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Presidente da Anfavea: "Trabalhador precisa se sentir seguro para voltar"

Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea - Divulgação
Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea Imagem: Divulgação
Fernando Calmon

Fernando Calmon, engenheiro, jornalista e consultor, dirigiu a revista Auto Esporte e apresentou diversos programas de TV. Escreve às terças-feiras.

Colunista do UOL

07/04/2020 04h00

Responsável por 4,5% do PIB brasileiro, a indústria automobilística está entre os setores mais vulneráveis da economia nesse momento de crise provocada pela Covid-19. A tradicional entrevista mensal com o presidente da Anfavea era aguardada não apenas pela apresentação dos números do mês de março, mas pela expectativa de uma projeção do que poderia acontecer até o fim do ano.

O presidente da entidade, Luiz Carlos Moraes, fez coro com a Fenabrave, que representa as concessionárias, e afirmou que a crise da saúde não permite estimar números para este ano, no momento. Confirmou a queda de 86,5% pelo critério de vendas diárias entre a primeira e a última semana de março. Conversei com ele sobre o curto prazo e as prováveis repercussões no setor.

"O impacto sobre o mercado é muito forte. Tomando o exemplo de outros países vimos que na China o mês de fevereiro de 2020 mostrou uma queda 80% sobre fevereiro de 2019. Tendo como referência o mês de março, a Itália vendeu 85% menos veículos, a França menos 72% e a Espanha menos 69% que março do ano passado. Estamos prevendo uma recessão econômica brava no segundo trimestre e uma esperança de recuperação lenta talvez no último trimestre".

"Preocupa mais é a situação financeira de toda a cadeia de negócios desde os fornecedores até a rede de concessionárias. Numa situação de apenas 1.000 emplacamentos por dia, contra 9.000 a 10.000 do ritmo em que vinham, os problemas surgem. Se parou de vender, parou de receber e não tem como pagar. As matrizes lá fora estão na mesma situação e, portanto, não há socorro externo possível. Os bancos, até o momento, permanecem "sentados" sobre os recursos e cobrando alto para emprestar. Nem mesmo exportar é possível porque a paralisia é geral".

"Entretanto, temos de estar preparados para uma retomada, mesmo que em ritmo muito lento, logo após a quarentena, mas com grande cuidado com a saúde dos funcionários. Os trabalhadores precisarão se sentir seguros para voltarem às linhas de montagem."

Outro aspecto envolve programas como o Rota 2030 com metas e prazos rígidos tanto de itens de segurança, como de emissões veiculares.
"Esse é um tema que já estamos discutindo internamente. A capacidade financeira das empresas ficou bastante diminuída. Como se trata de investimentos, em momentos como esse, há de se pensar como lidar com os prazos. São programas regulatórios e passíveis, portanto, de revisão. Da mesma forma que as pessoas repensam todas as suas despesas nesse momento extremamente difícil, o mesmo acontece com qualquer empresa."

Moraes acha que após a crise que atinge o mundo, muitas coisas podem mudar: "O tema da globalização precisará ser rediscutido. Dependência ou concentração em poucos centros é um deles. Toda a sociedade terá que repensar os modelos de produção e de distribuição de veículos. Até mesmo o comportamento das pessoas precisará ser mais bem estudado. Mas o futuro será diferente, tenho certeza."