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Rainhas e musas saem em defesa da realização de desfiles na Sapucaí

Carnaval na Sapucaí ainda é incerto; último desfile no Rio foi em 2020, com a Viradouro campeã Imagem: Júlio César Guimarães/UOL

Valmir Moratelli

Colaboração para o UOL, no Rio

16/01/2022 04h00

Não basta ser musa, tem de saber se posicionar em defesa do samba. Diante das incertezas da realização dos desfiles na Marquês de Sapucaí, devido ao aumento de casos de infecção de covid-19 no país, muita gente vem utilizando as redes sociais para criticar sua realização em ambiente controlado. Rainhas de bateria e destaques das principais escolas de samba do Rio foram ouvidas com exclusividade pelo UOL a respeito dessa polêmica.

Evelyn Bastos, rainha da Estação Primeira de Mangueira desde 2014, não quer nem imaginar essa possibilidade de cancelamento. "Sou contra! Pra falar a verdade, evito pensar nessa hipótese. Acredito na vacina e, principalmente, na conscientização da população que busca o sistema vacinal completo. Estou otimista que, em fevereiro, estaremos nos divertindo com segurança, fazendo o Carnaval dos carnavais na Sapucaí", diz ela, que continua ensaiando na quadra junto aos ritmistas.

Rainha da São Clemente, que prepara um enredo em homenagem ao humorista Paulo Gustavo, que morreu vítima de covid-19 em maio do ano passado, Raphaela Gomes segue na mesma apreensão por uma definição dos órgãos responsáveis. "A gente sabe que é um cenário delicado, não é simples. Nós, que vivemos o carnaval durante o ano, estamos ansiosos pela Sapucaí. Mas é preciso cautela. Confio na ciência e sei que é fundamental organizarmos uma logística para garantir segurança ao público e desfilantes", defende.

O que todas chamam a atenção, entretanto, é para os discursos de ódio que vêm surgindo por parte de quem é contra a realização dos desfiles, diminuindo a importância cultural e econômica do evento, sem dar o mesmo peso a outras manifestações que seguem ocorrendo livremente pelo país.

Sempre lembrada como ícone da Avenida e referência para as atuais rainhas, Luma de Oliveira também entra na briga. "Geralmente quem tem essa fala (pelo cancelamento) são os que nunca deixaram de frequentar lugares lotados".

A implicância é só com a festa do povo. Hipocrisia é um vírus vergonhoso e para isso não tem vacina. Luma de Oliveira

Ela continua: "Como estão articulando a manobra para proibir os desfiles, nossa maior representação de cultura popular, também terão de cancelar outros eventos para não parecer implicância", diz a eterna rainha, que já passou pela Tradição, Caprichosos, Viradouro e Portela. Nessa última, se despediu do cargo em 2009. E foi enredo da Estácio de Sá em 2012.

Raphaela concorda com Luma. "Se for necessário adiar os desfiles, que a decisão seja tomada com um olhar geral para a cidade, e não com preconceito ao Carnaval", diz.

Controle e vacina em dia

Estreando como musa da Paraíso do Tuiuti, Livia Andrade se irrita com essa parcialidade na suspensão de festas — por ora, apenas carnavalescas. "Enquanto uma parte da sociedade se diverte em eventos grandes, a grande maioria dos trabalhadores só serve para servir. Ou tudo pode ou nada pode", diz. Um dos argumentos dos que são favoráveis à realização dos desfiles é a possibilidade do controle sanitário em ambiente fechado, dentro da Sapucaí, ao contrário dos blocos de rua — já cancelados em todo o país.

Dandara Mariana pela Vila Isabel em 2020 Imagem: Luciola Vilella/UOL

Dandara Mariana, que foi destaque da comissão de frente da Unidos de Padre Miguel em 2020 e aguarda para estrear como musa do Salgueiro, faz coro a esse grupo. "Achei sensata a decisão de não ter Carnaval de rua, de fato não dá! É um Carnaval sem controle, todo mundo junto e aglomerado. Isso poderia acarretar num surto de novas cepas. Mas na Sapucaí dá para ter controle, desde que dentro das regras exigidas pela vigilância sanitária", pondera a atriz, longe de qualquer discurso negacionista.

Indo para seu quarto ano como musa da Vila Isabel, a digital Influencer e apresentadora Letícia Viana, a Lola, reforça a necessidade de rígido controle na entrada da Sapucaí. "Sou a favor que se apresente carteira de vacinação, com todas as doses já tomadas, como segurança para todos os presentes. Entendo a suspensão dos desfiles em 2021, mas agora estamos nos vacinando. Minha fantasia está pronta aqui em casa, sigo animada para que tenha Carnaval", afirma.

Musa da Grande Rio e do Salgueiro em outros carnavais, Adriane Bombom complementa: "Se estão permitidos jogos de futebol, shows e festas particulares, seria hipocrisia suspender os desfiles, a menos que se tenha novo lockdown", diz.

Questão econômica

Outro ponto levantado é a questão econômica, já que o Carnaval é uma festa que gera emprego temporário a milhares de pessoas, além de movimentar a economia, bastante combalida devido a altas taxas de desemprego e aumento da inflação. "Por isso sou contra o cancelamento. São milhares de pessoas, famílias inteiras, trabalhando durante o ano, dependendo da festa", diz Lola.

Camila Silva, rainha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, no Rio de Janeiro, de 2016 a 2018, e da Vai-Vai, em São Paulo, 2009 a 2018, além de ter sido rainha da corte do Carnaval carioca em 2020, mostra a importância de se ampliar o debate para a questão da necessidade de milhares de famílias que vivem da folia. "A gente está praticamente há dois anos sem carnaval, é muito tempo. Trabalhamos com isso e sabemos como é duro o cenário. Dou aula de samba e workshops sobre carnaval, conheço pessoal que trabalha em barracão que chegou a passar fome. É um assunto sério, que precisa ter solução para todos os lados", diz.

Gracyanne Barbosa, ex-rainha da União da Ilha e sempre frequente nos camarotes da Avenida, se solidariza com os sambistas. "Na balança entre os riscos que consigo enxergar, dá uma dor no coração a falta de empatia, humanidade e amor por essa cadeia de profissionais, abandonada na ótica pública. Meu total apoio a eles".

Preconceito com o samba

Há ainda as que veem a possibilidade de cancelamento dos desfiles como um ato de preconceito com o samba. Quitéria Chagas, rainha de bateria do Império Serrano, onde desfila há mais de 20 anos, se incomoda com o que tem lido nas redes sociais. "O desfile é distanciado, a céu aberto, ninguém fica no cangote um do outro. O desfilante fica setorizado, dividido em alas ou em cima de alegorias. Dá pra exigir máscara e controle vacinal de quem for assistir", afirma. "Essa descriminação vem desde a época que a negritude criou o samba lá na senzala. Os shows de outros ritmos musicais, que também ganham dinheiro em camarotes, segue acontecendo. E os cantores ficam mudos", pondera ela, que atualmente mora em Milão.

A atriz e dançarina critica a falta conscientização das pessoas em geral.

Está todo mundo quieto, isso me agonia. É preciso mobilização para defender o samba. Tomara que aconteça o carnaval, temos de ter esperança.

Atravessando o discurso das demais, a apresentadora Adriane Galisteu, ex-rainha de bateria da Portela, da Unidos da Tijuca e da Acadêmicos da Rocinha, é das poucas que se diz contrária à realização dos desfiles na atual situação pandêmica. "Antes de qualquer diversão, qualquer projeto, qualquer passo que você vai dar, saúde em primeiro lugar. É a única coisa que a gente não controla", defendeu ela no Instagram.

Sem deixar de comparecer aos ensaios de quadra, a atriz Viviane Araújo, rainha do Salgueiro, segue postando nas redes sociais seus preparativos fitness para o desfile marcado para o final de fevereiro.

Rainha da Imperatriz, Iza está de férias em Dubai, sem responder "nadica de trabalho", como sua assessoria informou.

Sabrina Sato, que volta à Vila Isabel, está gravando programa no GNT. Já Paola Oliveira, da Grande Rio, preferiu não se envolver num posicionamento quanto aos desfiles em fevereiro.

A Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) permanece sem esclarecer que medidas estão sendo tomadas caso ocorra o carnaval no sambódromo. A reunião que decidiria sobre a festa foi reagendada pelo prefeito Eduardo Paes para o dia 24 de janeiro. Até lá, rainhas, musas e súditos seguem controlando a ansiedade pelos desfiles.

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