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Fernando Calmon

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Peugeot 208: como Stellantis pretende 'ressuscitar' hatch após erros fatais

Fernando Calmon

Fernando Calmon, engenheiro, jornalista e consultor, dirigiu a revista Auto Esporte e apresentou diversos programas de TV. Escreve às terças-feiras.

Colunista do UOL

05/06/2021 04h00

Muitos consideram um erro fatal lançar um automóvel tão atual com um motor antigo e não oferecer uma versão turbo como na Europa.

Na realidade, essa não foi a única causa das dificuldades no mercado brasileiro do hatch compacto Peugeot 208. Nem seu motor EC5 de quatro cilindros, 1,6 litro, 118 cv e aspiração natural pode-se considerar superado.

Este ano, principalmente depois de ações por parte do Grupo Stellantis, o modelo começou a reagir. Em maio, teve crescimento de 42,8% nas vendas em relação à média dos últimos três meses. A marca pretende comercializar 18.000 unidades em 2021, volume ainda baixo para um hatch compacto, mas em nível melhor do que indicava a tendência.

A Stellantis, porém, tem um trunfo: motor de 1 litro turbo, da família GSE. Vai estrear em setembro no SUV Fiat Pulse e, no primeiro trimestre de 2022, no Jeep Renegade. O 208 também deverá recebê-lo até o final de 2022. Desta forma, ganhará em desempenho e consumo de combustível, além de se beneficiar de quatro pontos percentuais a menos de IPI, que ajudam na composição do preço final.

O novo 208 foi lançado na Europa em março de 2019, no Salão do Automóvel de Genebra, e chegou às lojas em julho do mesmo ano. Tudo começou com uma mudança da estratégia industrial da marca francesa, ainda pré-Stellantis. Construído a partir da nova arquitetura CMP (sigla em inglês para Plataforma Modular Compacta), ofertava motores a gasolina, a diesel e 100% elétrico a partir do mesmo projeto e com o mesmo visual externo.

No primeiro ano completo de vendas (2020), foi o terceiro colocado no mercado europeu, superado apenas pelo VW Golf (o modelo que por mais tempo lidera) e o Renault Clio. Ganhou o título europeu de Carro do Ano. No primeiro quadrimestre de 2021, assumiu a liderança, porém é improvável que consiga desbancar o Golf no final deste ano.

Vendas menores que o projetado no Brasil

Os planos para América do Sul previam a chegada do novo 208 ao mercado brasileiro ainda no primeiro semestre de 2020, menos de um ano depois da Europa. Demonstrava a importância que a marca francesa atribuiu à região, mas, em razão da pandemia, o lançamento atrasou quatro meses.

A Argentina recebeu a incumbência de fabricar o carro, mas o desenvolvimento foi em parceria com a engenharia brasileira. No país vizinho, motores de um litro de cilindrada não têm tributação menor como no Brasil. Opção foi pelo quatro-cilindros aspirado de 1,6 litro, 118 cv (etanol)/115 cv (gasolina), 15,4 kgfm (etanol)/15,3 (gasolina) produzido aqui.

O 208 da geração anterior oferecia um motor de aspiração natural, três-cilindros de 1,2 litro, importado da França. Sua potência (90 cv) e torque (13 kgf.m) foram considerados insuficientes para o novo 208, que pesa 130 kg a mais. Na Europa, o 208 é oferecido com o mesmo motor 1,2 litro na versão turbo, a gasolina, de 130 cv e 23,5 kgf.m e esta parecia a escolha correta para o nosso mercado.

No entanto, fabricar essa unidade motriz no Brasil sairia caro. A cilindrada ainda deveria ser diminuída para um litro e assim ganhar os quatro pontos percentuais a menos de IPI. O motor turbo 1,6 L THP, importado, também não fechava a equação custo-benefício. Só que o mercado brasileiro ficou mais exigente, principalmente depois do Polo, do HB20 e do novo Onix oferecerem a possibilidade.

O 208 agradou por suas linhas atraentes e arrojadas, além de um exclusivo quadro de instrumentos com tecnologia holográfica tridimensional. Volume do porta-malas (265 litros) foi considerado um ponto fraco para o mercado brasileiro.

Mais que a indisponibilidade de um motor turbo, no entanto, o preço de lançamento tornou-se outro entrave. Na versão de topo com câmbio automático ficou muito perto de R$ 100 mil, embora pela atualidade do projeto até se justificasse em parte. No entanto, aos poucos a marca vem reposicionando seu preço por meio de bônus e promoções. E os resultados dessa política podem melhorar seu desempenho nos próximos meses.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL