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Jorge Silveira, da São Clemente: "Crítica no Carnaval é ato de resistência"

Jorge Silveira, da São Clemente - Rafael Arantes/ Divulgação
Jorge Silveira, da São Clemente Imagem: Rafael Arantes/ Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

24/01/2020 04h00

Caminhando para o terceiro Carnaval à frente do barracão da São Clemente, Jorge Silveira trabalha para, além de conduzir a escola de Botafogo a uma boa classificação, resgatar a identidade da agremiação, famosa nos anos 1980 pelos enredos de crítica social.

Após amargar o 12º lugar em 2019, o carnavalesco segue na mesma trilha para este Carnaval do Rio, quando promete arrancar gargalhadas do público com o enredo "O Conto do Vigário".

Abrindo a noite de segunda-feira, a São Clemente contará mais de três séculos de história do Brasil marcados pela vigarice e pelo eterno desejo de levar vantagem sobre as pessoas de boa fé. Partindo do fato que deu origem à expressão (um golpe que um padre deu em um colega para ganhar uma imagem de Nossa Senhora para sua igreja, em Ouro Preto), a amarela e preta chegará aos dias atuais com referências bastante explícitas ao atual governo, como a disseminação das fake news e os negócios do assessor Fabrício Queiroz.

Nesta entrevista exclusiva, Jorge Silveira fala sobre os desafios de fazer um desfile irreverente e, ao mesmo tempo, competitivo.

Desde o Carnaval do ano passado, a São Clemente retomou a sua verve crítica. E, para 2020, você a potencializa ainda mais. Porém, a classificação em 2019 não foi nada boa. É possível fazer um carnaval satírico e ser competitivo?

Na minha percepção, sim, mas acho que a pergunta deve ser destinada aos jurados. Nós cumprimos os requisitos pedidos pelo julgamento, mas um enredo irreverente nunca venceu o Carnaval. É muito curiosa essa percepção, porque o Carnaval historicamente é o período em que você esquece o cotidiano e cai na brincadeira. Porém, o endurecer da disputa chegou ao ponto que desconsidera a natureza original do Carnaval, que é a galhofa. Mas eu acho que é possível ser competitivo porque eu ainda acredito que o povo é o grande fiel da balança. Conquistar a Marquês de Sapucaí é fundamental para interferir na dinâmica do resultado. No ano passado essa minha tese não se confirmou. Tivemos um desfile com vários momentos de empatia com o público, mas os jurados não reconheceram.

O que você notou das justificativas dos jurados? Houve coerência?

Se olhar de forma fria e calculista, você verá que houve muita contradição entre jurados do mesmo quesito. A comissão de frente, que foi um dos pontos altos do desfile com a encenação da virada de mesa, teve, do primeiro jurado, a avaliação de que o tripé estava inacabado. Já o último julgador deu a nota 10 e elogiou o acabamento do elemento. Ou seja, tivemos um caso inédito de uma alegoria que foi melhorada durante o desfile (risos).

Creio que o objetivo é manter essa conexão com o público e conquistar os jurados. O que mudou no seu trabalho para romper essa barreira?

Esse é o meu terceiro Carnaval na São Clemente. No primeiro ano não tivemos essa resposta do público com um desfile mais requintado e caro. No ano passado, não tivemos os mesmos recursos e nos conectamos com o público. Para 2020, quero uma junção desses dois cenários. Conseguir o aplauso do público em consonância com o acabamento e a beleza das alegorias e fantasias. Isso sem perder o tom da crítica e da irreverência. O foco é falar com as pessoas diretamente, com um toque de humor, com o luxo e beleza que o Carnaval exige.

Neste ano você tem um trunfo, a presença do Marcelo Adnet, que é um dos autores do samba e está sempre presente nos ensaios da escola. Como se construiu essa relação?

Nunca tivemos uma figura pública de tamanha repercussão que bate no peito e diga que torce pela São Clemente e se envolve com a escola. Isso tem sido muito saudável porque ele é alguém que agregou valor na nossa rotina. Ele nunca se fez valer de sua popularidade para tentar interferir no processo criativo do Carnaval. O Adnet já veio várias vezes no barracão e deu sugestões válidas que eventualmente vão entrar no desfile. Além disso, ele fez a defesa do samba para os jurados, muito bem fundamentada. Mas ele respeita muito o nosso trabalho e leva a imagem da escola a lugares onde a escola não chegava. Não é um benefício só para a São Clemente, mas para todas as escolas. Em um momento em que estamos sendo tão agredidos, ele é uma face positiva da festa.

Imagino que ele terá um lugar de destaque no desfile.

Terá, mas estou guardando esta surpresa. Ele falou para mim, na primeira vez que veio ao barracão, que, se necessário fosse, ele viria com a tanga do Borat (personagem vivido no cinema pelo ator Sacha Baron Cohen). Mas o martelo ainda não está batido. A dinâmica deste enredo é de atualização constante. Todo dia surgem elementos novos que me fazem refletir sobre como vou encaixar no desfile.

Como é fazer um enredo crítico no Brasil de hoje, tão polarizado e intolerante?

A primeira vez que tive problemas foi recentemente, quando o pastor Marcos Feliciano compartilhou nosso enredo. A partir de então os robôs passaram a atacar as redes sociais da escola. Não me atacaram ainda porque não sou famoso (risos). Até mandei uma mensagem para o Leandro Vieira (carnavalesco da Mangueira) e disse: "Você agora não está mais sozinho" (risos). Eu trato isso com naturalidade. Fazer Carnaval crítico sempre foi um ato de resistência. Fazer humor é ser de oposição, seja quem esteja na presidência. A diferença é que o governo atual tem uma carga sobrenatural de contradição e não tem como não se posicionar diante das aberrações. É um conto do vigário por dia.

Qual sua grande aposta para o desfile?

Aposto muito na fácil leitura, que é algo que funcionou muito no ano passado. Se não entenderem a piada, ela não funciona. Quero arrancar esse humor com uma linguagem muito direta. Vejo o desfile da São Clemente com uma grande charge, com uma pincelada forte, com cores e imagens que propiciem a leitura do enredo. É tudo caricaturado nas fantasias e alegorias. Esse é o meu lugar de fala. De todos os desfiles que já tenha feito, talvez seja o mais "eu" de todos eles.

Seu enredo passa por três séculos de golpes. Qual o maior conto do vigário da história do Brasil?

O pano de fundo dessa história toda é que o país foi formatado na ideia de alguém que possua o poder e o use para seduzir os incautos e tirar deles o que eles não têm. O grande conto do vigário é a crença inabalável que o povo brasileiro acaba tendo nas forças que ele elege para representá-lo e que quase nunca se dedicam a esta tarefa. A gente entrega nossa vida a eles e eles só usam a nossa boa vontade para proveito próprio.