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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Crise sanitária: ai que saudade que eu tenho das ruas por onde andei

Anahi Martinho/UOL
Imagem: Anahi Martinho/UOL
Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

02/04/2021 04h00

A ausência de auxílio para pessoas que realizam trabalhos de maneiras autônomas e que precisam sair às ruas para tentar minimizar os danos em sua renda mensal se mascara de um falso dilema entre salvar vidas ou salvar a economia.

Deixar essa enorme parcela da população vulnerável e desassistida deixa ainda mais desafiador o exercício de ter esperança e tentar enxergar uma luz no fim do túnel ao prolongar esse contexto de crise, que tende a ficar ainda mais dramático.

A crise humanitária e sanitária transforma a cidade em que vivemos, cada dia mais, ao desconfigurar áreas comerciais, esvaziar prédios de escritórios, deixar mesas e cadeiras de sala de aula vazias e tornar um simples deslocamento até o mercado algo estressante. Olho pela janela, sinto saudade de algo que não sei nomear.

Conversando por telefone com uma amiga que trabalha como psicóloga, relembramos de como eram nossos trajetos até o trabalho. Ela ia de trem e o tempo de deslocamento era usado para organizar a agenda, ler um livro, rever a ficha dos pacientes e organizar mentalmente as atividades do dia.

Eu ia de bicicleta e a escolha do trajeto dependia do quanto estava atrasada. Nos dias em que saía com mais folga de horário pedalava por dentro do bairro, onde há mais árvores e menos velocidade. Quando me perdia no tempo, a escolha era pelo caminho mais curto, disputando espaços com os carros e, por vezes, entrando em conflito com algum motorista inconsequente.

Havia também os dias em que ia a pé. Os melhores. Colocava um sapato confortável, um podcast no ouvido e, sem pressa, caminhava até o trabalho. No trajeto, passava por dentro do Parque da Água Branca, na zona oeste do município de São Paulo, desviava de galinhas, gansos, gatos e pessoas fazendo exercícios. Ao final do percurso, estava mais perto da paz e longe do caos habitual.

Olhos no relógio: chegou o horário do almoço. Nesse momento, trocava mensagens com amizades mais próximas ou procurava me infiltrar em um grupo que se organizava para almoçar.

No caminho, algumas fofocas, comentários sobre política e a expectativa de chegar ao restaurante e encontrar uma mesa que acomodasse todo mundo, a comida ainda quente ou um cardápio recheado de boas opções. Atualmente, por telas de computador, no final de uma reunião recordamos desses momentos e lamentamos os restaurantes que fecharam as portas permanentemente, desassistidos de programas de proteção para pequenos comércios atravessarem a crise.

Lembro-me de novo da conversa com minha amiga. Ela contou que a dona do salão de cabeleireiro que fica ao lado da nossa antiga casa está internada em um hospital, entre a vida e a morte. Apesar de ter tomado todos os cuidados possíveis, a Covid-19 entrou por sua porta que, sem auxílio emergencial, teve que se manter aberta.

Lamentamos o fato e conversamos sobre outras notícias tristes associadas à doença. Termino a chamada torcendo para voltar à Guilhermina Esperança e encontrá-la conversando com alguém na calçada.

Outro dia, trocando mensagens rápidas com um amigo que integra a Cidadeapé, associação da qual também faço parte, falamos da saudade dos momentos após reuniões, durante o caminho até o ponto de ônibus ou metrô, quando colocávamos a conversa em dia.

Às vezes, antes de voltarmos para casa, decidíamos parar em um bar ou restaurante, transformando o trajeto de volta para casa num momento compartilhado com outros amigos e amigas, deixando a conversa ir até chegar a hora do metrô fechar. Aliás, quantas vezes eu não arrumei motivos para incluir um destino entre o trabalho e a volta para casa, sempre com a intenção de esperar a quantidade de pessoas nos ônibus e metrô diminuir, ou mesmo trânsito acalmar.

Hoje, no máximo saio para comprar comida. Coloco a máscara, pego uma sacola e vou ao mercado para me assustar novamente com os preços. No caminho, passo por três pontos de ônibus, todos cheios de pessoas e, na ciclovia, entregadores e entregadores pedalam de um lado para o outro.

A calçada, que é caminho para uma estação de metrô, está igualmente cheia de gente com máscaras no queixo, na boca, no lugar certo ou mesmo sem a proteção. Me sinto mal em meu lugar privilegiado de poder trabalhar em casa, mas logo me dou conta que confundir direitos com privilégio é tão perverso quanto colocar economia acima da saúde e da vida.

Na volta, passo em frente a feira. Puxa... que saudade de passar por ali, tomar um caldo de cana e aceitar um pedaço de fruta cortado na hora pelo feirante. Ando mais um pouco e passo pelo samba, agora de portas fechadas, cuja movimentação e luzes tornavam mais seguro o caminho para casa no horário noturno, e mais divertidos os finais de semana. Torço para que o Boteco da Dona Tati sobreviva.

Está cheio de gente na rua, porém quando abro o jornal a orientação é ficar em casa. Se não mudarmos esse trajeto, como fez a cidade de Araraquara, cidade do interior do Estado de São Paulo, que após adotar medidas rígidas de distanciamento social conseguiu zerar o número de mortes; e sem mobilizar recursos para auxiliar quem mais precisa, seguiremos em luto, assistindo o número de mortes no Brasil aumentar todos os dias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL