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Por que a eletrificação tem que ser incentivada?

Caoa Chery iCar é um dos veículos elétricos que chegarão ao Brasil em breve - Divulgação
Caoa Chery iCar é um dos veículos elétricos que chegarão ao Brasil em breve Imagem: Divulgação
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Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colunista do UOL

20/06/2022 13h27

Os primeiros movimentos contundentes da eletrificação da frota brasileira de automóveis estão apoiados em um vício do setor automotivo: incentivos. Antes de esclarecer essa afirmação tratemos de eliminar dessa conversa os modelos híbridos flex produzidos aqui que, não à toa, ocupam a liderança das vendas dos veículos de baixíssima emissão no País.

Agora vamos à questão: os veículos elétricos, híbridos ou híbridos plug-in que estão desembarcando no Brasil têm sido beneficiados pela redução do imposto de importação que, em alguns casos, são totalmente isentos dessa taxa, que existe para proteger a indústria nacional.

E mesmo assim, com taxas de importação subsidiadas, de 2% a 4% chegando a zero para os 100% elétricos, apenas veículos de alto valor estão chegando ao País. Belo exemplo é o BMW iX, elétrico puro com autonomia de mais de 600 quilômetros e, na versão mais equipada e potente, vendido a R$ 800 mil. Tudo bem que ele traz coisas que nenhum outro oferece como a manutenção over the air, ou seja: ele pode se consertar sozinho. Ou ainda alto-falantes nos encostos de cabeça dos bancos, dentre mais de uma dezena de novidades bem interessantes.

O ponto é que certamente esse novo automóvel da BMW custaria mais de R$ 1 milhão não fosse o incentivo que retira o pedágio de 35% para veículos importados no País. É por isso que temos agora no País modelos como o Renault Kwid 3-tech [R$ 147 mil] ou ainda o recente modelo elétrico mais barato do País, o subcompacto Caoa Chery iCar [R$ 140 mil].

demonstramos neste espaço que não é necessário ter quase R$ 150 mil para possuir um veículo com emissão zero. Vale relembrar que os modelos elétricos só existem para eliminar o CO2 produto da combustão interna dos motores atuais. Não fosse isso continuariam relegados aos projetos do início da centenária história da indústria automotiva, que optou pelo combustível líquido fóssil em vez de inconvenientes e pesadas estruturas que acumulavam a nem tão disponível energia elétrica.

Mesmo após tentando equacionar o dilema da escassez e da forma de entregar eletricidade para os motores dos automóveis e, agora, precisando garantir que essa energia elétrica tenha origem em uma matriz limpa, sem CO2, "o futuro será eletrificado" apontam os líderes da indústria automotiva.

Por aqui, assim como ocorreu nos Estados Unidos, só mesmo injetando doses cavalares de incentivo nessa nova era. E o recente anúncio da Caoa Chery está relacionado com esse vício, conforme apurou a reportagem de AutoData. A possibilidade de zerar alíquota aos 100% elétricos foi determinante para o anúncio de importar três modelos e montar outros três híbridos em Anápolis, GO.

Além do subcompacto elétrico iCar serão importados ainda este ano o Arrizo 6 PRO Hybrid e Tiggo 8 Plug-in Hybrid. Todos com isenção total ou com os 2% a 4% de taxa de importação, anteriormente mencionados.

Já na fábrica de Anápolis terá início a montagem dos kits CKD dos híbridos flex Tiggo 5x PRO Hybrid e o Tiggo 7 PRO Hybrid. Para os kits CKDs, ou modelos semiprontos, é preciso ter um cadastro junto ao governo e separar o que é feito ou fornecido localmente para que o desconto no imposto seja calculado.

Outras fabricantes também farão movimentos nesse sentido. Inclusive a novata no País, a Great Wall, que também importará elétricos e montará inicialmente kits CKD em sua fábrica de Iracemapólis, SP, comprada da Mercedes-Benz.

Consultores e especialistas do setor automotivo apontam preocupações com esse modelo e com o incentivo que o programa Rota 2030 acabou dando de bandeja para as montadoras ao reduzir drasticamente o imposto de importação.

Ricardo Bacellar, ex-KPMG e integrante do conselho consultivo da SAE, usa o estádio do Maracanã como exemplo: "Era o estádio do povo, com capacidade para mais de 200 mil pessoas e ingressos baratos. Fizeram tantas melhorias que agora o ingresso mais em conta não sai por menos de R$ 100 e a capacidade máxima não chega a 80 mil. É isso que estamos vendo acontecer no mercado brasileiro".

Já Paulo Cardamone é mais direto em sua análise: "O Rota 2030 cometeu um erro ao estabelecer esse imposto de importação para elétricos e híbridos que hoje só conseguem ser adquiridos por consumidores de altíssima renda. Colocaram as fábricas inglesas, alemãs e chinesas no porto de Santos ao custo do frete. Quem pensará em produzir esses veículos aqui se puder trazer de fora com esta equação?".

* Colaboraram Soraia Abreu Pedrozo e Vicente Alessi, filho