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REPORTAGEM

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Ucraniana interrompe viagem de moto para lutar na guerra contra a Rússia

Anna Grechishkina estava na Namíbia, dando a segunda volta ao mundo com sua KTM, quando decidiu voltar à Ucrânia - Reprodução/Facebook
Anna Grechishkina estava na Namíbia, dando a segunda volta ao mundo com sua KTM, quando decidiu voltar à Ucrânia Imagem: Reprodução/Facebook
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Arthur Caldeira

Arthur Caldeira, jornalista e motociclista (necessariamente nessa ordem) fundador da Agência INFOMOTO. Mesmo cansado de ouvir que é "louco", anda de moto todos os dias no caótico trânsito de São Paulo.

Colunista do UOL

04/06/2022 04h00

Fazia oito anos, oito meses e oito dias que a motociclista Anna Grechishkina não voltava a Kiev, na Ucrânia, cidade onde nasceu e cresceu. A ucraniana de 43 anos estava viajando de moto pelo mundo desde o final de 2013, mas decidiu interromper sua aventura, em abril, quando estava na Namíbia, no sudoeste da África, para retornar ao seu país natal e se unir aos seus compatriotas na guerra contra a Rússia.

"É terrível o que está acontecendo na Ucrânia. Eu não podia mais aproveitar meu estilo de vida, enquanto meu país está em tal situação. Para mim, seria hipocrisia continuar na estrada e me sentir segura, enquanto meu povo está sendo morto. Na África, tentei chamar atenção para a guerra na Ucrânia, participando de campanhas, por algum tempo, mas logo percebi que não seria suficiente. Precisava voltar para o meu país e fazer algo de concreto lá", explicou Anna Grechishkina em entrevista à coluna.

Anna estava dando a segunda volta ao mundo, ao guidão de sua KTM 1190 Adventure, quando a guerra estourou. "Quando cheguei à Namíbia, comecei a viajar no dia 23 de fevereiro. No dia seguinte, a guerra estourou. Foi uma coincidência tão estranha que me deixou intrigada e me obrigou a mudar meus planos", revelou a motociclista ucraniana que já rodou mais de 200 mil quilômetros ao redor do globo, passando, inclusive, duas vezes pelo Brasil.

Anna BR 319 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Anna Grechishkina cruzou a BR 319,a estrada "fantasma" que liga Manaus a Porto Velho, em sua segunda passagem pelo Brasil
Imagem: Arquivo pessoal

Quando a conheci, em 2016, Anna havia voado de Johannesburgo para São Paulo e estava indo em direção a Ushuaia, extremo sul do continente americano. Em 2019, ela vinha da Austrália e seguia rumo ao Alasca, quando visitou o centro-oeste e o nordeste brasileiro. Extremamente simpática e determinada a conhecer o mundo ao guidão de uma moto, Anna fez muitos amigos aqui e por onde passa.

Sua aventura, chamada de "I have a dream" (eu tenho um sonho, em inglês), leva esse nome em referência ao famoso discurso de Martin Luther King, no qual pregava a igualdade de direitos para brancos e negros nos Estados Unidos.

No caso da ucraniana, seu lema é inspirar outras pessoas do mundo todo a perseguirem seus sonhos. "Acredito que o sonho de uma pessoa pode mudar o mundo. Martin Luther King é um exemplo para mim", diz.

Malawi - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Com sua KTM 1190 Adventure, Anna já rodou mais de 200 mil quilômetros e passou por 70 países; foto tirada no Malawi, na África
Imagem: Arquivo pessoal

O sonho de Anna era viajar o mundo de moto. Mas, depois de ter visitado todos os continentes, exceto a Antártida, e mais de 70 países, seu sonho foi interrompido pela invasão russa na Ucrânia. Ela, então, decidiu deixar sua moto guardada na garagem de amigos na Namíbia e voltar para seu país.

"Eu dei uma volta ao mundo e quase completei a segunda. A ideia era dar duas voltas, mas isso não aconteceu. Mas depois que a guerra terminar, tenho esperanças de continuar minha aventura", espera Anna.

Batalhão de voluntários

Anna entrou na Ucrânia de trem, pela fronteira polonesa e voltou a Kiev. Quando chegou, a situação já estava melhor, segundo Anna, pois as tropas russas falharam em tomar o controle da capital ucraniana e recuaram. "Mas eles destruíram muita coisa em Kiev e também nas cidades ao redor da capital", conta.

Батальйон "Вільна Україна" - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Batalhão Ucrânia Livre, ao qual Anna Grechishkina se uniu para receber treinamento militar, é formado por voluntários
Imagem: Reprodução/Facebook

Anna se juntou a um batalhão de voluntários, chamado Ucrânia Livre. O batalhão fornece treinamento militar a ucranianos que, como Anna, queiram lutar contra a invasão russa.

A motociclista diz que está sendo treinada para usar armas e se proteger, mas também aprende outras coisas, como medicina, psicologia, etc. Anna também preferiu não dizer onde está exatamente na Ucrânia, por questões de sua segurança e do batalhão.

"Não se fala muito nisso, mas a Ucrânia está, de fato, em guerra nos últimos oito anos. Antes, porém, a guerra estava localizada no leste do país, mas agora está por todo o lado", diz ela se referindo à região do Donbas e à península da Crimeia, invadida pelos russos em 2014.

Kiev - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Em sua página no Facebook, Anna Grechishkina está mostrando os horrores da guerra da Rússia contra a Ucrânia
Imagem: Reprodução/Facebook

De acordo com Anna, a missão do batalhão é defender a Ucrânia. "Há diversas maneiras de fazer isso. Você pode ficar na linha de frente, manejar armas e matar os inimigos. Ou você pode defender seu país das informações falsas", explica.

Para ela, há diversas coisas para fazer, de acordo com a habilidade de cada um. "Então, é isso que estou tentando fazer, usar minhas habilidades, que não estão necessariamente relacionados a ações militares, mas também são muito importantes", diz Anna.

Kiev guerra - Anna Grechishkina - Anna Grechishkina
Embora não tenha tomado o controle da capital Kiev, os russos deixaram muita destruição ao redor da capital ucraniana, conta Anna
Imagem: Anna Grechishkina

"Eu não quero dizer onde estou exatamente, pois não vou ficar em um só lugar. Estou me movendo para colher informações, fazer relatórios tirar fotos e também outras coisas, que não posso revelar, espero que você entenda", afirmou Anna por mensagem de voz.

Orgulho de ser ucraniana

Ao final da entrevista, Anna fez questão de deixar claro que a Ucrânia sempre foi e ainda é um país pacífico. "Somos um povo que amamos nosso país, nossa cultura e tradição, nossa família e nossa terra. Não queremos guerra com ninguém, nunca quisemos. Mas, quando alguém vem para a nossa terra e tenta roubá-la de nós e mata nosso povo, nós, ucranianos, nos transformamos em tigres e leões, para proteger e defender nossa terra. Nós não vamos nos render, vamos lutar até a última gota de sangue", afirmou emocionada.

Guerra Ucrânia - Anna Grechishkina - Anna Grechishkina
Em foto postada nas redes sociais, Anna mostra um painel em Kiev com os dizeres: "A Ucrânia irá vencer"
Imagem: Anna Grechishkina

Ela diz estar muito orgulhosa do povo ucraniano. "Estamos dispostos a arriscar tudo, até nossas vidas, sem nenhum ganho financeiro. Embora o exército seja pago, eu estou no batalhão de voluntários e essa gente não está sendo paga, mas ainda estão lá, lutando. Isso é muito inspirador".

Apesar de a guerra na Ucrânia ter completado 100 dias, sem sinal de que pode acabar, Anna Grechishkina acredita que os ucranianos serão capazes de evitar uma invasão russa. "Tenho certeza que, a longo prazo, vamos sobreviver. Defenderemos nosso país e vamos expulsar nossos inimigos", afirma.