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Charanga Talismã busca integrar periferia e Zona Sul do Rio

Bloco Charanga Talismã desfilou hoje nas ruas do Rio de Janeiro - Bernardo Tabak/ UOL
Bloco Charanga Talismã desfilou hoje nas ruas do Rio de Janeiro Imagem: Bernardo Tabak/ UOL

Bernardo Tabak

Colaboração para o UOL, no Rio

23/02/2020 18h27

Vila Kosmos, no subúrbio do Rio de Janeiro, é um bairro onde há atuação de milícia. No começo deste mês, João Vitor Moreira dos Santos, um estudante de 14 anos, morreu após ser atingido por uma bala na cabeça, numa das principais avenidas do bairro.

Mas, apesar da ação de criminosos e de estar distante do epicentro do Carnaval carioca, a Vila Kosmos foi invadida pela folia na manhã de hoje. Pelo terceiro ano consecutivo, a Charanga Talismã tomou as ruas do bairro, arrastando centenas de jovens fantasiados vindos da Zona Sul do Rio para a periferia da cidade.

Nas redes sociais, o bloco ressalta a importância da interação, troca e respeito com a comunidade local. A organização do desfile contou com banheiros químicos e foliões voluntários carregando enormes sacos de lixo para diminuir o máximo possível a sujeira nas ruas.

"Descobri o Charanga neste ano. Achei a vibe muito boa. Antes disso, nunca tinha vindo à Vila Kosmos", conta o estudante Matheus Thompson, de 21 anos, morador da Urca, para acrescentar: "Só tinha ido uma vez para o subúrbio do Rio, para Sulacap."

Apesar da proposta de misturar as tribos, ficou evidente que a imensa maioria do bloco era formada por jovens de fora do bairro. "Tem muita gente da Zona Sul", confirma o biólogo Rafael Cantanhede, que ficou sabendo do cortejo pelo aplicativo WhatsApp.

O amigo dele, o produtor de cinema Alonso Zerbinato, concorda e emenda: "Apesar de ter uma proposta de sair do eixo Zona Sul/Centro, fazer uma integração, o pessoal local está no bloco trabalhando, vendendo cerveja. Não sei se foi uma falha na comunicação, mas os moradores ficaram assistindo o bloco passar de dentro das casas."

Curiosamente, a distância da Vila Kosmos, na Zona Norte, para a Zona Sul da cidade, onde vive Cantanhede, faz o biólogo cometer um lapso e achar que está em outra cidade ao responder de onde é:" Eu moro no Rio, no bairro do Flamengo".

A falta de divulgação também foi apontada por moradores da Vila Kosmos como uma das razões para a população local não se juntar ao bloco.

Reinaldo (de cartola), Bruno (de chapéu Panamá) e Tatiana (de tiara amarela) assistiram à passagem do Charanga Talismã entre amigos e familiares - Bernardo Tabak/ UOL - Bernardo Tabak/ UOL
Reinaldo (de cartola), Bruno (de chapéu Panamá) e Tatiana (de tiara amarela) assistiram à passagem do Charanga Talismã entre amigos e familiares
Imagem: Bernardo Tabak/ UOL
"É uma oportunidade de a gente curtir Carnaval sem precisar ir para longe. Podemos ficar na porta de casa, com nosso isoporzinho. Mas ninguém estava sabendo quando o Charanga ia sair", conta o técnico de telecomunicações Reinaldo Oliveira.

"Minha roupa estava passada para eu sair para trabalhar. Mas quando vi o bloco passando, falei para a mulher arrumar as crianças pra gente brincar", complementa o motorista de aplicativo Bruno Wendell. "Esse ano tem o triplo de pessoas de 2019. Mas o bloco é muito bem organizado. Não precisa de Guarda Municipal, nem policiamento, porque todo mundo é bem civilizado", ressalta a enfermeira Tatiana Ormezinda.

A organização do bloco, que não está autorizado pela prefeitura, optou por não falar oficialmente. "Somos um coletivo de carnaval e tomamos a decisão de não dar nenhuma declaração oficial como organizadores do bloco, uma vez que o nosso cortejo é 'não oficial'. A rua é de todos", informou um integrante.

Da porta de casa, onde vivem desde 1964, Ruth e Celio de Carvalho, ela com 86, ele com 88 anos, assistiam ao Charanga Talismã passar. "A gente gosta muito de ver o bloco desfilando", conta o casal em uníssono.

E por que não saem para a rua para curtir o Charanga? "Já passamos da idade. Já brincamos muito, mas não assim. Na minha época, o Carnaval era mais calminho: a vestimenta era mais comportada, não era esse monte de mulher e homem pelado", comenta Ruth sobre as várias mulheres com tapa seios e homens de sunga. Ao fim da entrevista, o casal octogenário posa no portão, com um sorriso na boca, ao lado de uma foliona fantasiada de duende.

Rio de Janeiro