PUBLICIDADE
Topo

Entre a casa e o ponto: mulheres relatam medo e violência ao pegarem ônibus

Karina Yamamoto/UOL
Imagem: Karina Yamamoto/UOL
Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

24/07/2020 04h00

Dia 25 de julho é o Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha. Como reflexão, proponho a leitura do texto feito por Marielle Franco, "Sobre as mulheres negras faveladas e a mobilidade urbana", em que a autora faz um retrato do sistema de transporte coletivo da cidade carioca.

Passados sete anos da publicação e a retirada da vida de Marielle, nada mudou. O medo da rua vazia, do ônibus lotado e do ponto de parada continuam fazendo parte do dia-a-dia das mulheres.

Ruth Costa, moradora de Águas Lindas, a 20 quilômetros de Belém, pegava o primeiro ônibus do dia, às 04h30, que a deixava perto da garagem onde embarcava em outro ônibus, como cobradora. Entre as memórias que ligam o ponto de ônibus até sua casa: assassinatos, assaltos e agressão física, além de falta de calçadas, iluminação e segurança pública.

A ausência de infraestrutura e segurança pública também fazem parte da realidade de Jayane Condulo, moradora da periferia de São Paulo, que ressalta a falta de calçadas e presença de inúmeros buracos. Para ela, a superação de um evento traumático - um assalto - ocorreu por meio da colaboração do pai e do marido, que passaram a acompanhá-la até o ponto.

Mas, com a mudança de rotina da família, esse suporte se tornou mais raro e chegar no ponto de ônibus voltou a ser um misto de alívio e medo, que é maior durante os cinco minutos que demora para chegar em seu apartamento.

Os mesmo cinco minutos separam o terminal de ônibus da casa de Isabela, que vive na cidade de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Ela, com medo dos desafios do trajeto, às vezes pede para que os pais a busquem de carro. Faz isso porque sente que, nesse tempo, muita coisa pode acontecer, como perder o computador, onde registra toda a vida acadêmica, ou sofrer violências já experienciadas no passado.

Por conta de uma sensação similar, Jaqueline David, que morou em São José, cerca de 17 quilômetros de Florianópolis, por medo do tempo de espera no ponto, mantém o corpo em movimento, com a intenção de parecer que está de passagem, Também evita se distrair com o celular, livro ou música.

Diferentemente da República, bairro de São Paulo, a cidade pequena onde morava permitia encontros não marcados no terminal, às 23h25, com "estranhas conhecidas", que após descer do ônibus caminhavam mais ou menos juntas, em um acordo celebrado sem palavras, mas cheio de confiança.

Por não sentir a mesma confiança, Sheroll Martins fica com receio de pedir para o motorista parar fora do ponto, mais perto da sua casa, mesmo havendo um lei municipal que garante esse direito.

Moradora recente do bairro Vila dos Castelo, na zona leste da capital paulista, diz que se sente inibida e acuada. A boa iluminação da rua diminui a sensação de insegurança durante o percurso até sua casa, mas não supera a sensação de segurança de quando o pai a acompanhava.

Essa mesma sensação de insegurança dominava os pensamentos de Erica, moradora da cidade de Salvador, quando precisava sair do trabalho mais tarde. Nascida na cidade baiana, conta que sempre teve medo de ônibus cheios, pela mesma motivação que fazem com que prefira sentar no corredor: medo de assédio e violência sexual.

Hoje, mora perto do ponto de ônibus, recorda que várias vezes mudou de calçada em situações em que se sentiu perseguida, às vezes, pedia táxi, mesmo gastando mais dinheiro ou usava a bicicleta. A bicicleta também foi a forma que Ruth Costa, protagonista do primeiro relato, encontrou para se sentir menos vulnerável, apesar de já ter tido a bicicleta roubada enquanto voltava do trabalho.

Fechado o ciclo de relatos, que reúnem experiências de mulheres das cinco regiões do Brasil, é importante deixar claro que a intenção aqui não reduzir a experiência dessas mulheres, na cidade e na mobilidade, à violência, mas chamar a atenção para elementos do cotidiano delas que escapam às pesquisas, planos, projetos e às políticas públicas de mobilidade urbana, portanto ao poder público.

A rotina de parte dessas mulheres foi alterada pela pandemia. Parte delas não usa mais o transporte público todos os dias, outras continuam saindo para trabalhar ou para fazer alguma atividade essencial e percebem que a cidade está mais vazia e menos previsível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.