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Por que algumas motos chegam com menos potência ao Brasil que no exterior

Honda CB 650R tem 95 cv na Europa, mas chegou recentemente ao Brasil com apenas 88,4 cv de potência máxima - Divulgação
Honda CB 650R tem 95 cv na Europa, mas chegou recentemente ao Brasil com apenas 88,4 cv de potência máxima Imagem: Divulgação
Arthur Caldeira

Arthur Caldeira, jornalista e motociclista (necessariamente nessa ordem) fundador da Agência INFOMOTO. Mesmo cansado de ouvir que é "louco", anda de moto todos os dias no caótico trânsito de São Paulo.

Colunista do UOL

14/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Novos modelos extrapolam a emissão de ruídos nos testes adotados no Brasil
  • Limite máximo de emissão de ruídos para motos acima de 350 cm³ é o mesmo da Europa: 80 dB
  • Fabricantes culpam defasagem entre a norma brasileira, vigente desde 2004, e sua equivalente europeia, atualizada em 2014

Quase sempre a nova geração de uma moto traz entre as mudanças aumento na potência do motor. Caso da Honda CB 650R, apresentada na Europa em 2018 com 95 cv, sete a mais que os 88 cv da descontinuada CB 650F.

O modelo chegou ao Brasil no final do ano passado, mas sem a cavalaria extra no motor de quatro cilindros e 649 cm³ da versão europeia, o que rendeu críticas dos consumidores.

Mas a marca japonesa não é o único exemplo. A BMW trouxe ao país as novas F 750 e F 850 GS em 2018, que tinham um motor completamente novo, com menos potência do que os antigos modelos de 700 cc e 800 cc. À época, a marca alemã alegou que teve de "limitar" a potência do novo bicilíndrico para passar nos testes de emissão de ruídos feitos no Brasil.

F 850 GS - Divulgação - Divulgação
F 850 GS oferece 95 cv em outros países, mas leis antirruído obrigaram a BMW a limitar a potência do modelo brasileiro a 80 cv
Imagem: Divulgação
Os fabricantes culpam uma defasagem entre as normas brasileiras e europeias de emissão de ruídos pelo problema. A questão é bem técnica. O Brasil adota a norma NBR 15145, de 2004, equivalente a uma anterior à ECE R 41.04, aplicada na Europa atualmente.

Não se trata dos limites de decibéis emitidos pelo escapamento da moto, mas na forma como os testes são realizados. "Isso acontece em uma determinada faixa de giro em uma velocidade específica e atinge principalmente motos de maior cilindrada", explica Alfredo Guedes, engenheiro da Honda.

Atraso e custo maior

Além de obrigar as fábricas a "amarrarem" os novos motores, essa defasagem entre as normas brasileiras e europeias gera atraso na chegada de lançamentos e custo maior na adaptação de modelos para o Brasil. Afinal, as matrizes desenvolvem o produto seguindo as normas da Europa, maior mercado consumidor de motos de alta cilindrada do mundo.

Um bom exemplo é a Yamaha Ténéré 700. Lançada na Europa em 2019, a bigtrail chegou aos Estados Unidos em junho, mas só deve desembarcar por aqui próximo ano. Segundo Hélio Ninomyia, gerente de marketing e desenvolvimento de produto da Yamaha no Brasil, o modelo também ultrapassa o limite de ruído por uma diferença mínima.

TE 700 - Divulgação - Divulgação
Nas testes brasileiros, motos novas, como a Yamaha Ténéré 700, extrapolam os limites de emissão de ruídos
Imagem: Divulgação
O limite atual para motos acima de 350 cm³ é de 80 dB, tanto no Brasil como na Europa. Mas, nos ensaios brasileiros, os ruídos extrapolam esse valor. Já na Europa, ainda segundo os fabricantes, as normas técnicas foram atualizadas em 2014 para que as motos maiores fossem capazes de atendê-las.

"As leis brasileiras de emissão de poluentes seguem o mesmo padrão europeu, mas as normas técnicas de medição de ruídos não", afirma Ninomyia. Embora, as motos brasileiras sigam normas de emissão de poluentes tão rígidas como as da União Europeia, os testes para medição de ruídos ainda é um problema.

As marcas afirmam que o assunto é tema de discussão das câmaras temáticas do setor de duas rodas, em órgãos como o CONAMA, conselho ligado ao Ministério do Meio Ambiente que regula, entre outras coisas, a emissão de ruídos e poluentes e os ensaios técnicos para fiscalizar esses limites. Até que governo e fabricantes cheguem ao consenso, algumas motos devem continuar chegando mais "fracas" ao Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.