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Blocu, após episódio do 'golden shower', volta à rua: "Espaço de liberdade"

Blocu volta às ruas como espaço de livre manifestação - Reprodução/ Facebook do Blocu
Blocu volta às ruas como espaço de livre manifestação Imagem: Reprodução/ Facebook do Blocu
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Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

18/02/2020 11h47

Resumo da notícia

  • Bloco desfilará no próximo dia 24 pelas ruas do centro de São Paulo
  • Organizadores afirmam que preocupação é criar espaço seguro para LGBTs
  • Bloco ganhou uma edição também nas ruas de Lisboa, em Portugal

O Carnaval de São Paulo tem se mostrado um espaço muito democrático, com os mais variados tipos de blocos e posicionamentos políticos. Tem sido comum que folia e política se misturem e gerem debates. No ano passado, pouco após as festas, o presidente Jair Bolsonaro despertou controvérsia ao publicar em suas redes um vídeo em que duas pessoas praticavam "golden shower" durante o Blocu, agremiação que costuma desfilar em São Paulo e em Lisboa. Após muita polêmica, o bloco volta às ruas neste ano, no dia 24, pelas ruas do centro. "Podemos dizer que o conservadorismo para o caso do 'golden shower' foi ridículo. As pessoas deviam mesmo ficar chocadas com os índices de assassinatos e violência causada por homofobia", diz uma das organizadoras, Marquesa ChandraKant, que classifica as postagens do presidente como irresponsáveis. "Ele só conseguiu mesmo expor para o mundo o quão é despreparado para o cargo que ocupa." A coluna conversou com a performer, que se apresentará durante o cortejo, sobre o Blocu e a importância de um bloco como este no Brasil.

Qual a importância de um bloco queer no carnaval paulista?
A ideia de sair às ruas com um bloco de carnaval queer vem da necessidade de termos no carnaval de rua de São Paulo a oportunidade de manifestarmos a liberdade. Não apenas de nos expressarmos como bem entendemos, mas de reforçar que nossas ideias dissidentes precisam de ainda mais forças. Somos uma ferramenta de conscientização e aceitação.

Tem sido seguro para os LGBTs brincarem carnaval em São Paulo?
Não tem sido seguro e não é segura a vida de uma pessoa que se enquadra nesta sigla. Nem no Carnaval, nem no dia a dia. E é por isso que tomamos as ruas com nossos corpos periféricos, para que, de alguma forma, nos ouçam e nos vejam, nos respeitem e nos validem.

Existe um tema para o desfile deste ano?
Sempre optamos por não eleger um tema específico. Pelo menos não enquanto nós bichas, trans, pretas, gordas, entre tantas outras, formos um tema dentro da sociedade. Sendo assim, podemos dizer que o tema somos nós. Teremos como DJs Mari Mats com Mina, Ledah, Azagatcha, Lei di Dai e Maloka. Nas performances teremos o Teatro da Pomba Gira, Edys, eu (Marquesa ChandraKant) e Eduardo Laurino. O Blocu é uma ManiFesta, uma manifestação pela liberdade, contra a intolerância, "artivista" e hedonista que sai anualmente em São Paulo e em Lisboa, mas com a intenção de espalhar sua mensagem para mais cidades do Brasil e do mundo no próximo ano. Uma mistura de música brasileira eletrônica, maioritariamente feita por mulheres, transexuais e bichas, com intervenções performáticas e visuais, repletas de cores e brilhos. Mesmo contando com apoio de marcas, nossa iniciativa ainda é feita com dificuldade e depende do engajamento do público, especialmente na festa depois do desfile, que ajuda a pagar os custos do bloco.

Dá para dizer que São Paulo consolidou sua vocação para blocos de rua no Carnaval?
Certamente a cidade não apenas se consolida como o maior Carnaval do Brasil, como também as pessoas tomam consciência e passam a ocupar as ruas da cidade com cultura e manifestações artísticas de maneira democrática. O mesmo grupo que iniciou Blocu e a festa Venga Venga já faz parte do Carnaval de São Paulo há sete anos. Participamos, direta ou indiretamente, dessa revolução da folia de rua de São Paulo, junto a diversos blocos de coletivos e de comunidade e blocos antigos que abriram caminho para a realidade que vivemos hoje.

É inevitável falar sobre o assunto, mas por causa do episódio do golden shower, houve receio em colocar o bloco na rua neste ano?
Os receios de qualquer bloco são os mesmos. Normalmente são estruturais, por trabalharmos com grandes massas, e, claro, dizem respeito à segurança do público em geral, especialmente por, no nosso caso, falarmos de uma comunidade tão discriminada no nosso país. Nossa intenção é sempre criar um espaço de liberdade onde o publico queer se sinta seguro para se expressar e se divertir. Todos sabem que o episódio do golden shower não foi uma iniciativa do Blocu, mas um ato espontâneo de performers como um manifesto. O Blocu foi o "espaço seguro escolhido" por tais performers para trazer seu ato para denunciar a homofobia normalizada na nossa sociedade. Homofobia. Esse é o receio que todos nós, da comunidade queer, sempre passamos diariamente. O receio pelas nossas vidas que são negligenciadas, e que chamam menos atenção que qualquer escândalo. O receio de viver no país que mais mata LGBTQs no mundo.

Ainda sobre o episódio, mesmo sabendo que multidão não se controla, haverá alguma orientação para evitar a controvérsia?
A controvérsia não aconteceu exatamente no bloco que, em meio a 15 mil foliões felizes e celebrativos, foi bastante pacífico e serviu ao seu propósito de ativismo e hedonismo. A controvérsia realmente só aconteceu depois, gerada mais pelas postagens irresponsáveis do presidente, que, ao tentar difamar o carnaval brasileiro, conseguiu mesmo expor para o mundo o quão é despreparado para o cargo que ocupa. As situações político-sociais extremas como a que vivemos podem provocar as mais diversas reações, revelando o posicionamento de cada membro da sociedade. Com isso, podemos dizer que o conservadorismo no caso do golden shower foi ridículo. As pessoas deviam mesmo ficar chocadas com os índices de assassinatos e violência causada por homofobia e não por um "suposto" ato obsceno que na verdade era arte de protesto e que, finalmente, com tanta controvérsia, cumpriu seu papel. Esse é o papel da arte, expor as chagas da sociedade, fazê-la parar para pensar. Então, finalmente, a orientação é: respeitem as bichas, as travestis, as pretas, as gordas, as lésbicas, respeitem as queers, respeitem as diferenças. Sim é sim e não é não!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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