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A folia no Recife de quem chega antes do Galo da Madrugada

André Soares

Colaboração para o UOL

21/02/2020 18h49

Deixar tudo para última hora, tradição pernambucana que já conseguiu o feito de atrasar em quase duas horas o show de Paul McCartney, conhecido por sua pontualidade, não pode ser considerada quando o assunto é o Galo da Madrugada. Conseguir um espaço para comercializar mercadorias durante a maior festa do Carnaval do Recife exige muita persistência.

Para estar nos principais pontos por onde passa o galináceo, é necessário chegar ao local na manhã que antecede a festa. De trabalhadores de todo o estado de Pernambuco, que amam o Carnaval e aguardam ansiosamente a festa, aos que vão com a única finalidade de ganhar dinheiro, é preciso dividir os metros quadrados nos ambientes permitidos.

Antonio Assis é passista profissional, mas não gosta de Carnaval. "Eu sou trabalhador do frevo e da dança. Me sinto bem trabalhando e não brincando", declarou, fazendo questão de deixar claro com toda a sinceridade e simpatia nas palavras de quem não curte o Sábado de Zé Pereira.

Sandra Maria, moradora da praia de Maria Farinha, na cidade de Paulista, vende doleiras e arranjos de cabelos durante o Carnaval. Para conseguir um espaço, há 18 anos ela estaciona na ponte Duarte Coelho no dia anterior. "Eu não durmo. Chego aqui para marcar o local, vou para Olinda e para o Recife Antigo. Volto e fico acordada. Fico na rua para amanhecer no melhor local", afirma. Antes vendia bebida, mas a burocracia, mobilidade e a dificuldade na logística a fizeram mudar o campo de atuação.

Para Djair Ronaldo, vendedor de bebidas, o Galo não é tão sofrido assim. "Começo a montar tudo de manhã, mas a sensação que o Galo representa de paz, alegria e fé é maravilhosa. É maravilhoso estar junto dele e dar alegria ao povo", afirmou.

Herança carnavalesca

José Rodrigo vende espuma para pintar o cabelo no Galo da Madrugada - André Soares/UOL - André Soares/UOL
José Rodrigo vende espuma para pintar o cabelo no Galo da Madrugada
Imagem: André Soares/UOL

Com 18 anos, José Rodrigo vem do Alto da Bondade para vender espuma para pintar o cabelo todo caracterizado da clássica fantasia de pirata para o Carnaval. Acompanha sua avó desde cedo no comércio mas, atualmente, vem sozinho ou com amigos e afirma com tranquilidade: "Curto o galo, o pessoal, a alegria, a diversão. É bom demais!"

A famosa pipoca, presente na rotina diária de quem circula pelo Centro do Recife, também marca presença na madrugada do dia anterior ao Galo da Madrugada. Alonso Nascimento, pipoqueiro há 36 anos, lembra que há quatro anos as coisas eram bem diferentes para os comerciantes. Segundo ele, nos últimos quatro anos não tem tempo para brincar na festa e as vendas têm caído bastante. A opinião também é compartilhada por Paulo Veloso, morador da cidade do Jaboatão dos Guararapes.

"Trabalho no Galo há 18 anos. Vendo cerveja, acarajé e frango a passarinho. Agora é um sacrifício. As pessoas só querem comer de graça, mas ainda emociono quando o Galo passa. Como todo brasileiro, acho ele a melhor tradição do Brasil. Todo mundo acha".

Fundado há 42 anos, o Galo da Madrugada, segundo o Guinness Book, é considerado o maior bloco do mundo, desde 1995. Agora é só aguardar os primeiros cantos dos galos para a alvorada que inicia o Carnaval.

Recife e Olinda