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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Oportunidades e desafios para transformação digital do transporte público

Divulgação/Governo do Estado de São Paulo
Imagem: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

15/10/2021 04h00

Ao olhar qualquer mapa que indique a localização das redes de acesso à internet residencial no Brasil, rapidamente constatamos a desigualdade de distribuição entre as regiões Sul e Sudeste, onde a acessibilidade é maior, e as demais regiões, onde é menor.

Do mesmo modo, cidades costeiras, em comparação com cidades localizadas nas regiões centro-oeste e norte do país, possuem melhores condições de acesso. Outros mapeamentos que reflitam a distribuição de acesso à infraestrutura e aos serviços essenciais - como transporte, saúde de alta complexidade e rede de esgotamento - mostram assimetrias semelhantes.

Nesse sentido, antes de começar a falar sobre a digitalização do transporte público coletivo é fundamental fazer a seguinte pergunta: Como promover a digitalização do transporte e, ao mesmo tempo, contribuir para a redução das desigualdades?

Como primeiro passo para responder essa questão, gostaria de compartilhar uma visão da Carta Brasileira para Cidades Inteligentes que considero apropriada para superar o desafio apresentado: "A transformação digital pode gerar impactos positivos ou negativos, dependendo do contexto. A realidade de cada lugar também influencia no potencial de uso das tecnologias da informação e comunicação. É preciso, portanto, considerar a ampla diversidade e as profundas desigualdades históricas que marcam nosso território ao agir e refletir sobre a transformação digital. Só assim será possível que a transformação digital nas cidades brasileiras seja positiva e sustentável."

A transformação digital do sistema de mobilidade pode contribuir desde que haja o reconhecimento dos desafios históricos do contexto brasileiro para o aperfeiçoamento de, ao menos, oito elementos: planejamento do sistema de transporte; participação social; informação à usuária e ao usuário; controle de emissões e monitoramento da qualidade do ar; combate ao assédio sexual; monitoramento da operação e priorização do transporte público.

Acredito que qualquer pessoa concorda que, para planejar o sistema de transporte, é importante observar dados qualitativos e quantitativos. Por isso a coleta de informações é crucial e, para ilustrar não só os desafios concretos, mas também as oportunidades associadas com a digitalização do sistema de transporte, apresentarei o exemplo das mudanças recentes que estão em curso nas cidades do Rio de Janeiro e Fortaleza.

A primeira delas é a licitação do sistema de bilhetagem digital - o cartão eletrônico utilizado em muitas cidades - prevista para acontecer no início do mês de dezembro. A licitação faz parte da estratégia de evitar conflitos de interesse e dar mais transparência à gestão das receitas das passagens, as quais futuramente poderão ser pagas por meio de aplicativos nos celulares, pix, QR code e a aquisição mensal antecipada.

Essa nova licitação é resultado de muitos anos de discussão sobre gestão do sistema de bilhetagem eletrônica na capital carioca e, com essa atualização, a Prefeitura do Rio de Janeiro assume centralidade na gestão e distribuição das receitas oriundas das tarifas pagas pelas pessoas que utilizam o sistema de transporte público coletivo.

Enquanto isso, a equipe da Secretaria Municipal de Transporte trabalha na construção da primeira Especificação Geral de Feed de Trânsito (GTFS, na sigla em inglês) pública da cidade, que trata da possibilidade de mapeamento, georreferenciamento, monitoramento e de planejamento dos itinerários do sistema por meio do uso de diferentes softwares e aplicações.

Trocando em miúdos, a partir de sua implantação, será possível saber onde os ônibus estão, se cumpriram o horário, quebraram no meio do caminho etc. Informações que, posteriormente, podem ser visualizadas juntamente com as informações do sistema de bilhetagem digital e contribuir para o melhor acompanhamento do número de pessoas transportadas e custos associados a cada viagem, que podem ser realizadas com dois ou mais ônibus.

Isso sem falar na possibilidade de compartilhamento dessas informações com a sociedade civil, o que possibilita a melhoria do controle social e, portanto, da participação social quanto a qualidade do sistema e melhorias futuras. Sem contar que o uso de painéis e aplicativos podem contribuir para o planejamento dos deslocamentos diários e acabar com a incerteza da espera no ponto de ônibus.

O georreferenciamento, ou seja, a localização dos ônibus nas vias e avenidas, também pode ser utilizado para dar mais segurança a quem utiliza o sistema, como foi feito na cidade de Fortaleza, que implantou um sistema de denúncia de violência sexual no sistema de transporte público da capital cearense, no qual é possível identificar onde o crime ocorreu, reportar à polícia, coletar imagens das câmeras internas e realizar ações estratégicas de combate ao assédio sexual nos ônibus.

As duas experiências demonstram o quanto a digitalização dos sistemas de transporte pode contribuir para melhorias integrais no sistema e deixar o dia a dia de quem usa o transporte coletivo com mais qualidade e conforto. Mudanças assim também podem favorecer quem opta por outros meios de transporte público, como o transporte a pé e por bicicleta, mostrando que visões mais amplas sobre desafios e oportunidades contribuem com cidades mais justas e integradas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL