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Caçador de Carros

6 derrapadas da Ford que fizeram a marca viver declínio no Brasil

Murilo Góes/UOL
Imagem: Murilo Góes/UOL
Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colunista do UOL

14/01/2021 04h00

A Ford está presente no nosso país desde 1919. No início dessa trajetória centenária, a empresa usava o método CKD, em que partes dos veículos vinham de fora do país e eram apenas montadas aqui. Décadas depois, passou a fabricar seus carros, com momentos de importação e exportação de alguns modelos. A partir de agora, como já sabemos, será apenas importadora.

Muito se especula sobre os reais motivos da decisão de fechar as fábricas no Brasil. Oficialmente, a empresa informou que faz parte da estratégia de focar nos veículos do tipo picape e SUV. Mas uma dessas especulações tem a ver com alguns erros do passado, que foram se acumulando ao longo dos anos e fazendo com que a imagem e a participação da marca estivessem em constante declínio em nosso país.

Nessa coluna, eu vou listar alguns desses erros, que até podem ser interpretados de outra maneira pelo leitor, mas que fazem sentido quando analisados os momentos de cada um deles.

Transmissão PowerShift

Ford EcoSport 1.6 Freestyle Powershift 2016 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Até meados dos anos 2000, transmissões automáticas não eram a preferência do brasileiro. Era tida como algo que limitava o controle do motorista, o tal "prazer de dirigir", além de prejudicar desempenho e consumo por causa do conversor de torque. Mas foram ficando cada vez mais eficientes e hoje o cenário é completamente diferente.

Nesse meio tempo, algumas soluções foram apresentadas, como veículos "semi-automáticos", em que as trocas de marchas continuavam sendo feitas pelo motorista, mas o acionamento da embreagem era automático, eliminando o pedal da mesma. Esse modelo de transmissão evoluiu para os "automatizados", em que até as trocas passaram a ser feitas de maneira automática.

As vantagens estavam no custo menor de produção, quando comparado com as tradicionais transmissões automáticas, e na menor influência no desempenho e consumo. Porém, a dirigibilidade é comprometida, como os constantes e indesejados trancos nas mudanças de marchas. A solução para isso foi adotar uma segunda embreagem, permitindo que a marcha seguinte estivesse sempre pré-engatada.

A Ford foi um dos fabricantes a adotar esse modelo, batizado de "PowerShift" por ela, e tinha tudo para ser um sucesso. As trocas eram rapidíssimas, sem trancos, e nada de conversor de torque para atrapalhar a eficiência do carro. Eu mesmo defendi o modelo no passado. Mas não demorou para surgirem problemas com essa transmissão em todo o mundo.

Nem mesmo a extensão da garantia por parte da Ford mudou a imagem do PowerShift no mercado. Anos mais tarde, foi revelado que a Ford sabia dos problemas com a transmissão antes mesmo de lança-la no mercado, algo imperdoável. Hoje, presente apenas no mercado de usados, os Fords com câmbio PowerShift são mal vistos e sofrem com a forte desvalorização.

Transmissão automática de 4 marchas no Focus

Ford Focus 2014 - Murilo Góes/UOL - Murilo Góes/UOL
Imagem: Murilo Góes/UOL

O número de marchas de uma transmissão automática é muitas vezes decisivo na escolha do carro, mesmo que na prática possa nem ser algo tão relevante. Enquanto o padrão eram 4 marchas, ninguém reclamava que precisava de uma 5ª ou 6ª. Mas, quando elas começaram a surgir, os modelos que insistiram nas transmissões de 4 marchas, passaram a ser renegados pelo público.

É o caso do Focus de 2ª geração, que foi lançado em um momento que quase todos os concorrentes já utilizavam transmissões de cinco ou seis marchas, e até do tipo CVT. O Toyota Corolla foi outro que insistiu nas quatro marchas por um bom tempo, mas nem isso atrapalhou as vendas desse fenômeno japonês.

Hoje, no mercado de usados, Focus hatch e sedã da 2ª geração só são bem vistos quando equipados com transmissão manual. Os automáticos têm fama de terem alto consumo de combustível e desempenho bem abaixo da versão manual.

O cenário poderia ter sido outro, caso a Ford equipasse o modelo com a transmissão do Fusion, que tinha cinco marchas nos primeiros anos com motor 2.3, e depois passou a ter seis marchas no motor 2.5.

Demora com os motores flexíveis

Não sou adepto dos motores flexíveis. Tenho apenas um carro flex na garagem, e ele é de longe o menos eficiente. Mas esse não é o ponto. O mercado, sempre soberano, decidiu que essa era a melhor escolha, em meados dos anos 2000.

Pouco tempo depois dos primeiros modelos apresentados com essa tecnologia, quem quisesse ter sucesso comercial, teria que oferecer algo onde o motorista pudesse escolher entre abastecer com álcool ou com gasolina.

A Ford, foi a última, das marcas mais participativas do Brasil, a adotar motores flex. O trabalho foi bem feito nos modelos apresentados, mas o estrago nas vendas já estava feito e não poderia ser recuperado.

Fase Autolatina

Nessa longa trajetória de Brasil, alguns anos da Ford ficaram marcados pela parceria com a Volkswagen. Os dois fabricantes fizeram parte do grupo chamado Autolatina, e dessa fase nasceram carros interessantes, mas que não foram suficientes para manter a harmonia em empresas culturalmente tão diferentes.

Dizem que a Ford foi a mais prejudicada nessa fase, algo que não é difícil acreditar, basta ver o rumo que cada uma seguiu depois da dissolução do grupo. Curioso que, no mercado de carros antigos e clássicos, os Fords dessa época, quando equipados com mecânica VW, são muito bem vistos e desejados.

Assim que a Ford voltou a andar com as próprias pernas no Brasil, demorou um bom tempo para se reestruturar, algo que só veio com a inauguração da fábrica de Camaçari (BA).

Del Rey

Ford Del Rey - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Calma, não me xinguem. Ford Del Rey em uma lista de erros da Ford pode ser um insulto para alguns. Mas, como disse lá no começo, temos que analisar o cenário daquele momento. A missão era substituir o lendário Galaxie, algo muito difícil. Baseado no Corcel II, o Del Rey entregava bom acabamento, quesito que a Ford era referência nessa época, mas deixava a desejar no desempenho e espaço interno.

Nunca foi páreo para seus principais concorrentes, Chevrolet Monza e Volkswagen Santana. O melhor do Del Rey só veio no fim de sua vida, com a adoção do motor 1.8 da VW. Mas era muito pouco.

A história poderia ser outra, caso a Ford do Brasil optasse pelo Sierra, como fez na Argentina. Modelo consagrado nos países em que foi comercializado, com tração traseira e motor bem mais forte, o Sierra é um Ford que lamentavelmente nunca tivemos por aqui.

Motor CHT

Ford Escort XR3 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Novamente, sei que alguns vão reclamar. Mas vamos deixar o saudosismo de lado nessas análises. Quando a Ford decidiu fabricar o Escort no Brasil, precisava de um motor à altura da modernidade do projeto. Escolheu aperfeiçoar o motor Sierra (nada a ver com o carro Sierra citado acima) que equipava o Corcel. O resultado final, conhecido como CHT, foi bom, mas longe de ter sido a melhor solução.

Na Europa, o Escort era equipado com o motor CVH, bem mais moderno, com comando de válvulas no cabeçote. Já o nosso conhecido CHT usava o antiquado sistema de comando de válvulas no bloco, algo que limita rotações e, consequentemente, desempenho.

Na versão XR3, com visual esportivo, o motor CHT se tornou uma piada. Hoje o Escort é um clássico que, assim como o Del Rey, melhorou bastante quando passou a ser equipado com os motores VW. Mas sua trajetória poderia ter sido outra se a Ford escolhesse o motor certo para ele.