A EXPLORAÇÃO DAS DIFICULDADES: UMA PROPOSTA DE LEITURA DE WINNICOTT

Resumo: O eixo delimitado pela questão necessidade/instinto/desejo é tomado como apoio para a realização de uma leitura problematizadora, que visa possibilitar um movimento progressivo na intimidade do texto winnicottiano.

Janete Frochtengarten
Psicanalista; membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

As cartas estão na mesa...

Cara Srta. Peller

Pode parecer estranho que eu faça essa grande distinção entre desejo e necessidade. Em meu contato com a sociedade psicanalítica, contudo, estive constantemente em estado de frustração, até mais ou menos 1944, porque nos encontros científicos da Sociedade eu ouvia constantemente referências a desejos, e descobri que isso estava sendo usado como uma defesa que bloqueava o estudo da necessidade. Na condição de pediatra, voltei-me para a psicanálise com uma consciência bem desenvolvida da dependência infantil, e achei exasperante que a única dependência que meus colegas poderiam considerar era a de dependência do tipo de providência que leva a satisfações do id. Participei na alteração disso, pelo menos no que diz respeito à Sociedade Britânica. Em várias ocasiões, chamei a atenção para o fato de que os oradores estavam se referindo à primeira infância como se o início fosse uma questão de satisfação da pulsão. Gradualmente, fui descobrindo a srta. Freud, e depois outros, usando a palavra necessidade, mas trata-se de uma coisa lenta e essa mesma coisa está na raiz de um dos problemas atuais de todo o movimento psicanalítico.....

Atenciosamente,

D. W. Winnicott. (1)

Inicio com este fragmento de carta para evidenciar, logo de entrada, a diferenciação: entre necessidade e instinto; entre necessidade e desejo. Pela ênfase com a qual Winnicott escreve, percebe-se o quanto estas discriminações são fundamentais para o seu pensamento.

Como conseqüência, é preciso que se faça, também logo de entrada, uma observação sobre algumas traduções dos textos de Winnicott. O nosso autor utiliza, até o final de seus escritos, o termo inglês "instinct"(2) e não usa, a meu ver, o próprio termo ou algum outro que pudesse apontar para a conotação de "pulsão" (isto é válido quando ele examina as etapas primeiras do desenvolvimento da criança - e que é justamente onde reside o seu objeto privilegiado de interesse). Em algumas traduções para o francês, bem como em algumas para o português (como na carta acima), encontra-se o termo "pulsão". Penso que traduzir por "pulsão" já é um desvio que conduz o leitor, inevitavelmente, à ótica freudiana, que toma como referente o "conceito-limite entre o psíquico e o somático". Para Winnicott, como veremos, o instinto é uma força biológica (volto a lembrar: pelo menos nos tempos iniciais do desenvolvimento).

Ao pretender permanecer, neste trabalho, o mais próximo possível do texto winnicottiano, mantenho o termo "instinto", ainda que nas citações possa estar "pulsão" (enquanto opção do tradutor).

Este lembrete quanto às traduções não é um preciosismo. Instinto ou pulsão é uma das faces da questão que pretendo discutir.

Winnicott também usa "instinto" quando se refere à criança em etapas posteriores do desenvolvimento, à criança já integrada, contornada enquanto uma unidade, imersa na configuração edípica. Nesta contextualização, "instinto" tem todas as conotações freudianas; o próprio autor explicita que, a partir desta etapa, a teorização de Freud é, basicamente, também a sua.

 

Para Anna Freud

18 de março de 1954

...Meu objetivo agora será tentar relacionar minhas idéias com as de Kris e Hartmann, já que sinto, pelo que escreveram recentemente, que estamos tentando expressar as mesmas coisas, só que eu tenho um modo irritante de dizer as coisas em minha própria linguagem, em vez de aprender a usar os termos da metapsicologia psicanalítica.

Estou tentando descobrir por que é que tenho uma suspeita tão profunda com esses termos. Será que é porque eles podem fornecer uma aparência de compreensão onde tal compreensão não existe? Ou será que é por causa de algo dentro de mim? Pode ser, é claro, que sejam as duas coisas.

Os melhores votos,

Atenciosamente

D.W. Winnicott. (3)

 

O fato de Winnicott escrever na "própria linguagem" é, sem dúvida, uma das dificuldades mas também, sem dúvida, um dos imensos potenciais de aberturas e ressonâncias que seus textos contem. Há neles uma "pessoalidade", uma qualidade de expressão em primeira pessoa, que é vibrátil, que faz a psicanálise ter sons de vida e se encarnar em vida em suas próprias experiências de vida (como na carta para Anna Freud, em que ele está nas indagações psicanalíticas na mesma medida em que a psicanálise está nele).

A minha leitura de Winnicott vai caminhando pelo prazer de descobertas preciosas, pela impaciência com as dificuldades e sobretudo, neste momento, pelas riquezas das dificuldades. Obstaculizando um saber plácido, o que me é opaco em Winnicott, tem recolocado --- não sem angústia --- indagações sobre conceitos pilares; tem revolvido tudo o que, atraido pelo conforto do óbvio, gostaria de se sedimentar. O que venho buscando realizar é uma travessia pela sua obra, evitando me fixar em um único e datado enunciado, confrontando, debatendo, me debatendo; tenho, ora procurado encontrar as soluções para os impasses em seu próprio pensamento, sem recorrer de imediato a outros referenciais teóricos, ora convivido com os impasses como tais, sustentando-os. É a um ponto desta travessia que convido o leitor a me acompanhar percorrendo, sob a minha condução (caso o convite seja aceito), algumas proposições de Winnicott; a me acompanhar nesta busca que resulta em alguns lugares de chegada e a vários outros de partida, nos quais o único ganho é a formulação de questões com maior consistência.

 

 

Necessidade - instinto

 

Para Donald Meltzer

25 de outubro de 1966

Caro Donald,

.....Fico realmente preocupado com sua referência, na metade da página 4, à dependência da mãe interna. Gostaria de insinuar que esse é um raciocínio piegas. O estabelecimento de uma estrutura psíquica estável e saudável certamente está relacionado a uma confiança na mãe interna, mas essa confiança é mantida pelo indivíduo. É verdade que as pessoas passam a vida sustentando o poste onde estão apoiadas, mas, em certo ponto da fase inicial, tem de existir um poste que se mantenha por conta própria, do contrário não há introjeção de confiança. ......

Os melhores votos,

Atenciosamente

D. W. Winnicott (4)

Poste? Que poste é este?

O poste tem a ver com a divergência de Winnicott em relação a Melanie Klein que, ao seu olhar, considerava o ambiente exterior apenas superficialmente. O poste é a ambientação primária, é o ambiente fornecido pela mãe suficientemente boa ao bebê recém-nascido que está em uma condição de dependência absoluta (da qual não tem a menor consciência); a mãe propiciaria o ambiente que é parte essencial da dependência, que é parte essencial do bebê; quando a dependência total demanda uma adaptação precisa, a falha na adaptação materna produz distorções dos processos vitais do bebê.

Sucintamente apresentado, eis o poste.

Para Winnicott o bebê é dotado de tendências inatas de maturação, de desenvolvimento, mas....

"Em todo enunciado do desenvolvimento da criança certos princípios são dados como certos. Desejo aqui afirmar que os processos de maturação formam a base do desenvolvimento do lactente e da criança, tanto em psicologia, como em anatomia e fisiologia. A despeito disso, no desenvolvimento emocional fica claro que certas condições externas são necessárias para os potenciais de maturação se tornarem realizados. Isto é, o desenvolvimento depende de um ambiente suficientemente bom, e quanto mais para trás se vai no estudo do bebê, tanto mais isto é verdade que, sem maternidade suficientemente boa, os estágios iniciais do desenvolvimento não podem ter lugar"(5).

Inúmeras vezes Winnicott ao se referir à necessidade, acrescenta, entre parênteses: emocional. Necessidade (emocional) - pontuando o imprescindível do ambiente para o advento do indivíduo como tal, para o vir a ser uno, integrado. Quando, por outro lado, encontramos necessidades (no plural), em geral, a conotação é de necessidade de ...., necessidade do...., enfim, necessidade na transitividade indireta do verbo correspondente.

Vejamos agora o estatuto do instinto.

"Instinto é o termo pelo qual se denominam poderosas forças biológicas que vêm e voltam na vida do bebê ou da criança e que exigem ação. A excitação do instinto leva a criança, assim como a qualquer animal, a preparar-se para a satisfação quando a mesma alcança seu estágio de máxima exigência. Se a satisfação é encontrada no momento culminante da exigência, surge a recompensa do prazer e também o alívio temporário do instinto. A satisfação incompleta ou mal sincronizada acarreta alívio incompleto, desconforto e a ausência de um período de descanso necessário entre duas ondas de exigências. Nesta exposição não há muita diferença entre seres humanos e animais". (6)

E logo a seguir, no mesmo texto....

"No bebê e na criança há uma elaboração imaginativa de todas as funções corporais (desde que exista um cérebro em funcionamento) e isto é tão mais verdadeiro sobre crianças do que sobre o mais interessante dos animais, que nunca é seguro transportar um argumento da psicologia animal para o âmbito humano" (6).

Estamos frente a duas afirmações diferentes que pretendo discutir mais adiante (no item: necessidade - desejo). O que ressalto agora é: instinto é de outra ordem que necessidade, de um modo tal que....

"E proveitoso pressupor a existência para o lactente imaturo de duas mães - deveria eu chamá-las de mãe-objeto e mãe-ambiente? Não desejo inventar nomes que provoquem confusão e eventualmente desenvolvam uma rigidez e uma qualidade obstrutiva, mas parece possível empregar estas expressões "mãe-objeto" e "mãe-ambiente" neste contexto para descrever a tremenda diferença que existe para o lactente entre dois aspectos do cuidado: a mãe como objeto, ou possuidora do objeto parcial que pode satisfazer as necessidades urgentes do lactente e a mãe como pessoa que evita o imprevisto e que ativamente provê o cuidado de sustentar e do manejo global. O que o lactente faz no ápice da tensão do id e o uso que assim faz do objeto me parece muito diferente do uso que faz da mãe como parte do ambiente total" .(5)

Deixemos por ora reservado, para uso posterior, esta consideração de Winnicott quanto ao evitar rigidificações com a utilização dos termos. Logo precisaremos disto.

Vamos enveredar pela questão correlata: a antecedência do ego com relação ao id.

"Ao reconstruir o desenvolvimento inicial de um bebê, não há porque fazer referência às pulsões, a não ser com relação ao desenvolvimento do ego.

Existe uma linha divisória:

Maturidade do ego - experiências pulsionais fortalecem o ego.

Imaturidade do ego - experiências pulsionais provocam uma ruptura no ego". (7)

O ego é, então, fruto de um processo de constituição, de desenvolvimento.

"Na área que estou examinando os instintos não são ainda claramente definidos como internos ao lactente. Os instintos podem ser tão externos como o troar de um trovão ou uma pancada. O ego do lactente está criando forças e, como conseqüência, está a caminho de um estado em que as exigências do id serão sentidas como partes do self, não como ambientais. Quando este desenvolvimento ocorre, a satisfação do id se torna um importante fortificante do ego, ou do self verdadeiro, mas as excitações do id podem ser traumáticas quando o ego ainda não é capaz de incorporá-la, ainda é incapaz de sustentar os riscos envolvidos e as frustrações experimentadas até o ponto em que a satisfação do id se torne um fato".(8) (9)

Bem, mas o que faz com que o ego se fortaleça?

A mãe suficientemente boa possui uma sensibilidade peculiar que a leva a poder sentir como se estivesse no lugar do bebê; é por esta via que ela responde às suas necessidades que são inicialmente corporais e posteriormente, necessidades do ego. Nesta ocasião, passa a existir uma relação de ego entre a mãe e o bebê ; quando esta relação ocorre de forma sólida, confiável, os impulsos do id concorrem para a maturidade do ego.

A questão prossegue, agora em outra trilha. E esta relação de ego o que significa? Como se dá esta relação?

O bebê é, de início, não-integrado; o seu centro de gravidade é móvel, desloca-se em sintonia com o que está sendo experimentado, vivido - se o estado é de tranqüilidade o bebê é um; se o estado é de excitação (fome, por exemplo) o bebê já não é mais o mesmo, é um outro.

A mãe tem um ego integrado de forma tal a fazê-la permanecer idêntica a si mesma nas mais diversas circunstâncias; ela dispõe deste ego, colocando-o a serviço do bebê. A mãe é o ego auxiliar do bebê e - falando do ponto de vista dele - é o próprio ego do bebê (mãe-ambiente). Esta disponibilidade materna é que vai possibilitando o processo de "fortalecimento", de "amadurecimento" do ego do bebê.

Só que agora temos uma complicação.

"....Ao estudarmos a excitação instintiva........ A excitação pode ser local ou geral e a excitação generalizada tanto pode contribuir para que o bebê se sinta um ser total, quanto ser uma resultante de um estágio de integração alcançado no processo de desenvolvimento".(5)

Estamos em presença de duas proposições contraditórias. A partir desta última, considerando que, para Winnicott, maturidade do ego eqüivale à integração, não podemos mais pensar tão linearmente:

- maturidade do ego (integração) - instintos contribuindo

- imaturidade do ego (não-integração) - instintos produzindo traumas.

Há também a possibilidade inversa - os impulsos do id podem levar à integração e não somente serem disruptivos quando ainda predomina a não-integração.

Temos indicações para trabalhar nesta contradição?

Penso que sim. Retornemos agora para o que deixei reservado há pouco, ou seja, o alerta de Winnicott no que se refere às duplas formulações (vide (5)). Se pudermos tornar as linhas divisórias flexíveis e permeáveis, a mãe-objeto (a mãe que é destinatária do instinto) pode responder simultaneamente como a mãe-ambiente, que simplifica o mundo para o bebê, que o processa por ele, devolvendo-lhe "em pequenas doses" seus estados excitados, permitindo a sua integração.

Tomo em apoio desta interpretação:

"Muito do que foi escrito sobre a integração aplica-se também à localização da psique no corpo. As experiências tranqüilas e excitadas dão cada qual a sua contribuição. O processo de localização da psique no corpo se produz a partir de duas direções, a pessoal e a ambiental: a experiência pessoal de impulsos e sensações da pele, do erotismo muscular e instintos envolvendo excitação da pessoa total, e também tudo aquilo que se refere aos cuidados do corpo, à satisfação das exigências instintivas que possibilita a gratificação...." (10)

Na leitura através destes diferentes textos encontrei o impasse e a dissolução de sua tensão. Entendo que há um impulso originado "do pessoal" e dirigido para o ambiente - se o ambiente vai de encontro ao impulso, sustentando-o enquanto um ego acoplado, a excitação instintiva propicia a integração; em caso contrário, a excitação tem efeito traumático.

Deparo-me, no entanto, com outras situações de impasse que, por ora, apenas indico. Tenho mantido-as comigo. Ignoro o seu destino. Ou posso chegar à aceitação, também estimulante, de que se trata de algo inerente à obra como um todo ou, nos passos da caminhada, elas podem também se movimentar. São as seguintes: a presença do auto-erotismo, do erotismo muscular ( que surgiu na última citação) e do amor instintivo.

Winnicott, ao estudar os fenômenos transicionais:

"É claro que algo mais é importante aqui, além da excitação e da satisfação orais, embora estas possam provavelmente ser a base de todo o resto.... (11)

"......Esta primeira possessão é usada em conjunção com técnicas especiais, derivadas da infância muito primitiva, as quais podem incluir as atividades auto-eróticas mais diretas, ou existir isoladamente delas". (11)

Lembrando que Winnicott está se referindo à "infância muito primitiva", como incluir o auto-erotismo, se de início os impulsos do id são como que alheios ao self? Como pensar o erotismo independente de impulsos do id? Como é que as atividades auto-eróticas podem, "provavelmente ser a base de todo o resto" e a primeira possessão vir a "existir isoladamente delas"?

A mesma indagação é pertinente em relação ao "erotismo muscular". Como poderia o erotismo estar participando desde os começos?

....."No momento, encontro-me diante da necessidade de admitir a existência de uma agressividade primária e um impulso destrutivo, que é indistinguível do amor instintivo, apropriado ao estágio muito precoce do desenvolvimento do bebê".(12)

Bem, Winnicott afirma que a única forma de amor que o bebê conhece, em sua precocidade, é o amor físico; a fruição amorosa seria resultante dos cuidados físicos, corporais. Como equacionar esta "única forma de amor" com o "amor instintivo" do bebê? Como equacionar o fato de o amor instintivo primitivo ser ativado muito antes que a integração do ego esteja próxima?

Deixo por aqui....

 

 

Necessidade-desejo

 

Para W. Clifford M. Scott

10 de março de 1953

Meu caro Scott

. ......Concordo com você que na análise comum tenta-se tornar desnecessária a ocorrência da regressão, e tem-se sucesso no caso neurótico comum. Porém, creio que a experiência de uns poucos casos de regressão capacita-nos a perceber com mais clareza o que interpretar. Como exemplo, eu diria que, desde que experimentei regressões, freqüentemente faço interpretações para o paciente em termos de necessidades e com menor frequência em termos de desejos. Em muitos casos parece-me suficiente que eu diga, por exemplo: "Neste ponto você precisa que eu o veja neste fim-de-semana"..... Se nesse momento eu dissesse "Você gostaria que eu desistisse do meu fim-de-semana", estaria na trilha errada e, de fato, errado....."

Atenciosamente,

D. W. Winnicott. (13)

 

As múltiplas possibilidades de vinculação teórico-clínica vão dando a dimensão e o alcance de uma obra psicanalítica; a distinção necessidade-desejo é, como vemos na carta, além de uma distinção metapsicológica, essencial no cotidiano das análises. Vamos a ela.

"......Mas podemos dizer que em razão de uma vitalidade do bebê e através do desenvolvimento da tensão instintiva o bebê acaba por esperar alguma coisa, que pode rapidamente tomar a forma de um movimento impulsivo da mão ou da boca em direção a um suposto objeto. Creio que não será inadequado dizer que o bebê está pronto para ser criativo... Aqui o ser humano se encontra na posição de estar criando o mundo. O motivo é a necessidade pessoal; testemunhamos então a gradual transformação da necessidade em desejo".(13)

Não pretendo aqui abordar a questão da ilusão, da criação e da transicionalidade, embora estas também sejam nucleares no pensamento de Winnicott (e importantes para o desdobramento do que trabalho neste texto). É uma opção que faço, com dificuldade, em função dos limites de extensão de meu escrito - e também, a bem da verdade, dos limites de meu fôlego. Vou me guiar pelo que antes já assinalei (vide (6) ) : a elaboração imaginativa.

 

Para Victor Smirnoff.

19 de novembro de 1958

....Suponho que alguém esteja tentando fazer uma formulação breve e abrangente sobre a natureza humana.... Na teoria psicanalítica, geralmente se assume que o ego é um ego corporal, isto é, que a estrutura total da personalidade é construída sobre o funcionamento do corpo e sobre a fantasia que acompanha o funcionamento do corpo. Usei o termo "imaginative elaboration of function" para descrever essa teoria da fantasia e da realidade psíquica, como sendo, em sua origem, uma elaboração da função. Um exemplo de função seria colocar o polegar na boca. Para o bebê humano, porém, essa função é elaborada. Ela nunca é tão simples. Significa ter o controle do polegar, o qual representa todos os outros objetos, que são dessa maneira reunidos e colocados em contato com a boca, etc. etc.........

Meus agradecimentos,

D.W. Winnicott.(15)

A elaboração imaginativa da função coexiste, pois, aos contatos com o próprio corpo, no contexto do processo de integração psique-soma. Proponho enquanto uma interpretação própria: este investimento, este circuito do "imaginativo"é o que vai matizando a necessidade na sua gradativa passagem em direção ao desejo.

Indico apenas que há, no estudo sistemático de Winnicott, outras interpretações sobre esta questão do desejo. Recentemente, em um "Encontro sobre Winnicott", Myrta Casas de Pereda apresentou um trabalho no qual considera que o desejo talvez seja o grande ausente na teoria winnicottiana, mas que pode ser inferido em todos seus efeitos; que quando encontramos a idéia de criar um objeto que é apresentado, estamos justamente na "emergência do desejo". (16)

Seguindo a minha observação e o meu pensamento alcanço algo diferente: Winnicott menciona textualmente o desejo (Vide (14)) e ainda vincula sua emergência a partir da necessidade (de acordo com o que proponho, através da circulação da elaboração imaginativa da função). Não seria necessário então, neste particular, inferir; o desejo não está ausente e é, tal qual o instinto, teorizado; teorizado como secundário do ponto de vista cronológico e - principalmente - ontogenético, como derivado do pleno exercício da necessidade.

Se é da elaboração imaginativa da função que vai emergindo o universo desejante, será que ela própria pode ser pensada como o que fundamenta teoricamente a presença do auto-erótico e do erotismo muscular nas fases iniciais? Será que a elaboração imaginativa, ao se conectar com a fantasia, com a instauração do desejo, conecta-se com a erotização?

Também deixo por aqui.....

 

 

 

E a discussão final chega agora à mesa....

Haveria muito a discutir. Meu escrito não cessa de apontar para as lacunas e também para o esforço de incluí-las. Uma importante lacuna não nomeada: onde fica a mãe enquanto sexualizada e sexualizante? Enfim, muito haveria.

Na consecução deste projeto, onde o não obturar o que é difícil e lacunar é uma espécie de norte, tenho observado que há uma tendência de leitura de Winnicott na qual se apreende em termos de paradoxo o que é de outra ordem, o que é da ordem da contradição.

O paradoxo é, enquanto acesso ao conhecimento, uma possibilidade instigante, para a qual Winnicott nos convida, em relação a qual nos pede respeito e acolhida (por oposição à eficácia resolutiva).

O paradoxo tem a sua especificidade, que o afasta da contradição:

"..........é uma figura de pensamento que consiste em apresentar unidas e conciliadas duas idéias aparentemente contrárias... Utiliza o artifício de enlaçar duas idéias opostas, cujo contraste extremo estabelece um certo contato...." (17)

O paradoxo, peculiar cumplicidade entre opostos, está, às vezes, mais próximo do que caracteriza o cerne do pensamento psicanalítico que as proposições alternativas excludentes ou francamente superpostas; mais próximo das tramas entrecruzadas das multideterminações, das reverberações de sentido.

O paradoxo produz efeitos a partir de sua própria configuração e é justamente por isto que Winnicott solicita que seja aceito. O paradoxo induz movimento.

A contradição, por sua vez, paralisa. Face às contradições, tem-se opções: aceitá-las pelo reconhecimento de sua presença, trabalhá-las ou, realizando uma dissociação, ignorá-las. A última opção é a indesejável. Ignorando o que é contraditório, dogmatiza-se a vivacidade pulsátil de uma teoria; elas podem ser parte constituinte de um corpo teórico que busca apreender o inapreensível - a natureza humana.

Não me faz sentido pensar nas contradições que venho apontando como frutos de elaborações diferentes em momentos cronológicos diferentes. A meu ver elas estão na obra de Winnicott, com o mesmo movimento peculiar que ele atribui ao instinto; elas vem e voltam ao longo da obra. Fazem parte de sua complexidade.

Termino por onde comecei - pela carta à srta. Peller:

......."e essa mesma coisa está na raiz de um dos problemas atuais de todo o movimento psicanalítico".............

Essa mesma coisa: necessidade e desejo, necessidade e pulsão; essa mesma coisa que continua atual.

Essa mesma coisa com a qual os desenvolvimentos da Psicossomática tem se confrontado; essa mesma coisa com a qual Ferenczi se confrontou (vide, a respeito, artigos em "Percurso", nº 16).

A incidência invasiva da "linguagem da paixão" na "linguagem da ternura", a sexualidade como inscrição inexoravelmente traumática..... Winnicott propõe um outro olhar que, por mais desfocamentos que traga, por mais que nos retire o poste de apoio habitual, aqui está, com força de presença produtiva; está em nosso movimento psicanalítico, convocando.

"Se as dificuldades inerentes à vida não podem ser alcançadas, mais difícil ainda será alcançar as satisfações" . (7)

Pois é. Se as dificuldades inerentes às teorizações psicanalíticas não puderem ser alcançadas......

 

Notas e referências bibliográficas

(1) - D.W. Winnicott, "O gesto espontâneo", Sào Paulo, Martins Fontes, 1990, p.135.

(2) - Como bem observa Davi Litman Bogolometz, tradutor de "Natureza humana".

(3) - D.W. Winnicott, "O gesto espontâneo", São Paulo, Martins Fontes, 1990, p. 51.

(4) - D.W. Winnicott, op. Cit., p. 137.

(5) - D.W. Winnicott, "O desenvolvimento da capacidade de se preocupar", in "O ambiente e os

processos de maturação", Porto Alegre, Artes Médicas, 1982.

(6) - D.W. Winnicott, "Natureza Humana", Rio de Janeiro, Imago, 1990, p.57 e 58.

(7) - D.W. Winnicott, "A preocupação materna primária", in "Da Pediatria à Psicanálise", Rio de

Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1978.

(8) - D.W. Winnicott, "O ambniente e os processos de maturação", Porto Alegre, Artes Médicas,

1982.

(9) - Deixo para outra ocasião a questão self/ego, uma questão a ser examinada. Para o objetivo deste

trabalho - e apenas neste âmbito - sugiro que se tomem estes conceitos como equivalentes.

(10) - D.W. Winnicott, "Natureza humana", Rio de Janeiro, Imago, 1990, p. 144.

(11) - D.W. Winnicott, "Objetos e fenômenos transicionais", in "Da Pediatria à Psicanálise", Rio

de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1978

(12) - D.W. Winnicott, "Natureza humana", Rio de Janeiro, Imago, 1990, p. 99

(13) - D.W. Winnicott, "O gesto espontâneo", São Paulo, Martins Fontes, 1990, p. 43 e 44.

(14) - D.W. Winnicott, "Natureza humana", Rio de Janeiro, Imago, p. 122.

(15) - D.W. Winnicott, "O gesto espontâneo", Sào Paulo, Martins Fontes, 1990, p. 105 e 106.

(16) - Myrta Casas de Pereda, "Metapsicologia y el objeto y los fenomenos transicionais",

Conferência pronunciada no III Encontro Latino Americano sobre o pensamento de Winnicott,

Gramado, 1993.

(17) - Fragmentos de uma definição da "Enciclopédia Ilustrada Cumbre-Barcelona", citada in

"Nuestro Vinculo con las teorias , relacion y uso desde la perspectiva metapsicologica

winnicottiana", vários autores, in Anais do III Encontro Latino Americano sobre o

pensamento de Winnicott, Gramado, 1993, volume I.