine. Após perder o controle do carro a mais de 200 km/h, Heins bateu a cabeça e morreu na hora, aos 28 anos.

A Equipe Willys seguiu até 1968, quando a Ford (que comprara a Willys-Overland do Brasil no ano anterior) desmantelou a divisão de competições.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL