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Willian encontrou Jesus no sambódromo: "Fui largando a bebida e a droga"

Willian Batista (centro) deixou a droga e as noitadas depois de conversar com evangélicos no sambódromo - Felipe Pereira
Willian Batista (centro) deixou a droga e as noitadas depois de conversar com evangélicos no sambódromo Imagem: Felipe Pereira

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

18/02/2020 04h03

Willian Batista, 47 anos, não mede palavras e diz que estava doidão no Carnaval de 2008. Tinha afundado o nariz no pó e entornado quantidades industriais de cerveja e uísque. Aos 25 anos, era compositor na cena do samba e do pagode paulistano. Seus parceiros de festa iam de juízes a integrantes do PCC.

O estilo "vida loka" ia para o desfile das escolas de samba de São Paulo daquele ano. Willian não concebia ir para a avenida sóbrio. Foi com desdém que aceitou falar com o grupo de evangélicos que pedia para dizer umas palavras antes de entrar no sambódromo.

Entrou por um ouvido e saiu rápido pelo outro. Eu estava doidão, sem condições de entender qualquer recado. Logo falei que minha escola ia desfilar e fui embora. Uma jovem, a que menos falou, a mais tímida, me seguiu e disse: Deus tem uma obra para você! Respondi, esse negócio de crente não pegava comigo porque meu negócio era samba, Carnaval e cheirar.
Willian Batista, pastor e músico

Aquela noite iria mostrar que Willian estava errado. A frase da jovem martelou na cabeça durante o desfile e ele declinou do convite para a festa depois. Mesmo que o after tivesse o cardápio favorito do compositor: bebidas, cocaína e mulherada.

Hoje, Willian é pastor.

"Fui largando a bebida e a droga. Antes, vivia da noite e para a noite. Eu ganhava R$ 500 e chegava só com R$ 100 em casa. Deixei de frequentar a prostituição também. Minha vida nunca mais foi a mesma".

Mas Willian continua sambista. Ele toca em um bloco evangélico em São Paulo.

Desfile do Ide, o bloco de Carnaval evangélico de São Paulo - Felipe Pereira
Desfile do Ide, o bloco de Carnaval evangélico de São Paulo
Imagem: Felipe Pereira

Pregando no Carnaval

O Carnaval é normalmente associado à pegação e bebedeira. Tudo ao contrário dos ideais crentes. Mas Willian continua na música porque no ano passado foi fundado o Ide, bloco evangélico de São Paulo. A escolha do nome explica a intenção dela.

A inspiração veio de um versículo bíblico que está no livro de Marcos. O capítulo 15, versículo 16 diz: 'ide por todo mundo, pregai o evangelho a toda criatura. E aquele que crê e for batizado será salvo'. Jesus comissionou os cristãos a pregarem o evangelho da salvação.
Silvia Fagá, fundadora do bloco

Os integrantes do bloco acreditam que o Carnaval é um local de pregação e o samba, um meio de pregar. Willian é a materialização deste raciocínio. Os integrantes do Ide não bebem, nem fumam. O pré-Carnaval do bloco ocorreu no último sábado com as geladeiras abastecidas de refrigerante e água mineral.

Pessoas de fora da religião são muito bem-vindas, afirma Silvia. Este é o público-alvo que os evangélicos pretendem atingir. Mas poucos foliões não crentes apareceram.

Silvia é fundadora e presidente do bloco evangélico que desfila no Carnaval de São Paulo - Felipe Pereira
Silvia é fundadora e presidente do bloco evangélico que desfila no Carnaval de São Paulo
Imagem: Felipe Pereira

O Ide não é um arrasta-quarteirão. Tem mais cara de roda de samba em bairro. Neste ano, foi realizado sob uma tenda montada numa praça do Rio Pequeno, comunidade da periferia de São Paulo. Eram oito atrações musicais entre grupos e cantores solo da cena do pagode e do samba gospel.

Quase todo tempo seus cerca de 200 integrantes ficaram embaixo da tenda fazendo som. A saída do bloco durou 20 minutos e eles percorreram algumas quadras atrás de uma picape equipada com caixas de som que fez a vez de trio elétrico. Terminado o trajeto, voltaram à tenda para dar entrevistas ao programa Mais Você, da Rede Globo.

É uma festa na pracinha com crianças brincando na quadra ao lado, enquanto os mais crescidos se equilibram na pista de skate.

Mas o pagode e o samba gospel corre solto nas maiores vozes do estilo. Nice Garcia, considerada a "Beth Carvalho do samba gospel", está presente e todos estão se divertindo.

As pessoas acham que o povo evangélico é um povo triste, amargurado, angustiado. Não! Nós somos um povo alegre, de bem com a vida. Nós gostamos de alegria, por isso nós gostamos de samba evangélico
Nice Garcia, pastora e cantora

Tenda onde os foliões do bloco evangélico de São Paulo fizeram concentração - Felipe Pereira
Tenda onde os foliões do bloco evangélico de São Paulo fizeram concentração
Imagem: Felipe Pereira

Bloco é mistura de igrejas

O Ide é democrático em misturar Carnaval e religião. Este espírito também aparece na escalação de grupos e cantores, que pertencem a diferentes congregações. O pastor Willian ressalta que na sua banda há pessoas de diferentes igrejas.

As músicas que eles produzem são louvores de composição própria em ritmo de samba e pagode. Há ainda adaptações de canções religiosas gravadas em outros ritmos, transformando os grupos numa espécie de "Sambô gospel", em referência à banda conhecida por fazer versões de músicas consagradas.

"Nossas músicas têm um teor cristão, hoje considerada música gospel. Sempre são mensagens bíblicas, temas relacionados a palavra de Deus", explica a fundadora do Ide.

E se o samba-enredo das escolas muitas vezes tem origem na cultura indígena ou africana, no Carnaval gospel a inspiração vem da Bíblia. O Ide tem samba-enredo, que neste ano foi composto pela dupla Glauco Leão e Zequinha Costa. O refrão reflete a missão de evangelizar na folia.

"Jesus mandou eu vou. Ide vós também. Falar do seu amor. E semear o bem."

Mas existem pastores que não gostam da existência de um bloco evangélico. Silvia conta que são pessoas com uma visão mais estrita do comportamento que um crente deve ter.

Ninguém no bloco estava ligando para opinião de terceiros. Trataram de se divertir acreditando que estão espalhando a palavra de Deus.

CarnaUOL