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Toyota desacelera eletrificação. E isso é bom para o Brasil

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Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colunista do UOL

24/06/2022 04h00

Não faz muito tempo gente responsável da Toyota disse que a eletrificação de seus produtos seria uma prioridade e que a partir daquele momento, em 2019, com o lançamento de nova plataforma que originaria uma família inteira de elétricos, rapidamente veríamos essas novidades 100% limpas de CO2 em seu portfólio global. Mas nesta semana, aqui no Brasil, uma abordagem distinta ganhou força no discurso da maior fabricante de veículos do planeta.

"Nosso foco está em tecnologias que reduzam os impactos ao meio ambiente, ao mesmo tempo em que sejam economicamente viáveis. Veículo de combustão interna não é o inimigo: o inimigo é o carbono."

Essas palavras de Masahiro Inoue, CEO para a América Latina e Caribe, refletem decisão global da Toyota que recebeu algumas críticas nas últimas semanas. Reclamam mundo afora que a Toyota está dando um passo atrás no seu plano de investimento de US$ 70 bilhões para que até 2030 metade desse dinheiro virasse carro 100% elétrico.

Ao contrário do que o nobre leitor possa imaginar isto é uma boa notícia. Trata-se de compreender que o futuro sem emissões não será 100% elétrico, como o consumidor vem sendo bombardeado pelas fabricantes de primeira hora que cravam este como o futuro certo e líquido.

"O inimigo é o carbono", ressaltou Inoue, mais especificamente o dióxido de carbono que aquece a atmosfera, causa eventos extremos e pode acabar como a vida no planeta. Isto mesmo! Extinção. Não é piada de mau gosto nem previsão furada de algum Nostradamus dos tempos atuais. Guardem este artigo e podem me cobrar em vinte anos. Se não fizerem algo que tenha efetividade imediata na contenção das emissões já será tarde demais em 2030. O que esperar em 2042?

Só para contextualizar a conversa: as emissões globais de dióxido de carbono relacionadas à energia aumentaram 6% em 2021, para 36,3 bilhões de toneladas, superando níveis históricos. Ou seja, carro elétrico não tem adiantado nada e nem vai resolver o problema nos próximos, oito, vinte, trinta anos.

Por isso a provável mudança de rota, ou do discurso, da Toyota chama a atenção. Ao acreditar em diversos caminhos para chegar à descarbonização em meados de 2035 a companhia dá prioridade a outras soluções, como o híbrido flex, desenvolvido no Brasil para derrubar as emissões.

Assim como para a operação da Volkswagen na América do Sul os biocombustíveis configuram, para a Toyota, um futuro muito mais limpo na região. Isso porque, conforme Inoue lembrou, "o etanol é um combustível renovável maravilhoso, e podemos mostrar ao mundo que essa tecnologia é uma opção para a descarbonização. Precisamos avançar para outros mercados da região, assim como para outros continentes, como demonstram os estudos que a Índia está realizando".

É verdade que esse discurso não é original tampouco novo. Mas quando a maior fabricante do mundo diz com tamanha convicção que podemos, enfim, fazer alguma diferença, e demonstra isso sendo a primeira a produzir veículos híbridos flex no Brasil, não custa dar algum crédito. Claro que não podemos deixar de lado as boas intenções da VW e de outros fabricantes com operação no Brasil que também acreditam no potencial do etanol como uma alternativa limpa para o futuro. Mas chega de discurso e vamos à prática, senhores.

Mesmo considerando o combustível maravilhoso Inoue disse que o Brasil precisa avançar em alguns pontos, como melhorar a equação da distribuição do etanol, que utiliza caminhões movidos a diesel muito poluentes para o transporte dentro do País.

Para um futuro livre de carbono a Toyota também olha para suas fábricas, nas quais quer obter neutralidade até 2035, de olho, também, nos seus 198 fornecedores locais, para que eles trabalhem nesse sentido e consigam neutralizar suas operações.

Se os políticos também abraçassem essa ideia e, em vez de pensar em voucher de R$ 400 pra encher o tanque de trezentos a quinhentos litros de um caminhão, reduzissem o preço do etanol, será que esse movimento não ganharia força mais rápido?

* Colaboraram Caio Bednarski e Vicente Alessi, filho