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Até que durou muito! Veja 3 motivos para o Ford Focus ter saído de linha

Ford Focus Argentina - Reprodução/Twitter
Ford Focus Argentina
Imagem: Reprodução/Twitter
Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colaboração para o UOL, de São Paulo (SP)

09/05/2019 07h00

Resumo da notícia

  • Uma das críticas foram os atrasos para a chegada dos novos modelos
  • Primeiros Focus automáticos ganharam uma fama negativa
  • Outro fator foi a dura concorrência com os SUVs

A fábrica da Ford de General Pacheco, na Argentina, nunca mais será a mesma. Nos últimos 18 anos, saíram de lá os fantásticos Focus em suas carrocerias hatch e sedã. Ambos sempre foram referências no segmento dos médios, mas isso não foi o bastante para mantê-los vivos. No último sábado, dia 4 de maio, um hatch branco encerrou a linha de produção do Focus, para a tristeza de muitos entusiastas do modelo.

Mas por que um carro tão bom saiu de linha sem nem sequer deixar um sucessor?

Tenho algumas respostas para isso. É preciso olhar para o passado e analisar os erros estratégicos da Ford com o modelo, que teve alguns momentos de brilhantismo, mas no geral nunca foi um sucesso de vendas aqui no Brasil.

Primeira geração do Focus chegou ao Brasil em 2000, já com fabricação em General Pacheco (Argentina) - Divulgação
Primeira geração do Focus chegou ao Brasil em 2000, já com fabricação em General Pacheco (Argentina)
Imagem: Divulgação

Sempre atrasado

Entre 1998 e 99, Fiat, Chevrolet e Volkswagen renovaram seus carros médios, mas somente no final do ano 2000 que a Ford disponibilizou o Focus por aqui, com dois anos de atraso em relação ao modelo europeu. O visual futurista dividiu opiniões. Lindo para alguns, horrível para outros, ele não foi bem digerido nesse quesito. Mas as avaliações eram unânimes em atestar as qualidades mecânicas do carro.

Era um dos únicos do segmento com suspensão independente do tipo multilink na traseira, além de usar subchassis em ambos os eixos. A posição de dirigir era perfeita, com regulagem de altura e profundidade do volante. O Focus carregou esse DNA nas gerações seguintes e por isso sempre foi um carro muito bom de se guiar, que inclusive ganhou inúmeros comparativos.

Os atrasos continuaram ao longo de toda a vida do Focus. Enquanto praticamente todos os concorrentes ofereciam opções com câmbio automático, o Focus só foi ver isso em 2003. Na Europa, a primeira reforma visual aconteceu em 2002, quando ganhou novos para-choques e faróis de dupla parábola. Foram precisos longos 2 anos para termos essas simples mudanças por aqui e, quando chegaram, já era tarde, pois a 2ª geração estava saindo do forno na Europa.

Por aqui, essa 2ª geração só apareceu 4 anos depois, em 2008. Ainda assim, não aposentou a 1ª geração logo de cara. Ambas dividiram os showrooms das concessionárias até o ano seguinte. Para não perder o costume, a 3ª geração também atrasou. Na Europa foi em 2011, mas aqui só em 2013.

É importante destacar que os atrasos não são problemas só da Ford e infelizmente sempre foram comuns no nosso mercado. Mas alguns fabricantes conseguem renovar seus modelos com muito mais agilidade. É o caso de Toyota e Honda, que mesmo fabricando Corolla e Civic aqui no Brasil, acompanham as mudanças de gerações que acontecem nos outros mercados, com curtos intervalos entre elas. Não por acaso, são marcas que não param de crescer em todo o mundo.

O último dos flexíveis

Outro erro estratégico da Ford com o Focus foi demorar tanto para disponibilizar motores flexíveis em combustível para o Focus. O mercado pedia por isso, mas a Ford só atendeu em 2007, e nem foi em toda a linha. Somente no motor 1.6, que no Fiesta já era flex desde 2004. Decisão completamente incompreensível.

Quando a 2ª geração chegou em 2008, nova surpresa: nada de motores flex, que só chegaram na linha 2010, praticamente 6 anos depois do Chevrolet Astra Flexpower.

Quem me conhece, sabe que nem sou tão fã dos motores flex, mas aqui é uma questão de mercado, que é soberano. O público pedia e a Ford não atendia.

Câmbio automatizado Powershift estreou na terceira geração e rendeu muitas reclamações de clientes - Ivan Ribeiro/Folhapress
Câmbio automatizado Powershift estreou na terceira geração e rendeu muitas reclamações de clientes
Imagem: Ivan Ribeiro/Folhapress

Focus automático? Cilada

Quando a assunto é câmbio automático, mais erros estratégicos. Já citei a demora para disponibilizar uma versão com essa opção. Falta agora falar das péssimas escolhas. O câmbio automático de apenas 4 marchas estava no mesmo nível da concorrência em 2003, mas enquanto eles evoluíram nos anos seguintes, a Ford parou no tempo e levou dez anos para aposentá-lo.

Em 2006, Honda Civic ganhou câmbio de 5 marchas e Nissan Sentra o desejado CVT. Em 2007, VW Golf e Bora inovaram com 6 marchas. Renault Fluence, Mitsubishi Lancer, Chevrolet Cruze, Kia Cerato, VW Jetta, entre outros, todos tinham câmbios mais modernos que o Focus. Dentro de casa, O Ford Fusion teve câmbio automático com 5 marchas em 2006 e 6 marchas em 2010. Como explicar a insistência no antiquado 4 marchas do Focus até 2013?

O resultado disso foi a fama negativa que os Focus automáticos das duas primeiras gerações ganharam. Comparado com as versões manuais, são consideravelmente mais lentos e consomem muito mais combustível. Até parecia proposital, para o que o carro fosse devidamente degustado somente por amantes de câmbios manuais. Só que o mercado, sempre soberano, está cada vez mais propenso ao conforto dos automáticos.

Já na 3ª geração, a opção da caixa automatizada Powershift de seis marchas e dupla embreagem parecia certeira, mas ninguém contava com os inúmeros problemas relacionados a esse câmbio em todo o mundo. E a Ford não mudou, seguiu até o fim com ele, que queimou de vez o filme do Focus. Infelizmente, esses belos carros da 3ª geração devem ter vida curta, com exceção das versões com câmbio manual.

Preferência por SUVs

Fora esses erros estratégicos, temos também o fator SUV. A forte tendência dessa categoria tem decretado a morte de alguns carros interessantes. A Ford já deixou claro a intenção em focar nesse segmento, portanto era natural que um carro de baixas vendas como o Focus deixasse de ser produzido.

Não adianta lamentarmos a morte do Focus, ele estava respirando por aparelhos. A bem da verdade, é que para maioria das pessoas, a falta dele nem será notada. Mas pensando bem, mesmo com tantas coisas jogando contra, até que o Focus durou muito. Nosso mercado é cruel, não é qualquer que se mantém por aqui por longos 18 anos. Pelo jeito, aquele projeto com dirigibilidade irrepreensível foi realmente muito bom para suportar todas essas adversidades.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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