Um dia de cada vez

Zé Love detalha como amor da família no combate à depressão foi importante para que desistisse do suicídio

Zé Love Em depoimento a Beatriz Cesarini, Gabriela Brino e Talyta Vespa Gabo Morales/UOL

Estou vivendo um dia de cada vez, é o que posso dizer. A depressão é uma doença silenciosa. Estou sorrindo aqui hoje, mas posso dar dois ou três passos e começar a chorar. Não existe linearidade na dor; há meses, convivo com ela e com essa instabilidade. Tem dia que acordo empolgado e sinto vontade de levantar da cama e treinar; mas geralmente não é assim. Nos últimos dias, tenho acordado e tomado remédio para dormir de novo. Fico ansioso e só quero que o dia passe logo.

Não é a primeira vez que vivo a depressão. Há quatro anos, passei por algo parecido. O gatilho, agora, foi um acúmulo de coisas; uma bomba que estourou no ano passado e envolveu saúde e grana. Sempre fui o cara da família, que bancava minha casa e a casa dos meus pais, e, no meio do caminho, não consegui mais. A ansiedade, que sempre me acompanhou, cresceu e se transformou na impotência da depressão.

Acho que toda depressão começa pela ansiedade, a angústia por algo que a gente nem sabe que vai acontecer. No meu caso, pelo menos, começou assim. Hoje, eu visto a camisa do Brasiliense. No ano passado, participei de um jogo muito polêmico contra a Ferroviária. Disputávamos a série D do Campeonato Brasileiro, estávamos na briga para subir, e o árbitro marcou um pênalti fora da área contra a gente. Aquilo me deixou maluco.

Foi um baque. Perdi um ano de trabalho, perdi o sonho de subir de divisão, perdi prêmios individuais. E a gente vive disso, sabe? Aquele jogo foi uma derrota em muitos sentidos. Meu corpo reagiu à frustração: duas semanas depois, fui internado. Senti dores muito fortes no peito, achei que pudesse ser algum problema no coração. Fiquei três dias na UTI até descobrir que era uma alteração renal. Seria o começo do período mais difícil que já vivi. E ainda vivo.

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Assim que tive alta, voltei a treinar, e não deveria ter feito isso sem algum tipo de planejamento. Não tão rápido, nem tão intensamente. Com a imunidade baixa resultante da internação, peguei covid-19 e influenza ao mesmo tempo. Fiquei internado de novo e, dessa vez, sozinho. A internação por covid-19 é muito solitária, a gente fica em uma área isolada. Foram cinco dias no hospital. Cinco dias longe do meu filho, que é minha vida. Comecei a desabar ali.

Os vírus foram embora e, de novo, voltei aos treinos com tudo. Caí mais uma vez. Estava em casa com minha esposa, Luciana. Comecei a sentir meus músculos contraírem, como numa câimbra muito forte. Fiquei assustado, não entendia o que estava acontecendo. Não conseguia abrir as mãos, elas se fecharam com muita força e meus dedos não se moviam. Minha pressão despencou e tive uma dor de barriga tão forte que não consegui chegar ao banheiro. Meus braços pareciam estar eletrocutados.

Chamamos um médico que mora ao lado de casa, e ele foi até mim às pressas. Me disse a seguinte frase: "Se você ama seu filho e sua família, corra para o hospital. Você está morrendo". Achei que estivesse. O diagnóstico veio, hipocalemia —uma doença que reduz absurdamente o nível de potássio no sangue. O índice normal para um ser humano varia entre 3,5 a 5 ml por milímetro cúbico de sangue. Meus exames chegaram a 2,4 ml. Eu estava exposto e frágil.

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Quando soube o motivo da terceira internação em dois meses, foi a primeira vez na vida que tive medo de morrer. Já sofri acidente de carro, já caí em depressão. Mas, daquela vez, tive medo o tempo todo. O único pensamento que martelava minha cabeça era "preciso sair desse hospital". Foram seis dias internado. Seis dias de desespero, sem que os médicos me explicassem o diagnóstico. Achei que estivessem me escondendo algo pior.

Foi depois desse evento que comecei a reconhecer os primeiros sinais da depressão. No primeiro dia de volta ao Brasiliense, fui até o vestiário. Me troquei e, pela primeira vez na vida, fiquei paralisado. Não consegui ir para o campo. Travei. Não me sentia mais um jogador de futebol. Em dois meses, foram três internações. Era como se meu corpo tivesse esquecido como se joga bola.

Isso perdura. Todo dia, acordo e digo para mim mesmo que vou levantar e treinar. Que vou fazer diferente. Então, consigo um dia, com a companhia da Luciana. Pego leve, porque se eu treinar em alta intensidade, meu corpo acelera e fico ansioso. Fico feliz quando consigo, mas me frustro quando não.

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Futebol é o que mais amo na vida. Eu tive que deixar de assistir a jogos, porque me sinto triste. Me sinto mal por não estar atuando. Dia desses, fui ao estádio a convite de uns amigos. Ao me ver na arquibancada, um repórter me abordou e disse que sentia falta de me ver em campo. Doeu, pô. Não é sobre querer ou não jogar. Se ainda não voltei, é porque não consigo. E não conseguir jogar é muito difícil de aceitar. Comecei a não levantar mais da cama. Quando conseguia levantar, a muito custo, chegava no clube, tomava banho e ia embora. Não dava para treinar. Só ia para dizer que fui.

Chegava em casa, deitava na cama de novo e não queria ver ninguém. Nem minha esposa. Passava o dia no celular, me distraindo com qualquer bobagem. Nada estava bom. Decidi buscar ajuda quando pensei em tirar minha vida. Eu tinha medo de ficar sozinho, medo de não conseguir controlar o anseio para dar fim à dor. Quando Luciana precisava sair, eu pedia que ela deixasse meu filho comigo. Não confiava na minha própria força de vontade para me manter vivo.

Luciana percebe o tamanho da angústia que sinto. Eu verbalizo. Ela passou a esconder meus remédios. Na hora certa, pega o comprimido correspondente e me dá. A verdade é que todo mundo julga quem tem depressão. Quem comete suicídio. Infelizmente, isso acontece porque é uma doença tão maldita, que tira o prazer. O que é mais gostoso? Ter prazer de viver, independência, sair com minha esposa, meu filho, meus pais. Ela tira isso de você. Ela te coloca em um túnel escuro, onde não tem luz.

Mas, hoje, tenho certeza de que quem tira a própria vida não tem ideia do que está fazendo. Fica um branco na cabeça, a gente não pensa em nada. Só quer fugir do sofrimento e dar fim à dor que parece não ter fim.

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Foi quando me vi nesse beco sem saída que entendi que a única alternativa era buscar ajuda. Aos 34 anos, ao lado da minha família, deveria estar na minha melhor fase. E estou na pior. Acordo, tomo um antidepressivo. Almoço, outro remédio. À tarde, umas gotinhas de ansiolítico para acalmar. Depois do jantar, mais um, e, antes de dormir, aquele mesmo ansiolítico da tarde. Estou há um mês vivendo à base de medicamentos.

Assim que comecei o tratamento, um mês atrás, vim para a fazenda dos meus pais, em Rio Preto, no interior de São Paulo. Sei que aqui é o lugar onde vou receber o máximo de amor possível, e é também disso que a gente, que tem depressão, precisa. Meu filho não imagina a gravidade da coisa, ele só tem seis anos. Meus pais entendem, mas não falam sobre. Sei que minha mãe é quem mais sofre, eu percebo isso no olhar dela. Sento para tomar café, ela está lá. Está comigo, mas não falamos sobre depressão. Entendo que ela não sabe a teoria de como agir, mas a forma como ela age é a melhor possível. Ela está lá. É o que importa.

O suporte que tive foi da família. Todo mundo sumiu. Ou melhor. Quase todo mundo. Tenho três nomes: Moisés, Renan e Jocimar. Todos os dias acordo com mensagens deles, almoço com mensagens deles, durmo com mensagens deles. Um é meu amigo de infância. Os outros eu não imaginava que estariam comigo neste momento. Se eu tivesse que apostar, perderia tudo. Tem outros que mandam mensagens, mas com eles é diariamente. Umas dez mensagens por dia. "E aí, o que está fazendo? Posso te ligar?". Ligam de vídeo, brincam. Isso ajuda bastante.

Mas outros amigos, até os de infância, pessoas que estiveram presentes nos momentos bons, pessoas que eu pensava que me faziam bem; esses não estão ao lado.

Gabo Morales/UOL A família Love: a mãe Gilda, o irmão José Augusto e a cunhada Juliana com sua filha, Zé e Luciana com seu filho, e o patriarca Eduardo

A família Love: a mãe Gilda, o irmão José Augusto e a cunhada Juliana com sua filha, Zé e Luciana com seu filho, e o patriarca Eduardo

O mesmo por parte do Brasiliense, clube em que atuo. Quase não recebi ligações de lá. Me deram um suporte de salário, sim, e agradeço, apesar de achar que isso é o mínimo. Mas ligação, contato? Nada. Tem 34 jogadores no clube, e só três me ligaram. Não guardo mágoa, mas exponho isso para deixar claro que a nossa ajuda está em casa. Com a nossa família. E sei que esse desdém é porque muita gente não acredita na minha doença; não acredita em depressão.

E sei porque não é a primeira vez que passo por isso. Quatro anos atrás, cheguei bem perto de tirar minha vida. Me envergonho muito dessa história. Me arrependo. Na época, só não o fiz porque meus pais presenciaram a cena, correram até mim e me abraçaram. Todos choramos. Só que, naquela vez, o processo foi curto. Esse momento, muito grave, foi o auge. Depois, consegui me recuperar.

Dessa vez, está mais longo e cansativo. Meu humor e minha vontade de viver oscilam muito. Além do tratamento, deposito minha expectativa de cura em Nossa Senhora Aparecida. Sou católico, mas frequento uma igreja evangélica. Para mim, o que importa é a fé que cada um tem. A minha me move. Com ela, vou seguindo. Ocupo horas do meu dia buscando orações e palavras que transmitam o que estou sentindo. Uma forma de me confortar e entender que é apenas uma fase.

Estou com saudade do antigo Zé, que ri com facilidade, zoa, brinca. Eu sei que ele está escondido aqui dentro, junto com minha vontade enorme de voltar a bater uma bolinha. Prefiro encarar isso tudo como uma tempestade. Tenho certeza de que não vai durar para sempre. Que, de alguma forma, o sofrimento vai acabar. Talvez o vento leve. O amor cure. Afinal, sou o Zé Love. O mínimo que eu posso fazer é me agarrar àquilo que meu nome leva.

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Daniel Marenco/Folhapress

Quem é Zé Love

José Eduardo Bischofe de Almeida é mais conhecido como Zé Love, atacante que ganhou projeção no Santos na mesma geração de Neymar e Paulo Henrique Ganso. Hoje com 34 anos, acumula passagem por mais de dez clubes brasileiros, além de seis por times do exterior. Zé Love conquistou oito títulos na carreira, entre eles o da Copa Libertadores de 2011, com o Santos. Por causa da luta contra a depressão, diagnosticada nos últimos meses, foi afastado pelo seu atual clube, o Brasiliense, para se tratar —mesmo assim, ele participou da campanha do título do Campeonato Candango de 2022. A equipe seguiu dando suporte à distância ao jogador.

Caso você esteja pensando em cometer suicídio, procure ajuda especializada como o CVV e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade. O CVV (https://www.cvv.org.br/) funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.

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