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Mulheres no topo: como é ser uma pernalta no Carnaval do Rio

Da esq. para a dir., as pernaltas Rayssa Bastos, Raquel Potí e Julia Gomes nos jardins do MAM, no Rio - Fernanda Dias/UOL
Da esq. para a dir., as pernaltas Rayssa Bastos, Raquel Potí e Julia Gomes nos jardins do MAM, no Rio Imagem: Fernanda Dias/UOL

Thiago Camara

Colaboração para UOL, no Rio

19/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • As pernaltas batem ponto em vários blocos do Rio de Janeiro antes e durante os dias de folia carnavalesca
  • Raquel Potí, professora de uma das mais concorridas oficinas de perna de pau do Rio, já formou cerca de 300 novos artistas desde 2014
  • "Aqui é um espaço para que as pessoas descubram essa potência e essa poesia dentro delas", diz a professora

Do alto elas enxergam um Carnaval que quase ninguém vê. De baixo elas são vistas pelos milhares de foliões que se divertem nos blocos de rua do Rio de Janeiro. As pernaltas batem ponto em vários blocos antes e durante os dias de folia. E levam a brincadeira, a leveza de sua arte, sem deixar de lado o engajamento político e a reafirmação de que o lugar da mulher, no Carnaval e durante o ano todo, é onde ela quiser.

"No Carnaval carioca, o protagonismo dos homens, seja na música, seja nas organizações e nas tomadas de decisão, sempre foi mais evidente. E o primeiro movimento que teve a mulher como protagonista é a perna de pau. E vemos mulheres formando novas pernaltas e do jeito feminino de fazer, com uma visão feminista", explica Raquel Potí, professora de uma das mais concorridas oficinas de perna de pau do Rio e que já formou cerca de 300 novos artistas, desde 2014.

Todo sábado à tarde, ao passar pelos Jardins do Museu de Arte Moderna (MAM), entre algumas palmeiras, dezenas de pessoas andam, dançam e cantam no gramado a céu aberto. São alunos de Potí, que além de dar expediente por ali, pode ser vista em blocos tradicionais do Carnaval de rua do Rio levando sua arte para somar a músicos e foliões na catarse coletiva dos dias de momo.

"Olhar encantador"

É coisa de bater os olhos e ser seduzido. Foi assim com a estudante de psicologia Julia Gomes. Depois de dois anos seguidos acompanhando o cortejo do bloco da Terreirada Cearense e se emocionando com a performance da ala de pernaltas, comandada por Raquel Potí, ela resolveu se inscrever na oficina.

Fernanda Dias/UOL
Imagem: Fernanda Dias/UOL
"Ela tem um olhar encantador, parece que resgata a criança que tem dentro de você. Sabia que de alguma forma eu tinha de conhecer a oficina e entender essa magia", conta ela.

Com seus 1,55 m, Potí parece uma gigante no comando do ensaio da ala do Terreirada. Com firmeza, delicadeza e leveza, ela transforma um simples ensaio em espetáculo. Ora corrige seus alunos, ora os aplaude e agradece. E dança junto. Aliás, segundo ela, toda a oficina é uma construção coletiva. A artista e educadora rechaça o estrelismo.

"Nós criamos juntos. Aqui é um espaço para que as pessoas descubram essa potência e essa poesia dentro delas. Cada pessoa fica responsável por acessar a sua verdade", explica.

Conexão com o próprio corpo

Rayssa Bastos, 31 anos, sabe exatamente o que a professora está falando. A relações públicas, que entrou na oficina já pensando em desistir, era uma das mais desenvoltas no ensaio do último sábado, 15 de fevereiro. Será sua estreia como pernalta no Carnaval carioca neste ano e o caminho até o "gran finale" já valeu a pena.

Fernanda Dias/UOL
Imagem: Fernanda Dias/UOL
"A perna de pau foi uma atividade que ajudou a me reconectar comigo, com meu corpo, com a minha autoconfiança e com a minha liberdade. Se nesse ano eu servir como inspiração para mais pessoas buscarem essa mesma conexão, esse ciclo já vai ter valido a pena", conta.

Ao acompanhar um ensaio, parece fácil subir e descer, andar e dançar na perna de pau, que pode medir de 0,60 m a 1,20 m. Mas não é. E para manter a turma focada e estimular o que ela chama de desenvolvimento de redes, Raquel Potí faz uma integração entre novos e antigos alunos. Se depender das suas oficinas nunca mais vão faltar pernaltas no carnaval do Rio.

"Além da experiência que a pessoa tem na turma dela, ela continua numa experiência pós-turma nesse retorno à oficina, como voluntária, ajudando outras pessoas a subirem na perna de pau", explica.

Homenagem a Beyoncé

Enquanto algumas alunas voltam, outras deixam o grupo para alçar voos mais altos. Formada nessa mesma oficina dos Jardins do MAM, Aline Bach, pesquisadora de dança e bailarina profissional, inovou nas performances em cima dos tocos de madeira. Ela está à frente de uma ala de 10 mulheres que dançam músicas de Beyoncé.

Formado exclusivamente por mulheres e criado em 2018, o Bloconcé é uma homenagem à diva pop e fez seu primeiro cortejo no Carnaval de 2019, quando Aline e suas "manas" lacraram do alto de suas pernas de pau.

"O que a Beyoncé faz com iluminação, fumaça, ventilador, telão, jogo de câmera, corpo coreográfico, nós fazemos só com nossos corpos. Essa é a grande revolução dessas mulheres que estão levando esses espetáculos para as ruas", opina.

Sororidade e engajamento

As pernaltas são um mix de arte pública, palco individual e, sem dúvida, uma ocupação das ruas. Mas, para estas mulheres, estar no topo durante o Carnaval não significa que todas as suas conquistas foram alcançadas.

"Qualquer lugar em que a mulher seja protagonista é uma forma política de contribuir para o combate ao machismo, à misoginia e à homofobia Ela está contribuindo para uma transformação social, principalmente por meio da arte, quando passa uma mensagem de sororidade, de comunidade", aponta Potí.

Nem do topo, nem das ruas as mulheres pernaltas sairão. Elas têm consciência do lugar que ocupam no Carnaval.

"É muito importante que a gente esteja nas ruas e fale das nossas questões, pois o festejo popular sempre foi um ato político. O Carnaval amplifica a informação, o diálogo e a união de vários tipos de feminismos. Ele une e potencializa muitas questões que cada mulher vive na sua singularidade", resume Aline.

Blocos de Rua