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Kelly Fernandes

Bicicletas: qual a parte que cabe a elas nas cidades brasileiras

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

22/01/2021 04h00

É difícil afirmar qual foi a primeira cidade a disponibilizar infraestrutura cicloviária no país, o fato é que nos últimos anos a bicicleta foi incluída na agenda pública. Ou seja, ganhou espaço - ainda que reduzido - no orçamento e em planos e projetos de mobilidade. Com mais ou menos protagonismo, a depender do município e de outras forças sociais e econômicas, a popularidade desse meio de transporte aumentou e está cada dia mais presente na vida das pessoas.

Por infraestrutura cicloviária entende-se o conjunto de elementos e dispositivos necessários para tornar possível o deslocamento por bicicleta: seguro, acessível e confortável. A infraestrutura mais presente no vocabulário popular é a ciclovia, apesar das ciclofaixas serem as mais presentes nas ruas e avenidas.

As ciclofaixas são demarcadas em uma rua ou avenida a partir de duas faixas longitudinais e outros elementos de sinalização, o que as torna uma opção mais barata e de fácil execução. Já as ciclovias precisam ser igualmente sinalizadas e criar barreiras mais seguras em relação à circulação veicular através de desníveis ou elementos físicos, gradis, canteiros e guias contínuas à infraestrutura cicloviária, por exemplo.

Na hora de criar condições para a mobilidade por bicicleta, as ciclovias e as ciclofaixas são mais do que elementos para uma escolha despretensiosa. Explicando de maneira simples, as ciclovias são mais adequadas para a instalação em vias com intensa circulação de veículos e/ou nas quais a velocidade veicular permitida coloca quem pedala em risco.

Já as ciclofaixas são mais adequadas para locais com circulação menos intensa ou que terão a velocidade veicular reduzida após a implantação da infraestrutura cicloviária.

Tanto a ciclovia quanto a ciclofaixa podem ser instaladas junto às calçadas ou ao canteiro central, o que também é mais do que uma escolha ocasional. Muitas cidades optam por instalar a infraestrutura cicloviária junto ao canteiro central e isso, em alguns casos, pode reduzir a quantidade de adaptações a serem realizadas na sinalização viária: placas, faixas de pedestres, indicações na pista etc.

Por outro lado, ciclovias e ciclofaixas ao longo de canteiros escuros e isolados não são convidativas e nem seguras para ciclistas, sobretudo no horário noturno, muito menos quando estamos falando de mulheres.

As opções de infraestrutura de mobilidade para a bicicleta não se restringem a essas opções. As ciclorrotas, por exemplo, são alternativas capazes de garantir deslocamentos em segurança para ciclistas a partir da adequação da sinalização das vias e de medidas que definam velocidades veiculares reduzidas de modo a permitir o compartilhamento das vias.

A implantação de ciclorrotas é um passo importante para cidades tornarem-se cicláveis, o que presume a possibilidade de fazer um deslocamento porta-a-porta utilizando a bicicleta. Para isso, é necessária a disponibilidade de uma malha cicloviária abrangente, contínua e integrada, inclusive com o transporte público coletivo.

Ademais, infraestrutura para a mobilidade cicloviária também é feita de informação, motivo pelo qual é importante informar para ciclistas a quantos metros está uma estação de metrô ou terminal de ônibus, assim como onde os paraciclos e bicicletários estão localizados - ambos são locais de estacionamento de bicicletas, com a diferença de que os bicicletários possuem controle de uso e pessoas responsáveis por resguardar as bicicletas, e os paraciclos não.

As bicicletas compartilhadas também são parte disso. É comum que sejam operadas por empresas privadas que disponibilizam bicicletas por um determinado período de tempo mediante pagamento de uma taxa de uso.

Após, a pessoa que alugou precisa devolvê-la em uma estação de compartilhamento, que não precisa ser a de retirada, ou, a depender do tipo do serviço de empréstimo, liberá-la para outra pessoa no destino final. Mas o compartilhamento também pode ser público e gratuito.

Para viabilizar essas duas opções, é importante que as bicicletas sejam parte do sistema de mobilidade e não apenas um serviço pontual e restrito às áreas de maior interesse econômico.

Deslocamentos por bicicleta são ainda mais prazerosos, eficientes e seguros se a infraestrutura cicloviária contar com sombras de árvores, bebedouros, iluminação com altura adequada, ou seja, que ilumine bem o chão e as travessias. Aliás, as travessias cicloviárias são essenciais para a segurança de quem pedala, ao possibilitarem a continuidade segura do percurso assim como a conexão entre trechos de infraestrutura cicloviária.

Por fim, um bebedouro com água potável e bancos ou outros mobiliários urbanos que permitam o "ficar" são muito bem-vindos, até porque a cidade não é só passagem, e os prazeres moram no "parar" e escutar a risada de crianças brincando no balanço, apreciar o chacoalhar das árvores no ritmo do vento ou ver o pôr-do-sol ao final de um dia cansado para recuperar as esperanças, atualmente tão escassas e preciosas.

Agora que você sabe mais sobre infraestrutura de mobilidade para a bicicleta, deixo aqui o convite para responder o questionário da Pesquisa Pública para a Estratégia Nacional da Bicicleta, fruto da parceria de várias entidades da sociedade civil e que representam gestores públicos, com apoio do Ministério do Desenvolvimento Regional (órgão federal). O questionário está disponível de forma virtual e é destinado a todas as pessoas com idade mínima de 15 anos, ciclistas ou não ciclistas, de todas as cidades brasileiras.

Respondendo ao questionário você contribui para a construção do futuro plano nacional de ações para o desenvolvimento da mobilidade por bicicleta até 2030. Participe e ajude a tornar as cidades brasileiras cada dia mais cicláveis, o que significa não só tornar esse meio de transporte mais atrativo - inclusive para você -, como também salvar a vida de inúmeras pessoas ciclistas que perdem a vida no trânsito todos os anos.