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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Descarbonizar o transporte é mais do que deixar diesel e gasolina para trás

Getty Images
Imagem: Getty Images
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

12/11/2021 04h00

Hoje (12) é o último dia da COP 26 (Conferências das Partes), realizada pelas Nações Unidas, que teve início em 31 de outubro em Glasgow, na Escócia. A conferência é realizada desde 1995 e, de lá para cá, centenas de países se reúnem anualmente visando discutir o rumo do planeta frente aos desafios da mudança climática, uma ameaça à vida.

A conferência tem como objetivo avançar na implementação do Acordo de Paris, celebrado em 2015, cujo propósito é limitar o aquecimento global de acordo com patamares mais seguros, atualmente 1.5 ºC.

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Limitar o aquecimento global requer a redução de Gases Efeito Estufa (GEE) como o dióxido de carbono CO2, emitido por veículos a combustão, isto é, movidos a diesel e a gasolina. Consequentemente, o setor de transporte possui um papel importante para o alcance de metas globalmente pactuadas que indicam a necessidade de descarbonização de setores estratégicos rumo às emissões zero — estágio em que as emissões de carbono são neutralizadas, por exemplo, através de sua absorção pelas florestas, solo e oceano.

Mundialmente as estimativas são de que o setor de transporte é responsável por 14% das emissões globais e por 24% do total mundial das emissões de GEE relacionado com o setor de energia, que aumentaram rapidamente em comparação com outros setores. Portanto, são necessárias mudanças que passam pela inclusão de fontes de energia e tecnologias limpas, ou seja, menos emissoras e poluentes.

Afinal, não podemos deixar de lado os efeitos nocivos da poluição do ar para a saúde humana e vida no planeta. Mas, ao avançar na proposição de soluções, é fundamental não reduzir o papel que o setor de transporte tem apenas a relação entre inclusão de novas tecnologias e redução do volume de emissões produzidas e deixar de lado temas como acessibilidade, subfinanciamento, longos tempos de viagem, custos crescentes, falta de regularidade etc.

Discutir novos rumos para o desenvolvimento de setores cruciais como o transporte precisa ser também a oportunidade de construir agendas públicas comprometidas com o combate às desigualdades, que se reflete na pouca atenção dada aos meios de transporte predominante escolhidos pela maioria da população — que são também, como sabido, os mais sustentáveis.

Além disso, a discussão sobre transporte precisa estar entrelaçada com o tema do desenvolvimento urbano, cuja melhor síntese se dá a partir da perspectiva da mobilidade urbana sustentável que congrega o transporte a pé, por bicicleta, público coletivo, além das logísticas de bens e mercadorias e dos individuais motorizados (carros e motos). Isso tudo deve acontecer a partir de uma visão sistêmica que coloca em perspectiva o tempo despendido, custos e danos causados às pessoas que atravessam distâncias para chegar ao trabalho que, em alguns países, é o equivalente a trajetos que cruzam fronteiras internacionais.

Por aqui precisamos cruzar fronteiras rumo ao uso de tecnologias mais limpas, mas também temos que manter nossa atenção aos tripés que equilibram o conceito de sustentabilidade: social, econômico e ambiental. No Brasil, um olhar rápido sobre como as pessoas se deslocam revela que os meios de transporte mais utilizados são o transporte coletivo e transporte ativo (a pé e bicicleta). Porém, as taxas de motorização crescem de forma acelerada no vácuo da má qualidade da infraestrutura de mobilidade.

Segundo dados da SLOCAT — uma parceria que visa colaborações e ações sustentáveis focada em transportes com baixa emissão de carbono —, o crescimento tendencial da posse de veículos na América Latina é de 58% (2005 - 2018), enquanto a média mundial é de 27%, enquadrando-se como o maior do mundo.

Um dos passos mais importantes a serem dados na COP 26, cujas negociações podem se estender pelo final de semana, acontecem na direção de viabilizar a implementação das metas globalmente pactuadas, o que passa pela destinação de ao menos 100 bilhões anuais para investimentos intencionado a redução das emissões e adaptação à mudança do clima em países em desenvolvimento e emergentes como o Brasil.

São também instrumentos importantes as NDC, sigla em inglês para Contribuições Nacionalmente Determinadas, planos que expressam as metas para a redução de emissão de GEE. É importante destacar que, dentre as NDCs realizadas, apenas 15% incluem objetivos específicos orientados ao setor de transporte (SLOCAT).

Com o desafio colocado pela mudanças de matriz modal,caracterizada pela substituição de modos de mobilidade sustentável pelo transporte motorizado individual, substituir a frota veicular movida a gasolina e diesel por carros elétricos só resolve parte do problema. Além de que pode ser um processo lento em países como o Brasil, onde carros passam de mão em mão e tem vida útil longa.

Ademais, esse caminho não resolve outros problemas gerados pela motorização como congestionamentos, vidas perdidas no trânsito e ausência de permeabilidade do solo e vegetação. Logo, a situação requer pensar novos modelos de desenvolvimento urbano que consigam congregar e reverter os prejuízos gerados pelo desenvolvimento calcado no transporte rodoviário, apoiando a redução progressiva da participação do setor no volume de emissões e uma retomada verde e inclusiva.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL