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Carro usado: como calcular se vale ou não a pena gastar com um deles

Mateus Bruxel/Folhapress
Imagem: Mateus Bruxel/Folhapress
Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colaboração para o UOL

12/12/2019 04h00

Uma dúvida comum, principalmente em tempos de crise econômica, é: qual a real necessidade de ter um carro? Será que é inteligente manter um bem tão caro em nossas garagens, levando em consideração os diversos custos e manutenção periódica?

Não tenho dúvidas de que o automóvel é fundamental para uma boa parcela de pessoas, mas percebo que o fantasma da manutenção ainda é motivo de preocupação, principalmente nos usados com bons quilômetros rodados.

Eu, como Caçador de Carros e proprietário de veículos usados há 18 anos, digo a você que manter um usado não é tão difícil como parece. A chave da questão é sempre fazer manutenções periódicas e seguir o que o fabricante recomenda.

Observo que muitas pessoas, infelizmente, são enganadas na hora de deixar seus carros numa oficina, seja concessionária ou particular. E, quando aparecem orçamentos impagáveis, o mito da manutenção cara se alastra.

Certa vez avaliei uma Mitsubishi Pajero TR4 2014 para um cliente. Esse jipinho era de uma única dona, tinha pouco menos de 50 mil km rodados em ciclo urbano e apresentava um rico histórico de manutenção, com todas as revisões feitas em concessionária. O que me causou espanto foi quando soube que a ex-dona pagou mais de R$ 4 mil na revisão de 40 mil km.

Não fazia nenhum sentido, pois um carro nessa quilometragem exige manutenção básica. Como ela poderia ter pago tão caro numa revisão? Na nota fiscal, observei itens que não fazem parte do pacote de revisão e todos eles com valores completamente fora da realidade de mercado.

Depois que ela disse que não entendia nada de carros e que sempre deu carta branca à concessionária, ficou claro que a coitada foi passada para trás descaradamente.

De importante foi feito a troca de óleo do motor e do câmbio, filtros de óleo, ar e cabine e a troca do líquido do sistema de arrefecimento. Fora isso, ela pagou por aditivos e otimizadores de combustível, descarbonizantes de motor e de válvulas, limpeza de bicos injetores, limpeza externa de motor, lavagem externa do carro com aplicação de cera, pasta para tirar ruídos de freio e de suspensão e odorizador no filtro de cabine.

Todos esses itens na base da "empurroterapia", que não fazem parte do cronograma de manutenção do carro, somadas com os itens importantes e a mão de obra, deram a quantia de R$ 4 mil. Impressionante!

A verdade é que a manutenção de um jipinho como esse é muito simples nesses primeiros 40 mil km. Faltou a ela conhecimento para não ser enrolada pelo pessoal da assistência técnica dessa oficina.

Um grande amigo, dono de um Sentra 2016, quase passou por algo parecido. Após ter feito sete revisões em concessionária, com intervalos de 10 mil km entre elas, foi fazer a oitava e quase infartou com o orçamento de R$ 12 mil - cerca de 20% do valor de mercado do seu carro. No orçamento foi recomendado troca dos amortecedores e do motor da ventoinha. Claro que ele não autorizou o serviço.

Recomendei que levasse num outro mecânico, da minha confiança, que fez o mesmo por R$ 5 mil. Entendo que alguns dirão que continuou caro, mas, por esse valor, ainda teve a substituição do óleo do câmbio automático, algo que não estava no orçamento da concessionária.

Exemplos de notas fiscais com valores astronômicos não faltam. Já vi Civic com orçamento de R$ 12 mil, Corolla com NF de R$ 10 mil e por aí vai. Sempre que analiso essas NFs, a conclusão sempre é a mesma: o dono foi passado para trás.

Já eu tenho me surpreendido cada vez mais com o meu Sentra 2008, que já passou dos 210 mil km e continua demonstrando muita saúde como um carro de uso diário.

Costumo guardar todos os comprovantes de manutenções, e fui somá-los para usar como referência nessa coluna. Foram pouco mais de R$ 11.700 em quatro anos de uso e quase 75 mil km rodados, uma média de R$ 1.500 a cada 10 mil km.

Nesse valor estão incluídos itens caros como pneus, amortecedores, além de coisas corriqueiras como pastilhas, filtros e fluidos. Tivesse eu comprado um Sentra 0km, lá em 2015, e feito essas revisões absurdas, teria perdido muito mais dinheiro, além da alta desvalorização que se tem nos primeiros anos de um carro.

Para entender isso em números: um Sentra SV 2015 custava R$ 70 mil quando novo. Hoje, o mesmo carro tem Tabela Fipe de R$ 46 mil. Já o meu Sentra tinha Tabela Fipe de R$ 27 mil em 2015, e hoje de pouco mais de R$ 23 mil. Ou seja, a desvalorização do novo foi equivalente ao valor de um usado.

Isso sem falar no IPVA, que por ser proporcional ao valor do carro, é bem mais barato em modelos de carros usados.

Para resumir: se você não quer correr o risco de ser enganado, comece a entender um pouco mais sobre seu carro seguindo essas dicas:

- Leia o manual de serviços, observe o cronograma de manutenção e siga os intervalos de trocas dos principais itens. Salvo casos de desgastes prematuros, constatados pelo mecânico, siga o cronograma de manutenção que tem no manual do seu carro.

- Participe de grupos de proprietários de carros iguais ao seu e troque experiências com eles. Você vai se surpreender com dicas que podem fazer aquele problemão ser resolvido de forma mais simples e barata.

- Procure por oficinas tradicionais com depoimentos positivos nas redes sociais.

Concluindo meu raciocínio: nunca, em nenhum dos meus carros, precisei gastar uma fortuna com manutenção. Os gastos maiores foram com pneus e peças de suspensão, itens que podemos planejar com antecedência a troca.

Eventualmente um outro gasto mecânico pode ocorrer, mas garanto que, na maioria das vezes, aquela famosa revisão a cada 10 mil km é barata, e longe do que tenho visto acontecer. Fique atento!