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Kelly Fernandes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com UTIs lotadas por covid-19, cresce letalidade do trânsito em São Paulo

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

26/03/2021 04h00

Informações sobre o aumento do número de mortes no trânsito no município de São Paulo ganharam o noticiário nesta semana. Os óbitos crescem contrariando a lógica de que a redução do movimento nas ruas diminuiria o número de ocorrências.

Mas o aumento fica evidente nos dados disponíveis no Infosiga (portal do Governo do Estado de São Paulo) correspondentes a janeiro e fevereiro deste ano. Apenas nesses dois meses ocorreram 138 óbitos no trânsito, com aumento de cerca de 8% em janeiro e 19% em fevereiro, em comparação aos mesmos períodos de 2020.

O aumento da violência no trânsito ocorre em meio ao crescimento descontrolado do número de mortes por covid-19 causadas pela má gestão da pandemia, que já ceifou mais de 300 mil vidas, levou o sistema de saúde ao colapso e as cidades a um estado de calamidade pública.

É inegável, portanto, que o aumento das fatalidades no trânsito também está associado à escassez de profissionais da saúde, medicamentos, oxigênio e leitos de UTI. Inclusive, na capital paulista, a taxa de ocupação de leitos de UTI já está acima de 90% e com frequência chegam a público notícias sobre falta de insumos.

Entre os óbitos no trânsito ocorridos no período, as pessoas que mais morreram foram os motociclistas, o que provavelmente está associado ao crescimento do uso de serviços de entrega a domicílio, que ao remunerarem mal as pessoas que realizam as entregas, além de estimular cadastros em mais de um aplicativo.

As empresas facilitadoras do delivery, muitas vezes, associam metas de produtividade com velocidade da entrega, de modo a pressionar e sobrecarregar quem está na linha de frente desse serviço - que, em grande parte, usa a moto como veículo.

Os dois fatores associados tornam comum a corrida contra o tempo para realizar o maior número possível de entregas que, para a vida das pessoas que prestam ou até mesmo estão submetidas a essa função, significa a composição do valor necessário para pagar o aluguel e outras despesas.

Em seguida, são as pessoas que andam a pé que mais perderam a vida no trânsito (46), vítimas de atropelamentos em vias que não lhes oferecem segurança ou prioridade previstas em leis e políticas públicas. Lembrando que, historicamente, motociclistas e pedestres são as principais vítimas da violência no trânsito dos grandes centros urbanos, resultado da má gestão pública da fiscalização, infraestrutura e educação no trânsito.

No período, também aumentou o número de óbitos de motoristas e ocupantes de automóveis (60%). Possivelmente pelo fato de as cidades estarem mais vazias, muitas pessoas se sentem encorajadas a adotar comportamentos de risco no trânsito e cometer infrações que podem ser fatais, como mexer no celular enquanto dirige, desrespeitar limites de velocidade ou "furar" o sinal vermelho.

Tais infrações se refletem nas principais causas de óbitos, como atropelamentos e colisões, dentre os quais mais de 70% acontecem em hospitais depois do socorro.

Uma pesquisa realizada pela Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego) demonstra que cerca de seis a cada 10 leitos são ocupados por vítimas da violência no trânsito. Tais violências, quando não causam mortes, acarretam em lesões e danos físicos, psicológicos e emocionais que podem ser irreparáveis.

Para além da emergência social, existe também o custo econômico. De acordo com estudos produzidos pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), cada ocorrência de trânsito custa à sociedade brasileira R$ 261.689. Quando há vítimas fatais, o custo médio sobe para R$ 664.821.

Só no ano de 2014, no qual ocorreram mais 167 mil sinistros de trânsito, os custos atingiram o patamar de R$ 12,8 bilhões, entre os quais 62% são relativos aos cuidados com saúde e às perdas de produção devido às lesões ou mortes.

Em contexto tão adverso, no qual cada insumo e leito de UTI disponível representa o aumento das chances de salvar vidas, conter a violência no trânsito também precisa ser prioridade do poder público, através do aumento da fiscalização.

Enquanto isso, a solidariedade, empatia e responsabilidade frente a esse contexto, o qual requer medidas de distanciamento social, também pode ser expressa por meio de comportamentos éticos e preventivos, como respeito aos limites de velocidade, respeito às prioridades de pedestres e ciclistas e atenção à sinalização. E isso tudo apenas se for indispensável estar nas ruas, avenidas e rodovias. Se possível, fiquem em casa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL