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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Aposentadoria da Honda XRE 300 e vinda da CRF 300L ao Brasil são fake news

Arthur Caldeira

Arthur Caldeira, jornalista e motociclista (necessariamente nessa ordem) fundador da Agência INFOMOTO. Mesmo cansado de ouvir que é "louco", anda de moto todos os dias no caótico trânsito de São Paulo.

Colunista do UOL

05/06/2021 04h00

Bastou a Honda CRF 300L chegar ao mercado norte-americano para que pipocassem vídeos no YouTube, afirmando que o modelo vai substituir a XRE 300. Lamento decepcioná-los, mas a aposentadoria da veterana trail de 300 cc e a vinda da sofisticada CRF 300L são fake news.

Para fazer essa afirmação, segui um conceito básico do jornalismo que, muitas vezes, é deixado de lado pelos produtores de conteúdo nas redes sociais na ânsia de conseguir cliques. Simplesmente, consultei a Honda sobre o assunto. Recebi uma resposta direta: "No momento, não há planos de importar ou fabricar a CRF 300L no Brasil".

Infelizmente, essa não é a resposta que muitos motociclistas brasileiros, fãs de motos de uso misto (on/off-road), nos quais me incluo, gostariam de ouvir. Afinal, trata-se de uma trail de verdade, com roda aro 21 e suspensão invertida de longo curso na dianteira, e um moderno motor de arrefecimento líquido e bons 27,3 cv de potência máxima.

Bastante leve, a CRF 300L - e sua versão Rally, com tanque maior e carenagem - seria a máquina dos sonhos dos motociclistas que procuram uma moto leve, versátil e acessível, para rodar na cidade no dia a dia e se aventurar pelos "maus caminhos" aos finais de semana.

Honda CRF 300L Rally - Divulgação - Divulgação
Nem a CRF 300L - ou sua versão Rally (à dir.) - estão nos planos da Honda para o mercado brasileiro, infelizmente
Imagem: Divulgação

Mas são justamente suas especificações que a deixam "inacessível" para o mercado brasileiro. Se fosse importada, como acontece em outros países, a CRF 300L chegaria muito cara ao Brasil. Atualmente, o modelo com ABS é vendido por US$ 5.549 nos Estados Unidos e custaria mais de R$ 28 mil por aqui.

Sem entrar no mérito da questão se vale pagar tudo isso por uma moto de 300 cc, o preço seria elevado para a categoria e poderia causar uma "briga interna" no line-up da Honda, com a CB 500X, vendida hoje por R$ 34 mil.

Outra possibilidade seria a nacionalização do modelo, ou seja, a Honda produzir a CRF 300L em sua fábrica de Manaus (AM), isentando-a dos impostos de importação e reduzindo seu preço final. Mas, para isso, seria preciso adequar a linha de montagem, desenvolver fornecedores locais e treinar toda a rede Honda, que tem mais de 1.000 concessionários em todo o país.

Os investimentos seriam muito altos e não se justificariam. Uma vez que a CRF é um modelo de nicho, em função de sua proposta e características, como o assento a 88 cm do solo e o banco pouco confortável. Em resumo, a CRF 300L teria baixo volume de vendas e não estaria entre as motos mais vendidas do Brasil, como a XRE 300.

XRE 300 continua firme e forte

Por mais que eu seja fã de motos trail "de verdade", é preciso analisar o mercado com razão e não com emoção. Basta ver que os modelos on/off-road "raiz" são raros, para não dizer que sumiram do line-up dos fabricantes.

honda crf 300 l - Divulgação - Divulgação
Motos trail "raiz" também homologadas para rodar no asfalto, como a Honda CRF 300L, são cada vez mais raras
Imagem: Divulgação

Vamos pegar o exemplo da própria XRE 300. O modelo substitui a Tornado 250 com uma proposta mais aventureira do que off-road. Tanque maior, pequena carenagem sobre o farol e, principalmente, assento mais confortável. Proposta que depois foi seguida pela própria Yamaha ao atualizar a XTZ 250 Lander em 2018.

Embora eu mesmo prefira modelos mais leves e versáteis como as trail, basta ver os números de vendas para perceber que o segmento trail não é o de maior sucesso entre o público brasileiro. A Honda CB 250 Twister vende muito mais do que a XRE 300 e, no caso da Yamaha, a Fazer 250 sempre vendeu muito mais do que a Lander.

E, mesmo assim, a Honda XRE 300, com preço a partir de R$ 19.340, figura entre as 10 motos mais vendidas do Brasil já muitos anos - até em 2020, ano atípico em função da pandemia, o modelo ficou em 10º lugar no ranking, com quase 17 mil unidades emplacadas.

Honda XRE 300 - Divulgação - Divulgação
Honda XRE 300 foi a 10ª moto mais vendida em 2020, com quase 17 mil unidades emplacadas
Imagem: Divulgação

Nem mesmo os problemas do motor de 300 cc - que, vale dizer, foram corrigidos pela Honda desde 2016 - atrapalham o bom desempenho comercial da XRE. Sem falar que é uma moto confortável, versátil e valente para longas viagens. Afirmo com propriedade, pois acompanhei o Rally dos Sertões em 2016 com o modelo.

Mas ainda há outros fatores que fazem com que a XRE 300 continue sendo produzida. Primeiramente, porque é um projeto rentável. Quero dizer, mesmo há mais de uma década no mercado, a XRE 300 continua vendendo bem. Os custos de desenvolvimento, até mesmo do bom sistema ABS projetado para o fora-de-estrada, já foram pagos faz tempo.

Além disso, a rede Honda está treinada e abastecida com peças de manutenção. Sem falar nos diversos acessórios e componentes desenvolvidos pelo mercado paralelo. Ou seja, a versátil XRE 300 continuará em linha, firme e forte. Pelo menos, por mais alguns anos. Podendo até ser atualizada, mas sem grandes novidades.

Já a CRF 300L, infelizmente, não virá mesmo para o Brasil. Mas, quem sabe, a Honda não decida criar uma trail baseada no motor de 250 cc da Twister e na off-road CRF 250F, mas homologada para rodar nas ruas? Teria vaga garantida na minha garagem; e na sua?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL