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Sofie, Kombi mais antiga do mundo, faz 70 anos. E tem "sósia" no Brasil

Rodrigo Mora

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigomobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

Colunista do UOL

05/08/2020 12h00

(SÃO PAULO) - Havia cinco meses que a produção da Kombi começara em Wolfsburg, na Alemanha, quando chegou a vez do chassi número 20-1880, em 5 de agosto de 1950. Seria apenas mais uma entre as pouco mais de 8.000 produzidas naquele ano, mas hoje descansa no acervo de clássicos da Volkswagen, orgulhosa de ser a Kombi mais antiga do mundo ainda viva.

Saindo da fábrica foi cumprir na cidade de Hildesheim a missão de veículo de transporte. Fora inventada para isso, afinal. Só depois de 23 anos de labuta é que virou carro de coleção, passando boa parte do começo da aposentadoria escondida nas garagens que lhe serviram de morada.

Até cruzar o caminho de Dane Tonny.

"Em 1992, com 42 anos e menos de 100 mil quilômetros no odômetro, foi rebocada para a Dinamarca. Como ficar 19 anos parado não faz bem a nenhum veículo, algumas peças essenciais foram trocadas para que pudesse rodar novamente. Certo de que ficaria com a Kombi por um bom tempo, Tonny decidiu batizá-la de Sofie, apelido do seu primeiro carro", diz o comunicado da Volkswagen celebrando os 70 anos dessa Kombi.

Volkswagen Sofie frente - Divulgação  - Divulgação
Sofie, a Kombi mais antiga do mundo ainda viva
Imagem: Divulgação

Um longo e caro processo de restauração, executado entre 2000 e 2003, não inibiu a dupla Sofie e Tonny de rodar 20 mil quilômetros pela Europa, participando de vários encontros de Kombi onde ela, claro, era a estrela.

Volkswagen Sofie restaura - Divulgação - Divulgação
Sofie passou por restauração no começo dos anos 2000
Imagem: Divulgação

Seu destino mudaria novamente em 2014, durante uma visita do príncipe da Dinamarca ao departamento de veículos comerciais da Volkswagen, agora sediado em Hannover.

"Um concessionário que acompanhava a comitiva mencionou que existia na Dinamarca uma Kombi 1950 à procura de um novo lar", relata a VW. Tonny, agora mais velho, não viajava mais para os encontros, mas também não queria privar Sofie das aventuras dos últimos anos.

Volkswagen Sofie Tonny - Divulgação  - Divulgação
Dane Tonny e Sofie
Imagem: Divulgação

Tonny foi então contatado pelo departamento de clássicos da marca e, após semanas de discussões, decidiu: "prefiro vender a Sofie para vocês, onde ela ainda poderá fazer as pessoas sorrirem".

Volkswagen Sofie tras - Divulgação  - Divulgação
Até novembro de 1950, traseira carregava símbolo gigante da VW
Imagem: Divulgação

Tem uma igual no Brasil

Após o início da produção na Alemanha, não demorou para a Kombi desembarcar no Brasil. Em setembro de 1950 as primeiras unidades chegaram importadas pela Brasmotor, então representante da Volkswagen no país. Uma delas foi esta, que raramente aparece em encontros.

Kombi Mau frente - Rodrigo Mora/UOL - Rodrigo Mora/UOL
Depois de um resgate e um incêndio, Kombi 1950 é uma das mais antigas do Brasil
Imagem: Rodrigo Mora/UOL

Parece coincidência que sua cor seja a mesma da que tinge Sofie, mas não é. Chamada de Dove Blue, era a única disponível. E o mais incrível: muitas eram entregues aos clientes apenas no primer, o acabamento na carroceria que vem antes da própria pintura.

Ambas são do tipo furgão, ou "panel van", e dá para sacar que a do Brasil foi fabricada a partir de novembro por não ostentar mais o grande símbolo da VW na parte superior da traseira. Em abril de 1951, uma pequena janela traseira foi instalada ali.

Falando em motor, ambas nasceram com um quatro-cilindros refrigerado a ar, de 1,131 cc e 25 cv, capaz para 80 km/h de velocidade máxima. As semelhanças param aí, contudo.

Kombi Mau traseira - Rodrigo Mora/UOL - Rodrigo Mora/UOL
Símbolo da VW deixou de ser estampado na traseira em novembro de 1950
Imagem: Rodrigo Mora/UOL

O destino do exemplar que está no Brasil foi bem mais cruel. Resgatada de uma favela em 2001, passou por um processo de restauração que durou um ano. "A pesquisa foi muito difícil, porque as mudanças na Kombi aconteciam em meses, e não em anos. Uma alteração podia ser feita entre agosto e setembro, por exemplo. Portanto, não bastava achar um livro que falasse do modelo 50, mas também se ele havia sido escrito antes ou depois do mês de fabricação do seu exemplar", explica o antigo proprietário, que prefere não se identificar - ou revelar qual o atual paradeiro da Kombi.

Concluído o trabalho de restauro, o antigo proprietário passou a usar a rara Kombi com certa frequência. Num dos passeios, o motor falhou e então uma fumaça tomou conta da cabine. Deu tempo apenas de pular do carro antes que o fogo o consumisse. "Não fiquei chateado pelo investimento financeiro, e sim pelo emocional. Ali, tive um sentimento de morte, como alguém que perde um amigo", lembra. "Dali em diante eu tomei aquilo como um desafio. Ressuscitar a Kombi seria uma questão de honra", completa.

Segundo ele, hoje a Kombi pertence a uma grande coleção. Existem outras seis iguais, mas nenhuma nascida antes de novembro de 1950.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL