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OPINIÃO

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Colapso na saúde: montadoras poderiam dar exemplo e paralisar a produção

Divulgação
Imagem: Divulgação
Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colunista do UOL*

19/03/2021 04h00

As fabricantes de veículos empregavam no Brasil 104,7 mil pessoas ao fim de fevereiro. Estima-se, no setor, que cada emprego gerado em uma montadora crie mais dez na cadeia. Ou seja: a indústria automotiva nacional é responsável por mais de 1 milhão de empregos.

Somados os outros integrantes da família, não seria exagero dizer que ao menos 3 milhões de brasileiros estão de alguma forma ligados à produção nacional de veículos.

São 3 milhões de pessoas expostas ao novo coronavírus, pois as linhas de montagem das montadoras e fornecedores seguem produzindo, a despeito de outros setores de comércio e serviço, não essenciais, que tiveram que fechar as portas para ajudar a conter a disseminação do vírus.

A indústria automotiva mostrou comprometimento com a sociedade há um ano, quando a pandemia explodiu no País. Montadoras colaboraram com a produção de máscaras, consertos de respiradores, construção de hospitais, ajudaram com sua expertise a salvar empresas produtoras de equipamentos médicos que estavam à beira da falência e colaboraram com as comunidades nas quais estão inseridas. Deram o exemplo e merecem todos os elogios que receberam, e ainda recebem, por essa atitude.

Ao mesmo tempo investiram bastante para tornar suas fábricas ambientes seguros para a produção durante o período [antes classificado como agudo] da pandemia. Trabalhadores ocupam linhas com mais distanciamento, mais ônibus foram comprados para reduzir a lotação nos transportes fretados, escalas menores nos refeitórios, mais álcool em gel, protocolos rígidos. E cumpridos.

Mas o período atual é de exceção. É preciso pensar na saúde do coletivo para tentar frear essa nova e mais perigosa variação do covid-19 que deixou em colapso o sistema de saúde brasileiro.

A pergunta também é inevitável. Não seria a hora de as montadoras interromperem a produção? Mais uma vez não seria uma grande colaboração para a sociedade deixar seus funcionários em casa, ajudando a reduzir a circulação de pessoas e, por consequência, do vírus?

É de conhecimento de todos que paralisação gera aumento de custo e montadoras são empresas capitalistas, que visam ao lucro. O governo, claro, precisa colaborar com medidas de auxílio a essas empresas na tentativa de manter os empregos, como no ano passado - e o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, já sinalizou haver um plano desenhado, que deverá ser anunciado nos próximos dias.

Mesmo assim a indústria automotiva poderia se antecipar e dar o exemplo. Por enquanto o custo está sendo medido em vidas. Já foram quase 300 mil perdidas.

Sindicatos se mexem. O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, região berço da indústria automotiva nacional, entregou à Anfavea e ao governo do Estado de São Paulo documento que pede, dentre outras coisas, a paralisação da produção para que os trabalhadores fiquem em casa, mais seguros.

Vacina. Pedem também, no documento, que o setor privado colabore com a compra de vacinas. Somente elas, na visão do sindicato, ajudarão a acabar com a covid-19 e, assim, a retomar a economia.

Anfavea. As discussões da Anfavea com o sindicato seguem enquanto esta coluna está sendo redigida. A associação sinalizou positivamente com relação à questão das vacinas, mas manteve sua posição na questão da parada das fábricas.

Decisão difícil. AutoData acompanha a indústria há quase trinta anos e conhece, e compreende, todas as dificuldades envolvidas na decisão de parar as linhas. Não é uma decisão fácil, tampouco simples de ser tomada. Diante de todo esse contexto, mantém a sua pergunta: não é hora de dar o exemplo?

* Colaboraram André Barros e Vicente Alessi, filho

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL