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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Elétricos avançam, mas não são únicas alternativas para carros "ecológicos"

Ziviani/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Ziviani/Getty Images/iStockphoto
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Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colunista do UOL

13/08/2021 04h00

A eletrificação automotiva é um movimento sem precedentes na história centenária da indústria, que jamais teve que mudar de forma tão radical seu modelo de negócios baseado nos motores a combustão interna. Hoje, enquanto a Tesla e outras novatas chegam em grandes mercados e as tradicionais fabricantes anunciam investimentos para eletrificar seu portfólio nessas regiões, todos movidos pela necessidade de eliminar as emissões, o ineditismo deste momento único reserva algumas oportunidades para a indústria nacional.

Nos últimos cinco anos, desde que o Acordo de Paris estabeleceu metas ambiciosas para a descarbonização do planeta, surgiram muitas dúvidas quanto ao futuro das operações em mercados emergentes. A incapacidade técnica, financeira e da economia local desses países para acompanhar na mesma velocidade a eletrificação, pelo menos nas próximas duas décadas, tem feito as matrizes darem maior atenção para alternativas que geram menos emissões.

Gás natural, biocombustíveis, sistemas flex para combustão interna e híbridos, todas tecnologias bastante conhecidas, muitas delas desenvolvidas aqui, ressurgem nas mesas dos executivos das matrizes como boas opções para as próximas gerações de veículos que serão vendidos principalmente a consumidores de menor poder aquisitivo como no Brasil, Índia, Egito, Tailândia, Filipinas e África do Sul, dentre muitos outros.

Se tudo correr bem, esse processo tornará viável a cadeia automotiva nacional enquanto outra solução com custos mais competitivos e, portanto, acessível a todos os mercados - como pode ser o caso da tecnologia de célula de combustível a hidrogênio - possa conduzir, de fato, o planeta para a descarbonização da mobilidade. Algumas ações locais demonstram que, aos poucos, as empresas vão formulando suas estratégias para os biocombustíveis e suas tecnologias já consagradas.

É o que sinaliza, por exemplo, o plano de negócios da Toyota com o SUV Corolla Cross. Assim como as versões com motor tradicional, o híbrido flex será exportado para 22 países da América Latina.

Masahiro Inoue, CEO para América Latina e Caribe, diz que o compromisso para tornar a indústria carbono neutro deve "reduzir ou neutralizar" as emissões com tecnologias e recursos mais eficientes, como os seus motores híbridos movidos a etanol. "A Toyota está trabalhando em produtos mais eficientes no segmento B, veículos menores que são bem aceitos na América Latina. Em breve teremos novidades". Até 2025 o portfólio global da Toyota terá uma opção híbrida.

No caso da Bosch, a nacionalização da produção dos injetores e bicos injetores para motores Euro 6 aponta uma tendência de atender demanda em mercados que não terão nas próximas décadas veículos, no caso caminhões, elétricos. A linha de montagem veio da fábrica dos Estados Unidos que antes produzia esses componentes.

Para Besaliel Botelho, presidente da Bosch, os equipamentos que estão sendo substituídos nas fábricas que produzirão veículos elétricos podem ser transferidos para o Brasil, reduzindo os custos de investimentos e "concentrando volumes para poder exportar porque temos excedente de capacidades e competências, mas não temos economia de escala local para justificar investimentos totalmente novos".

Trazer rentabilidade e relevância mundial para a operação na região talvez seja o principal objetivo que coloca essas competências da indústria nacional no caminho para a mobilidade sustentável. É o que se espera da Volkswagen concentrando o P&D de biocombustíveis no Brasil e a estratégia regional da Stellantis, que produzirá aqui novíssimo motor flex de alto desempenho e baixa emissão para as suas 14 marcas.

Para Carlos Tavares, CEO da Stellantis, os mercados emergentes, e o Brasil, em particular, estarão em vantagem com a experiência dos pioneiros na eletrificação. Isso dará a oportunidade para escolher com mais tempo e sabedoria rotas diferentes para atingir o mesmo objetivo, o da descarbonização da mobilidade.

Esses casos destacados são apenas algumas iniciativas mais evidentes da oportunidade com os biocombustíveis. Todas as fabricantes, de duas rodas, automóveis a caminhões, e boa parte da cadeia de autopeças, têm alguma expertise para oferecer com as alternativas de baixa emissão. Mais uma janela de oportunidades está se abrindo para a indústria nacional. O motor a combustão, eficiente e mais limpo, vai prevalecer por mais algumas décadas?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL