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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bikes compartilhadas: qual é o potencial não explorado nas grandes cidades

Joel Silva/Folhapress
Imagem: Joel Silva/Folhapress
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

27/05/2022 04h00

Quem utiliza ou já utilizou bicicletas compartilhadas pode ter se perguntado qual é a lógica que está por trás do sistema e como ele se sustenta. Nos últimos anos, a disponibilidade de sistemas de compartilhamento de bicicletas aumentou, sobretudo nas grandes capitais brasileiras.

Muitas delas, como São Paulo, Salvador, Fortaleza e Rio de Janeiro, já contam com sistemas de diferentes escalas destinados ao empréstimo de bicicletas para pessoas que querem incorporar o hábito de pedalar em seu dia a dia, seja em todo o trajeto, seja em integração com o transporte público coletivo. Porém, as condições para pegar uma bicicleta emprestada podem variar muito de município para município, tornando o sistema mais ou menos acessível.

No Brasil, a disseminação de sistemas de compartilhamento ocorreu, em sua maioria, através da iniciativa privada mediante autorizações expedidas pelo poder público para a implantação de estações em praças, parques ou vias.

Em muitas cidades, a escala e configuração do sistema deixa clara a intenção das operadoras privadas de aumentar a visibilidade da marca das empresas que as fomentam. Por exemplo, através do fornecimento do serviço apenas em áreas urbanas com perfil de renda elevado ou com vocação turística.

Apesar disso, pouco a pouco as bicicletas compartilhadas tornaram-se cada vez mais atrativas e populares, o que não necessariamente fomentou o aumento dos investimentos direcionados à sua expansão em direção aos bairros com diferentes perfis socioeconômicos. Infelizmente, por vezes, os sistemas foram abandonados, sucateados e descontinuados.

Não é a primeira vez que um serviço de caráter público tem seu primeiro impulso promovido pela iniciativa privada. O mesmo aconteceu com os serviços de ônibus na grande maioria das cidades brasileiras. Com o aumento das distâncias entre o local de moradia e de emprego, dada a expansão da malha urbana das cidades brasileiras, as distâncias passaram a ser impossíveis ou muito difíceis de serem percorridas a pé ou por bicicleta.

Foi quando surgiram os serviços de transporte coletivo privado de passageiros, que, em cidades como São Paulo, foram fomentados por pequenos comerciantes. Assim, o público dono de pequenos comércios viu seus rendimentos dispararem e a natureza dos negócios mudar frente ao mercado construído no vácuo da ação do poder público.

Nessa linha, algumas cidades se destacam por exercer um papel regulador quando o assunto é o compartilhamento de bicicletas, o que tem garantido a continuidade e ampliação dos sistemas segundo lógicas que seguem princípios como: direito à cidade, acessibilidade, universalidade e outros previsto na legislação brasileira que buscam garantir direitos sociais.

Um deles é o Bicicletar, sistema de bicicletas públicas compartilhadas do município de Fortaleza, capital do estado do Ceará. Entre as características que o diferenciam dos sistemas em operação em outras capitais brasileiras está sua lógica de implantação, que segue diretrizes estabelecidas em políticas e planos e estabelece os locais para implantação das estações considerando integração com o sistema de transporte público coletivo e tempo de empréstimo compatível com a dinâmica da população.

Partindo de um exemplo concreto, imagine se você pudesse pegar uma bicicleta emprestada no terminal de ônibus mais próximo, pedalar até sua casa com ela e só devolver no outro dia quando voltasse ao terminal para mais um dia de trabalho? Ou, ainda, se você pudesse ir até o terminal, pegar uma bicicleta na sexta-feira e permanecer com ela durante todo o final de semana para dar um rolê tranquilo nas ruas do seu bairro?

Pois é, esse e outros benefícios só são possíveis através da atuação regulatória do poder público, que nada mais é do que ditar as regras que precisam ser cumpridas pelas empresas interessadas em prestar serviços públicos e reconhecer a bicicleta como meio de transporte.

Algumas cidades como Maricá, localizada na região metropolitana do Rio de Janeiro prestam o serviço de compartilhamento de bicicletas de forma direta, ou seja, a partir de seus próprios recursos. Essa realização pode ocorrer por meio de uma empresa pública, tal como a Empresa Pública de Transportes (EPT) , responsável por operar os sistemas de transporte público coletivo, que, assim como o sistema de bicicletas, é Tarifa Zero. Isto é, tanto os ônibus quanto as bicicletas podem ser utilizados por moradores e pessoas que acessam o município para trabalhar, fazer compras ou frequentar suas belas praias.

Outro sistema de bicicletas compartilhadas que já começou bem é o sistema que acabou de ser licitado na cidade de Bogotá, capital da Colômbia. O plano tem a previsão de implantação de 3 mil bicicletas, sendo que parte das unidades são feitas para receber com conforto e segurança pessoas com deficiência e responsáveis pelo cuidado de crianças pequenas.

Neste momento, a cidade colombiana prepara-se para tirar do papel um sonho de muitos anos, colocando a cidade mais uma vez como exemplo à frente do processo de expansão de infraestrutura para a mobilidade ativa na América Latina. Mas isso só foi possível após muita participação social, mudanças em marcos legais, elaboração de projeto básico, estruturação financeira etc.

Os sistemas de bicicleta compartilhada chegaram para ficar, e sairá na frente quem der os passos necessários para que esses tornem-se parte do sistema de mobilidade urbana das cidades brasileiras.