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Tom Maior leva Marielle ao Carnaval de São Paulo e celebra artistas negros

Vereadora Marielle Franco é representada no último carro da Tom Maior segurando uma mordaça - Simon Plestenjak/UOL
Vereadora Marielle Franco é representada no último carro da Tom Maior segurando uma mordaça
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

Do UOL, em São Paulo

22/02/2020 00h39

Marielle Franco voltou a ser lembrada no Carnaval pela Tom Maior, segunda escola a desfilar no Carnaval de São Paulo em 2020. Com sua morte prestes a completar dois anos, a vereadora carioca já havia sido homenageada pela escola campeã do Rio no ano passado, a Mangueira.

Com isso, a Tom Maior levou um enredo bastante politizado para o Anhembi. Batizado de "É Coisa de Preto", o samba ressalta os artistas e personalidades negros que contribuíram para a história e o desenvolvimento do Brasil.

Marielle presente

A vereadora Marielle Franco, morta a tiros em 14 de março de 2018, surgiu representada no quinto e último carro a entrar na passarela do samba. À frente da alegoria, uma faixa com os dizeres "as minorias são a maioria". Nas mãos, uma espécie de mordaça representando que o povo negro não vai se calar.

Segundo a agremiação, o carro de Marielle representa "debate a luta por justiça, simbolizada na figura de uma jovem negra assassinada, mas que se tornou um mártir na busca pela igualdade real."

No fechamento do desfile, uma das alas veio com camisetas com fotos da vereadora. A Tom Maior também destacou o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa, representando a Justiça.

"Poderíamos falar de muitos personagens da História, já que a Justiça ainda é muito falha, mas escolhemos a Marielle porque ela está no consciente coletivo", disse Luciana Silva, presidente da escola, ao final do desfile.

Representatividade

Com um enredo bastante politizado, os carnavalescos buscaram dar um novo significado para a frase "é coisa de preto", que já foi muito usada de forma pejorativa.

A letra do samba destacava a "herança que a mordaça não calou", lembrando personalidades bastante conhecidas e outras nem tanto das artes, esporte, política e sociedade.

O carnavalesco André Marins falou sobre a importância da representatividade e disse que gostaria que uma criança de 8 anos sentisse orgulho da negritude ao cantar o samba e assistir ao desfile. A escola cruzou o Anhembi com 2.500 componentes, 21 alas e cinco carros no total.

A Tom Maior fez coro para gritar o nome da agremiação no final do desfile, veio bem, e fechou o portão com exatos 65 minutos.

Abre-alas

O abre-alas "O Acalanto de Ologum" emulava um gigantesco navio-negreiro, trazendo vários destaques negros com roupas na cor vermelha, representando o sangue derramado na demorada travessia e nos castigos físicos, lembrando a diáspora africana.

Na comissão de frente, idealizada pelo coreógrafo do balé do "Domingão do Faustão" Alex D'Arc, a escola trouxe os "griots", que eram os contadores das histórias da África. A intenção com as bibliotecas vivas africanas era de mostrar a contribuição cultural e social dos negros para a formação do Brasil.

Bateria de Mussum

O sambista Mussum, mais conhecido por ter feito parte do grupo humorístico "Os Trapalhões", foi lembrado na bateria da escola. Os integrantes vieram vestidos de verde e rosa, celebrando as cores da Mangueira, escola do coração de Mussum, assim como a madrinha e a rainha de bateria.

Musas em família

Tia e sobrinha, Andréia Gomes usou uma roupa verde, enquanto Pâmella Gomes, foi de rosa à frente dos ritmistas. Pâmella é a rainha de bateria, posição que ocupa desde 2013. Bailarina do "Domingão do Faustão", ela desfila na escola paulistana há 25 anos, desde os 3 anos de idade. Filha do Carnaval, ela também é musa da Imperatriz Leopoldinense, no Rio.

De Machado de Assis a Mano Brown

Várias outras personalidades negras foram celebradas entre as 21 alas: o cantor Wilson Simonal, o rapper Mano Brown, as sambistas Dona Ivone Lara e Alcione, os atores Ruth de Souza e Grande Otelo, o escultor Aleijadinho, entre outros. Representando o esporte, Pelé e a ginasta Daiane dos Santos.

Machado de Assis, escritor negro "embranquecido" pela história, também foi lembrado. Na transmissão, o apresentador Chico Pinheiro fez questão de frisar a origem do maior nome da literatura brasileira: o Morro do Livramento, no Rio.

Personagens menos populares, como Maria Firmino dos Reis, a primeira mulher negra escritora, e o professor Milton Santos, um do grandes nomes da Geografia do Brasil, também foram homenageados pela agremiação.

Cenas fortes

Madame Satã apanhando de policiais com cassetetes marcou como uma das cenas mais fortes do desfile da Tom Maior. Nomeando uma das alas, seguida pelo carro "Legado de Atitude - Transgressores Negros", a primeira artista travesti do Brasil ganhou uma justa homenagem, e ainda chamou a atenção para a exclusão social de parte da população negra. O carro também carregava uma favela suspensa.

João Francisco dos Santos, que representou Madame Satã, carregava uma bandeira com as cores do movimento LGBTQ+. "Foi um desafio, nunca fiz um personagem tão forte como hoje. Mas foi um prazer representar esse ícone da sociedade que lutou para que os gays tivessem a representatividade que eles têm hoje", declarou o intérprete à Globo logo após o desfile.

Em busca do título inédito

Fundada em 1973, a Tom Maior ainda busca seu primeiro título no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo. No ano passado, a agremiação da zona Oeste escapou por pouco do rebaixamento —terminando em 12° lugar, com a mesma pontuação da rebaixada Acadêmicos do Tucuruvi.

Samba-enredo

"É coisa de preto"

Compositores: Gui Cruz, Rafael Falanga, Vitor Gabriel, Portuga, Imperial, Elias Aracati, Luciano Rosa, Reinaldo Marques, Marçal e Willian Tadeu

Intérprete:

Brasil, não vim pra ser escravo nem servil
Sou filho dessa pátria mãe gentil
Que traz a esperança no olhar
Oh, meu país... que tanto sustentei em meus braços
Espelha tua grandeza num abraço
Revela o meu dom de encantar
Não é esmola teu reconhecimento
O meu talento é mais que samba e Carnaval
Na luz da ribalta,
Retinta beleza se fez imortal

A negra inspiração... é poesia
A arte de criar... é quem me guia
Floresce de um baobá
Um pensamento de amor
Herança que a mordaça não calou

Se a vida deixou cicatrizes
Ideais são raízes do meu jeito de viver
Faço da minha negritude
Um legado de atitude, inspiração pra vencer
Lutar... é preciso lutar por igualdade
Liberdade... fazer da resistência uma nova verdade
Soprando a poeira da história
A nobreza em meus olhos brilhou
É o dia da nossa vitória
Conquistada sem favor

Um guerreiro da cor
Herdeiro de Palmares
Sou Tom Maior, a voz da liberdade
A minha força pra calar o preconceito
É coisa de pele, é coisa de preto

São Paulo