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Coluna do Veterinário

Programa de veterinário faz sucesso, mas mostra prática longe do ideal

Cena do programa "O incrível Dr. Pol", exibido pelo NatGeo no Brasil - Reprodução
Cena do programa "O incrível Dr. Pol", exibido pelo NatGeo no Brasil Imagem: Reprodução
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para o UOL, em Murcia (ESP)

19/10/2020 14h07

Outro dia estava passando os canais na televisão aqui em casa e descobri que "O incrível Dr. Pol" também passa aqui na Espanha. Para quem não conhece, esse programa é transmitido no Brasil em um canal de TV por assinatura, o NatGeo, e mostra o cotidiano de um veterinário e sua equipe, no interior do Michigan, nos Estados Unidos.

Dr. Pol é um veterinário que atende todo tipo de animal, pets, vacas, cavalos, ovelhas... Nas mais variadas situações. O número de temporadas do programa (17) e o movimento de sua clínica atestam a popularidade desse simpático senhor de 78 anos. Porém, ao mesmo tempo que tem um grande sucesso na TV, o veterinário coleciona polêmicas entre os colegas de profissão e alguns processos por más práticas.

Para mim, o mais incrível do Dr. Pol é o fato de ele estar há tanto tempo na TV, fazendo coisas completamente absurdas, e ainda assim seguir no ar. A impressão que me dá é a de que o veterinário se formou jovem na faculdade e nunca mais fez qualquer curso de atualização. Sua prática clínica é completamente ultrapassada, para dizer o mínimo.

A imagem que abre esta coluna foi retirada de um dos episódios da série, na qual ele faz uma cirurgia de remoção de olho em um boston terrier, procedimento que é muito comum em cães braquicéfalicos, como os dessa raça (você pode ler mais sobre os problemas desses animais clicando aqui). Esta imagem, no entanto poderia ilustrar uma aula chamada "O que não fazer em uma cirurgia":

- Centro cirúrgico está com as portas abertas

- Cirurgião e auxiliar não estão usando roupa cirúrgica

- Ausência de máscaras e gorros

- Ausência de campo cirúrgico estéril

- Ausência de materiais estéreis

- Animal sem acesso venoso

- Animal não está intubado

- Animal não está recebendo suplementação de oxigênio

- Animal não está devidamente monitorado

- Ausência de anestesista (o auxiliar é seu filho, que não possui formação em veterinária)

- Anestesia e analgesia inadequada

Nesse caso especificamente ele foi denunciado e condenado pelo conselho de veterinária do estado por negligência e incompetência, decisão que foi revertida pela justiça após apelação. Os argumentos para a reversão foram a de que nenhuma das boas práticas apontadas anteriormente está na legislação do estado do Michigan. Além disso, o fato de o cão ter sobrevivido e de seus donos estarem satisfeitos também é usado como argumento em seu favor. Então, por mais que cientificamente ele esteja errado, legalmente ele não pode ser punido.

Este é apenas um dos diversos casos em que o Dr. Pol fez procedimentos cirúrgicos sem um mínimo de condições. Ele também é muito criticado por fazer procedimentos dolorosos sem anestesia adequada, como foi observado no caso em que ele amputou a cauda de um cão sem anestesia. As pessoas que o defendem usam como argumento o fato de que os donos dos animais estão satisfeitos com seus tratamentos e que o seu sucesso demonstra o quanto ele é um bom profissional.

Infelizmente, muitas vezes os donos dos animais estarem satisfeitos não é sinônimo de sucesso. Nossos animais não podem falar o quanto sofreram durante um procedimento realizado sem anestesia e analgesia adequada, e a dor é um sinal de difícil diagnóstico mesmo para veterinários experientes. Assim, é possível que os animais estejam sofrendo e seus donos não percebam. Além disso, a cirurgia do caso acima pode ter dado certo, mas muita coisa poderia ter saído errado, e nada garante que a anestesia mal feita não gerou algum problema futuro, como a aparição de dor crônica ou uma insuficiência renal anos depois.

Para outros defensores, Dr. Pol oferece um serviço de baixo custo, e a utilização de boas práticas inviabilizaria seus preços e o acesso aos tratamentos. Ora, algumas medidas de higiene teriam custo quase nenhum. Além disso, até que ponto é ético, com o objetivo de reduzir custos, não proporcionar um tratamento minimamente adequado como obter um acesso venoso, ou intubar um animal que, sabidamente, possui alterações em vias aéreas?

Tais medidas podem ser a diferença entre a vida e a morte do paciente e custam muito pouco. Uma anestesia local para a remoção da cauda citada acima também custaria alguns dólares e proporcionaria alívio total no sofrimento do paciente. Concordo que algumas outras mudanças teriam um custo maior, como a aquisição de bons aparelhos e monitores de anestesia, mas tenho certeza que a estrela de uma série de televisão no ar há quase duas décadas poderia fazer esse investimento.

A minha crítica principal não é ao Dr. Pol em si. Penso que ele realmente acredita em seu trabalho e dá o seu melhor para tratar seus pacientes. Entretanto, hoje em dia sabemos que muitas das coisas que ele faz são duvidosas e causam sofrimento para os animais. O que eu acho inacreditável é que mesmo com tantas críticas e evidências o programa siga no ar, mostrando para o grande público uma medicina veterinária do século passado. Esse programa passa uma ideia errada do que é a medicina veterinária de excelência, e o canal deveria usar o espaço para promover serviços e profissionais que realmente fazem o que há de melhor para seus pacientes.

Nota da redação: Procuramos a assessoria de imprensa do NatGeo e será atualizada com a posição do canal

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.