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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Onda de calor: arborização pode reduzir o estresse térmico no transporte

FÁBIO VIEIRA/FOTORUA/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: FÁBIO VIEIRA/FOTORUA/ESTADÃO CONTEÚDO
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

21/01/2022 04h00

Bastaram duas semanas em deslocamento no centro-oeste do país para me relembrarem do valor de uma sombra. Foram duas experiências que me provocaram essa reflexão, e o interessante é que ambas evidenciaram o papel das árvores para a melhora das condições térmicas em nossos trajetos.

A primeira foi quando vi algumas pessoas sentadas embaixo de uma árvore próxima ao ponto de ônibus, a segunda aconteceu enquanto eu caminhava em uma via árida e avistei uma praça cheia de árvores, que apareceu como um oásis onde eu poderia retomar o fôlego.

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As condições de temperatura sofrem variações regionais devido a inúmeros fatores, então, apesar da capacidade de adaptação do corpo humano, algumas temperaturas podem exigir mais de quem se desloca pelas ruas e avenidas das cidades, sobretudo em áreas sem vegetação e revestidas de asfalto e concreto.

Para além das diferentes condições de temperatura, na última semana, várias cidades latino-americanas registraram temperaturas que superaram a média histórica, colocando em risco a saúde de algumas pessoas ou tornando seu dia a dia mais exaustivo.

Sabemos que a tendência é que fenômenos climáticos como estiagem, secas e ondas de calor sejam intensificados pelo aquecimento global, portanto, precisamos realizar mudanças na infraestrutura urbana das cidades para atenuar os desconfortos decorrentes das altas temperaturas e assegurar, inclusive, melhores condições térmicas para quem anda a pé, de bicicleta e em ônibus, muitas vezes cheios e sem ar condicionado, ou outras soluções para reduzir a temperatura no interior dos veículos.

Os incômodos causados pela alta temperatura, também conhecidos como estresse térmico, experienciados pelas pessoas durante seus deslocamentos, podem levá-las a desistir de ir caminhando e pedalando até o trabalho, ou mesmo causar danos a sua saúde a curto e longo prazo.

A boa notícia é que medidas tão simples como plantar árvores ao longo das calçadas, ciclovias e pontos de ônibus podem contribuir para a melhora do microclima. Como o nome já diz, o microclima é um ambiente onde as condições climáticas são diferentes das condições atmosféricas do entorno, dada a existência de vegetação, correntes de vento e solos permeáveis.

Nesse sentido, cabe cabe citar o artigo "The role of urban trees in reducing land surface temperatures in European cities" (O papel das árvores urbanas na redução da temperatura da superfície terrestre nas cidades europeias, título em tradução própria para o português) publicado na revista Nature Communications em novembro de 2021.

O artigo apontou que a redução da temperatura em cidades arborizadas podem ser de 4 a 2 vezes menor que em espaços urbanos sem árvores,dados que seriam difíceis de encontrar em análise de cidades brasileiras, mas existem as investigações locais indicando que a redução da temperatura em ambientes arborizados pode chegar a 9°C.

Duas informações que contribuem com a reflexão e experiência relatada no início do texto, tão óbvia para quem depois de andar por uma avenida sem uma sombra sequer, encontra alívio ao passar pela calçada ao lado de um parque ou de uma praça arborizada.
Uma rota possível para garantir mais conforto térmico para quem se desloca nas cidades é aumentar a arborização.

O que requer tirar a arborização do papel e levá-la para além dos canteiros centrais, colocando-a junto das calçadas e ciclovias, pois são nessas posições que os benefícios das folhas podem ser estendidos para quem usa a mobilidade ativa (a pé e bicicleta), protegendo essa parcela importante da população da insolação direta.

No entanto, é necessário superar a resistência de comerciantes locais frente à possibilidade da perda de visibilidade das fachadas das lojas que as massas arbóreas poderiam causar, assim como a de moradores e moradoras que se queixam por conta da queda das folhas em seus quintais e calçadas.

Mas ambos problemas podem ser amenizados com um bom planejamento paisagístico responsável por implantar a espécie mais adequada para cada situação, orientado por campanhas de plantio de árvores e manuais de arborização e em diálogo com a ação conjunta da sociedade civil, do poder público e da iniciativa privada.

Com mais árvores no caminho é possível amenizar problemas climáticos que atingem as cidades, como impacto das chuvas, temperaturas elevadas, poluição do ar e muitos efeitos adversos que tendem a se intensificar nos próximos anos representando um alto risco para a população.

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