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Mamãe Acelerada


Milhões de donos de carros estão correndo o risco de morrer no Brasil

Joe Raedle/AFP - 21.5.2015
Imagem: Joe Raedle/AFP - 21.5.2015
Milene Rios

Jornalista automotiva há mais de uma década, leva em segurança no banco de trás dois filhos da barriga e uma do coração. Entre um dia corrido e outro faz sempre uma pausa para ajudar as pessoas a se relacionarem melhor com um importante aliado da família: o carro. Fundadora do projeto Mamãe Acelerada, carrega em muitas malas (Programa AutoEsporte, Portal G1 e Jornal do Carro) anos de experiência em criação de conteúdo. Sempre que sobra um tempinho, vai pra pista (de asfalto, é claro!)

Colaboração para o UOL

26/02/2020 04h00

Assustado com o título? Infelizmente um motorista precisou falecer no Brasil para que o risco de não atender a um chamado de recall começasse a ser discutido com mais seriedade. O airbag de um Civic 2008 explodiu e atirou estilhaços da bolsa contra o corpo do motorista (estima-se que os fragmentos foram lançados a uma velocidade aproximada de 300 km/h).

O carro faz parte da maior convocação da história da indústria automobilística, uma falha de projeto do sistema de airbags da fornecedora japonesa Takata, que envolve 100 milhões de veículos no mundo inteiro, produzidos em um intervalo de 20 anos (entre o fim dos anos 90 e meados de 2010).

Desses, cerca de 5,4 milhões de unidades com o defeito rodam no Brasil e estão sendo acionadas desde 2013 por 15 marcas diferentes, mas seguindo as estatísticas (positivas) do país inteiro, apenas 50% atenderam ao chamado.

Ou seja, 2,7 milhões de automóveis correm o mesmo risco do dono do Civic, o volume é praticamente igual a quantidade de veículos vendidos em todo o ano de 2019 por aqui, sem contar os outras centenas de convocações (são mais de 700 campanhas só nos últimos 5 anos) de outras marcas, por outras falhas.

Apesar de preocupantes, esses números não são novidades. O que venho deixar mais claro é que sempre que um recall acontece é porque o problema afeta a segurança ou a integridade física do condutor ou passageiros. Vou repetir de uma forma mais direta: você pode, de fato, morrer.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Quem decide se há ou não a necessidade de um recall de verdade é o Ministério da Justiça e Segurança Pública que acompanha e fiscaliza procedimentos de defeitos de fábrica no Brasil por meio da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon).

Todos os comunicados e boletins emitidos pelos fabricantes de automóveis devem ser enviados para o órgão, que é responsável por produzir um laudo técnico ordenando o chamado, repassa os dados aos Procons e pode até processar a fabricante.

Ao contrário do que a maioria imagina, a causa pode ser simples. Basta um parafuso fora de especificação ou preso com menos torque do que o necessário para causar o vazamento de um tanque de combustível, a falha de um freio ou o desprendimento de um cinto de segurança, para dar só alguns exemplos.

Por isso, por Lei, o comunicado de recall tem que descrever qual o componente defeituoso, a causa e consequência, a quantidade de unidades envolvidas e as informações de atendimento, que é gratuito e deve ser oferecido por tempo indeterminado.

Mas nem sempre esse aviso deixa claro o perigo. "Dificilmente você vai ler com todas as letras que caso não atenda ao chamado corre o risco de morrer", afirma Roberto Grossmann, supervisor do Procon-SP. "Não só as montadoras, mas qualquer marca tenta falar de uma forma mais leve para não prejudicar a imagem do produto".

Falta percepção de risco e a comunicação das montadoras, na maioria dos casos, também é ineficiente. Veja o caso da Dunya, uma colega de trabalho que descobriu um recall para o seu Jeep Renegade 2019 durante a gravação de uma reportagem.

A produção pediu os dados do carro de várias pessoas da redação na tentativa de conseguir um exemplo real de convocação para testar um novo aplicativo de busca de chamados e veio o susto. "Comprei ele em fevereiro e soube em outubro durante essa pesquisa", explica Dunya. "Não recebi nenhum comunicado, não fazia ideia, até brinquei que era impossível, porque tinha acabado de comprar o SUV".

De acordo com o fundador do aplicativo Papa Recall que "dedurou" o chamado do carro da Dunya, as fabricantes não querem falar sobre o assunto. "As marcas japonesas são mais receptivas, mas de modo geral é um tabu. Há resistência, inclusive, em fornecer dados para ajudar na divulgação", afirma Vinícius Melo. "A fatalidade era questão de tempo".

Para tornar essas campanhas mais eficientes, no ano passado foi publicada a Portaria n°618 que atualiza as regras de recall. Segundo a Senacon, a principal evolução da nova Portaria foi a autorização da veiculação de aviso de risco em mídias sociais, além das tradicionais (rádio, TV e impressa) que já estavam previstas. É uma forma das marcas conseguirem utilizar algoritmos para chegarem de forma mais direta aos consumidores.

Outra mudança foi a sugestão de utilização dos chamados indutores comportamentais, que nada mais são do que incentivos para que as pessoas atendam ao chamamento, o que já acontece em países como Austrália, Canadá e Estados Unidos. Vale tanto apelar para imagens de impacto, quanto a oferta de cupons de desconto em serviços, como em uma revisão, por exemplo, para quem realizar o reparo.

A Honda está fazendo a lição de casa. Além das ações obrigatórias por lei, criou campanhas exclusivas em programas de TV's e no YouTube com influenciadores digitais. Fez parceria com empresas de cobrança automática em pedágios e seguradoras.

Promoveu abordagens presenciais em estacionamentos de shoppings centers e postos de combustíveis nos estados com mais veículos afetados, entre outras tantas medidas. Mesmo assim não conseguiu evitar a primeira morte oficial. Se a mensagem chegou, ela não foi atendida.

"Essa é a maior dificuldade", diz o criador do App Papa Recall. "Temos um alto índice de downloads do aplicativo, mas uma enorme quantidade de desinstalação também. As pessoas consultam, não encontram chamado ou não permitem que os dados fiquem armazenados e cancelam o uso. Elas não entendem que um recall pode acontecer a qualquer momento e para qualquer modelo, novo ou antigo", alerta Melo. A recente convocação de modelos BMW no Brasil fabricados entre 1994 e 2006 e o novíssimo caso da nova geração do Ônix estão aí para provar.

Um seguidor das redes sociais me acionou na última sexta-feira, 21, antes do Carnaval, para agradecer a dica do aplicativo avisando que foi informado por um alerta no celular sobre o recall do seu Mobi antes mesmo de ser contatado pela Fiat ou tomar ciência por outros meios de comunicação. "Logo cedo já recebi a mensagem e divulguei, em primeira mão, nos grupos de WhatsApp de donos do carro dos quais faço parte. Só depois vi um vídeo no Instagram da fabricante", conta orgulhoso Eurico Menezes. "Já agendei o reparo para o primeiro dia de atendimento".

É possível pesquisar se seu carro está envolvido em um recall também no site do Denatran, da Senacon ou diretamente nos sites das montadoras. "A lei exige que em apenas dois cliques o consumidor já tenha todas as informações para facilitar o acesso", informa o supervisor do Procon-SP.

No aplicativo a busca hoje é feita pela marca/modelo e ano de fabricação. "No começo, pedíamos o número do chassi, mas como era um dado que precisava ser buscado, vimos que havia muita desistência no meio do caminho", explica o Melo.

É bom ficar realmente atento, porque o cerco promete fechar para quem ignorar a convocação. Em outubro do ano passado passou a valer uma nova Portaria que obriga informar no Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo (CRLV), que é o documento do carro, se existem recalls não atendidos há mais de um ano após o início da campanha.

A pendência vai constar na hora de fazer o licenciamento. "Essa é a maior punição que já existiu para quem não atende ao chamamento", afirma Roberto, do Procon-SP. "Fora que o novo proprietário fica ciente do risco que corre".

A Associação dos Fabricantes de Veiculos Automotores (Anfavea) participou do processo de desenvolvimento dessa Portaria e estima que o volume de atendimentos a recall no Brasil atinja a casa dos 90%, que é a média global.

Recentemente descobri na maior feira de tecnologia do mundo, a Consumer Eletronics Show (CES), que acontece todo início do ano em Las Vegas (EUA), uma solução que já está pronta, inclusive para ser aplicada no Brasil, e pela experiência que tenho na cobertura desse assunto me parece ser a mais eficaz para a convocação de carros novos: usar a central multimídia e aplicativos das fabricantes para informar sobre o recall.

Hoje, esses sistemas conseguem ler a rede do automóvel, ou seja, todas as suas informações, o que inclui o número do chassi. "Esses dados ficam armazenados numa nuvem e havendo a necessidade de recolher, por exemplo, do chassi final 100 até o final 200 de um determinado modelo, a montadora consegue fazer esse filtro e disparar mensagens que apareceriam no visor do multimídia ou no celular", explica Antonio Azevedo, fundador da Logigo, uma empresa brasileira de tecnologia de conectividade.

"O cliente será obrigado a dar um OK que recebeu a informação e isso volta para a base de dados da montadora que passa a ter controle e até consegue provar que o dono do carro está ciente", complementa Antonio. "Outra possibilidade é que o aviso fique aparecendo na tela insistentemente até que o recall seja atendido".

Enquanto essas soluções são estudadas e/ou colocadas em prática, convido todos aqui a não tercerizarem a sua segurança. Ninguém deveria ter mais interesse na sua própria vida e da sua família do que você mesmo. "Faça a pesquisa, fique de olho sempre e jamais menospreze uma falha". Essas provavelmente seriam as palavras do proprietário do Civic se tivesse a chance de ter sido ouvido por essa coluna.