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Movimentos impulsionam ciclistas nas periferias até com vaquinha para bikes

Heng Sinith/AP
Imagem: Heng Sinith/AP
Jamile Santana

Escritora, poeta, cientista social, pesquisadora com estudos no âmbito do mobilidade, direito à cidade e segregação sócio espacial e racial. É cicloativista interseccional e coordenadora da ONG Movimenta La Frida.

Colunista do UOL

21/07/2020 04h00

Muitos acontecimentos históricos já fizeram o "mundo nunca mais ser o mesmo". No presente tempo, a pandemia é um desses marcos que mudam as coisas de forma brusca. Isolamento social esfriou os impulsos de abraços e apertos de mãos, nos obrigando a parar - mas só por um instante ficamos mais distantes.

A cada dia, novos enfrentamentos ocorrem e a instabilidade da economia aumenta o desemprego, que faz crescer a exploração do trabalho que amplia as desigualdades sociais.

Dentro de casa, mentes preocupadas e carregadas dos acúmulos cotidianos frente à instabilidade econômica. As afetações psicológicas do isolamento, com a casa cheia de gente com fome de tantas coisas que só comida não basta, e as incertezas sobre o futuro não dão tempo nem recursos para digerir as transformações tão emergentes, que nos obriga a nos reconfigurarmos como forma de proteção e sobrevivência.

Do lado de fora, o distanciamento expandiu nossos passos e nos colocou frente a uma série de desafios, sendo a mobilidade uma das principais questões a serem repensadas no cotidiano de todos, e principalmente da classe trabalhadora. Com a redução do transporte público, a aglomeração e o perigo de contaminação nas conduções coletivas obriga a população a repensar suas alternativas de locomoção.

Ativistas da mobilidade, ciclo-ativistas, associações, coletivos e movimentos como Parceiros da Alegria (BA), Preta, Vem de Bike, Afro Ciclo (BA), Pedala Queimados (RJ), Pedal da Quebrada (SP), La Frida (BA), Pedal Malunga (SP) entre outros, segue engajados em impulsionar o uso da bicicleta como ferramenta de transporte dentro e fora do eixo urbano, nas periferias, nas zonas rurais e nos quilombos.

Lembrando do potencial sócio-econômico da bicicleta de gerar de forma autônoma o acesso à cidade e à renda. Claro que não romantizando a exploração realizada pelas empresas de app aos entregadores e entregadoras, mas impulsionando a possibilidade de empreendedores se reinventarem de forma mais independente sob duas rodas.

Como exemplo de projetos inspiradores que temos em Salvador (BA) estão os Parceiros da Alegria, que arrecadam bicicletas adultas e infantis, fazem reparos necessários e doam para pessoas que precisam trabalhar - além estarem sempre empenhados em realizar o sonho da criançada de ter uma bike. Tendo interesse de contribuir acesse a página do projeto.

A bicicleta tem sido o meio de transporte mais indicado na pandemia por contribuir no distanciamento social, além de ajudar para a saúde física e mental dos seus usuários.

Apesar de ainda nos esbarrarmos com a falta de infraestrutura cicloviária, principalmente em periferias e zonas não urbanas, cresce o número de ciclistas nas cidades.

Esse é o momento de unirmos forças e reivindicar mais ciclovias e ciclo faixas, maior acessibilidade para pessoas com dificuldades de locomoção. Apoiar e impulsionar movimentos e projetos, levantar fóruns online de mobilidade, produzir conteúdo informativos, intervir de maneira ativa nos planos de mobilidade.

Também acolher e aliar-se aos usuários e usuárias de bike, ampliar o debate político e social por trás do pedalar, estar atentos às novas demandas e aos contra-movimentos capitalistas classistas carrocratas. Em resumo, movimentar-se para transformar o "mesmo" do mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.