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'Sou igual ao Capitão Nascimento', diz Solange Cruz, presidente da Mocidade

A presidente da Mocidade Alegre, Solange Cruz  - Marcelo Justo/ UOL
A presidente da Mocidade Alegre, Solange Cruz Imagem: Marcelo Justo/ UOL

Soraia Gama

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/02/2020 04h00

Você se lembra quando Ivete Sangalo, durante um show, deu um chega pra lá em uma moça que estava paquerando o marido dela? Pois é. Ivete deve ter aprendido com Solange Cruz Bichara Rezende, presidente da Mocidade Alegre (a quarta escola a desfilar em São Paulo, no Anhembi, neste sábado, 22).

"A gente namorava e o Sombra já era o mestre da bateria. No ensaio, eu vi uma moça sambando e dando ré pra cima dele. Não gostei e avisei pra ele: 'Se você não falar nada, eu vou pegar ela'. E ele disse: 'Você está maluca?'." Depois do segundo aviso, Solange não teve dúvidas e pegou para si o microfone: "Sombra, avisa essa garota que a rainha da sua bateria sou eu. E aí os ritmistas vieram abaixo: 'Uh, Solange. Uh Solange!'", diverte-se ela ao narrar a cena.

Maturidade

Após anos de convivência e a chegada da maturidade, o ciúme deu lugar à parceria. "Estamos casados há 27 anos e temos uma relação estável. O Sombra é mais na dele. Eu é que sou mais festeira, falante...", diz a mãe de Sombrinha, de 19 anos —único filho do casal. Atualmente, Solange pega mais leve também no comando da escola.

"Dei uma amansada porque tomo ansiolítico", diz ela, gargalhando e assumindo a árdua e contínua luta contra a ansiedade. "As coisas começaram a fluir melhor. Conforme você vai administrando um lugar ou algo, as pessoas vão se familiarizando com você. A escola conhece a líder que tem. E eu conheço o meu eleitorado. Isso facilita o dia a dia", afirma a leoa do samba, como também é conhecida.

Tropa de Elite do Carnaval

Marcelo Justo/ UOL
Imagem: Marcelo Justo/ UOL
"Às vezes, a gente coloca nossa emoção pra fora de uma forma explosiva, mas hoje eu me policio mais. Eu me policio e também não tem tanto motivo para tal. A escola se organizou pra isso. A gente até vê coisa errada, mas é coisa do dia a dia. Sou igual ao Capitão Nascimento [personagem central do filme "Tropa de Elite"]. Eu não gosto de erro velho. Erro novo eu até aceito. O erro novo é natural. Mas a partir do momento em que você insiste no erro, você não serve mais para aquilo", conclui a comandante da agremiação do bairro do Limão.

Tudo em família

O clima familiar e receptivo, muito comentado por quem frequenta ou conhece pela primeira vez a agremiação, faz parte da história da Mocidade. "Muitas escolas mudaram, mas aqui essa atmosfera aconchegante continua. Isso não é coisa só da minha administração. É uma comunidade acolhedora, que traz pra si, que tem todo um envolvimento. A gente briga muito por isso", diz.

"O que falta nesse mundão lá fora, de repente, a gente encontra aqui", defende Solange, apontando em seguida para crianças brincando na quadra: "Os filhos podem ficar aqui dentro, enquanto os pais participam do ensaio de rua, por exemplo".

Criada na escola fundada por seu pai, tio e amigos, em 1967, Solange tinha passado por vários cargos antes de assumir a presidência após a morte de sua irmã —antecessora no cargo. O fato de ser uma mulher de pulso firme e ter o poder da oralidade a ajudou a dar conta da responsabilidade que abraçou.

Junior Lago/ UOL
Imagem: Junior Lago/ UOL
A agremiação tinha muitas dívidas e Solange saiu negociando, uma a uma, com seus credores. O famoso grito de guerra "A vitória vem da luta, a luta vem da força e a força, da união", que também foi tema de enredo em 2017, faz total sentido. Em 2004, seu primeiro Carnaval como comandante, a Mocidade ganhou o campeonato e saiu de um jejum de 23 anos. Dos dez títulos da escola, seis deles foram conquistados sob o comando dela (em 2004, 2007, 2009, 2012, 2013 e 2014).

O pior resultado da história

Mas em 2019 a Mocidade amargou o oitavo lugar. "Antigamente, 0,5 levava ao segundo lugar. Hoje, 0,5 me levou ao oitavo, o pior resultado da minha escola. Mas olha o disparate. O que é 0,5? Não é nada! Hoje eu administro isso, mas em 2010, por causa de 0,10, por causa de uma tirinha que soltou, eu perdi o Carnaval. Era um detalhe. Um detalhezinho. Uma tirinha que apagou [na fantasia]", relembra Solange.

Ali ela percebeu que o Carnaval crescera tanto que as escolas estavam equiparadas. "Como não conseguem achar erros, eles [os jurados] procuram defeitos. Precisa justificar, senão seria 10 para todo mundo."

Na opinião da presidente, hoje o detalhezinho do detalhe faz diferença no campeonato. E isso faz com que o Carnaval se torne chato. "Hoje a escola perde ponto porque o chapéu está torto. Isso não existia", lamenta ela ao mesmo tempo em que fica na expectativa: "Eu, sinceramente, espero que melhore".

Neste Carnaval, a Mocidade leva para o Anhembi a força da mulher enaltecendo as yabás -orixás femininos da Umbanda. O enredo "Do canto das yabás, renasce uma nova morada" é da irmã de Solange. "A oportunidade veio agora e é muito especial. Vai ser emocionante", acredita ela.

Mulher de visão

A virada na história da Mocidade sob a gestão de Solange fez com que a presidente se transformasse em fonte inspiradora e passasse a dar palestras em empresas. Três semanas antes do Carnaval ela tinha agendado a primeira deste ano, em Minas Gerais.

"É uma empresa de cosméticos com gestão familiar e eles querem tirar o paternalismo para se adequar ao mercado", conta a gestora. Ela usa seus causos para vincular ao que o cliente quer atingir. "Eu conto meus causos, senão a palestra fica chata. Tem coisas que não mudam. A empresa tem meta, objetivos, produção... A escola de samba também é assim."

Na lista de clientes de Solange estão Sabesp, Rede Cinemark, Banco Itaú, Unicid e outras.

Solange reconhece a dificuldade de administrar pessoas e vaidades, mas seu lado justo, característica de uma boa libriana, fala alto. "A reciclagem é importante porque a pessoa que fica muito tempo em um lugar começa a criar vícios. Sou observadora. Aqui não deu certo, mas pode dar certo ali. Em muitos lugares, tira-se a pessoa e pronto. Aqui não. Aqui [na escola] a gente faz rodízio."

Falar sobre dar oportunidade às pessoas da comunidade enche Solange de orgulho. "É bacana porque a escola proporciona isso. Lá fora a pessoa tem uma profissão, que pode ser motorista, cobrador, faxineira, não importa. E aqui dentro ela é diretora. É muito legal ver isso na comunidade. As pessoas se integrando, se tornando líderes, tendo espaço de voz, de comando. Eu sempre digo que sou o polvo e eles, os meus braços. São esses braços que alimentam o polvo."

Mesmo com a ajuda da tecnologia e a velocidade e facilidade da comunicação via WhatsApp, Solange não abre mão dos encontros presenciais. "Diretor de Harmonia, Evolução... Eles todos são parte do que vai comandar os outros. Sempre digo para fazermos bem feito porque somos espelhos dos nossos líderes. A gente conversa muito sobre isso nesses encontros."

"Muito vaidosa"

Solange gosta de estar sempre arrumada. Até mesmo no dia das fotos, quando tinha ficado horas no barracão, estava usando uma camiseta com brilhos, boné, unhas feitas... E não fica sem um batom. "Eu sou muito vaidosa. Às vezes uso trança, cabelo liso, enrolado, maquiagem colorida... Sou meio camaleoa. Gordinha, sim. Relaxada nunca!!!"

Marcelo Justo/ UOL
Imagem: Marcelo Justo/ UOL
A facilidade em mudar a aparência não está só nos cabelos. O peso também oscila bastante e isso a presidente diz que é por causa da ansiedade. "Não tem jeito, começo a comer quando fico ansiosa", diz ela, que não descarta fazer uma nova cirurgia bariátrica. "Eu ia marcar, mas ficou muito em cima do Carnaval. Até nisso sou prática."

Mulher de fé, a presidente da Mocidade Alegre também é conhecida por ser aquela que segura os muitos terços nas mãos no dia da apuração das notas do Carnaval. "Sou católica, mas não sou crítica. Respeito todas as religiões."

Na Umbanda, dizem que ela é filha de Iansã, a senhora dos ventos e das tempestades, um orixá valente e com temperamento forte. "Aqui na escola, na minha sala, tem Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora das Graças... Mas também tem uma gruta com as yabás", conta ela, que foi a Salvador no dia da Festa de Iemanjá (dia 2/2) para agradecer e pedir a bênção para a escola.

São Paulo