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Coisa de Meninos Nada

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Cambagem: como é o procedimento polêmico que entorta o seu carro

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Thais Roland

Thais Roland é técnica em Manutenção Automotiva e apaixonada pela graxa. Com seu canal no YouTube 'Coisa de Meninos Nada', busca informar, orientar e dar suporte em relação a dúvidas e neuras sobre o mundo dos carros

Colunista do UOL

07/12/2021 04h00

Quando vocês levam o carro para alinhar e balancear, diversos parâmetros são verificados no primeiro item. O balanceamento é só dos pneus. Colocamos os compostos em uma máquina para pesa-los, marcamos onde temos que colocar os pesos para compensar as diferenças e pronto - super simples.

O alinhamento já dá mais trabalho. O carro vai para um equipamento, que exige que o técnico tenha o devido treinamento para operar, e passa por diversas leituras da geometria do veículo. Uma dessas leituras é a de convergência e divergência, que verifica se as rodas do carro estão apontando para a frente do carro, como deveriam, ou se estão muito abertas ou fechadas.

Isso dá diferença no consumo dos pneus do seu carro, então é muito importante que esteja correto. Se estiver fora, e geralmente está, vamos para debaixo do carro e ajustamos.

O equipamento faz várias leituras e, em outra oportunidade, detalharei esse trabalho. Mas hoje quero focar em uma, que é alvo de controvérsias: a cambagem.

A cambagem mede a inclinação das rodas do seu carro e é um parâmetro complicado. Em alguns modelos ele é ajustável, porém em outros é fixo e aí é que temos um problema bem sério.

Nos carros em que a cambagem é fixa, se o parâmetro está fora na leitura do equipamento significa que alguma peça da sua suspensão tem um problema. Algo está fora do lugar, empenado, torto ou quebrado. Pode ser que só de soltar as peças e prendê-las novamente tudo volte ao seu lugar e o problema seja resolvido. Ou então é preciso que a peça defeituosa, uma bandeja, um pivô, um amortecedor, enfim, seja identificado e substituído.

Entretanto, existe uma ferramenta no mercado que coloca esse parâmetro de volta no lugar sem que nenhuma peça seja substituída. É uma prensa hidráulica, que o pessoal chama de cyborg. O que esse equipamento faz é entortar o amortecedor do seu carro até que a máquina de alinhamento faça a leitura esperada do parâmetro de cambagem.

Trago esse tema para vocês hoje porque ele foi discutido, mais uma vez, em evento da Revista O Mecânico. Sinceramente continuo convicta de que a ferramenta não faz nada além de colocar mais um problema no seu carro, ao invés de resolver o que você já tinha.

Acredito que ela seja perigosa e danosa, mas não posso discutir com a carteira, não é mesmo? Entre trocar um conjunto de peças de suspensão e usar um aparelho para dar uma sobrevida ao conjunto que você já tem, não há dúvidas que o valor será mais acessível.

A questão aqui é ter consciência do que está acontecendo. Saber que você está permitindo que o amortecedor e, provavelmente, o rolamento de roda do seu carro sejam danificados, ainda que levemente, para que você dê uma sobrevida aos pneus. E por quanto tempo? Você terá isso em mente quando estiver na estrada e mantiver velocidades mais moderadas, por segurança, ou até evitará estradas até substituir as peças?

E já parou para pensar que, depois de usar a prensa, além de substituir aquela bandeja que estava empenada, vai ter que trocar o amortecedor que você danificou também? Lembrando que amortecedor temos que trocar em pares, né?

E o rolamento de roda? Será que não terá que entrar na conta junto com todo o resto? No final, parece que a solução mais barata deu um prejuízo que não tava nos planos, né? Como geralmente é.

Manutenção preventiva é sempre a melhor alternativa, mas mesmo quando precisamos fazer algo corretivo, fazer do jeito certo é a melhor alternativa. Ficar procurando jeitinho sempre cobra a conta, mais cedo ou mais tarde.

Talvez até funcionasse com carros mais antigos, que eram mais simples e aceitavam mais adaptações, mas em carros modernos, com muita eletrônica e com recursos tecnológicos, fica cada vez mais complicado.

É como eu sempre digo: cuide bem do seu carro, que ele cuida bem de você. Agora me conte aqui nos comentários o que você achou da dica de hoje.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL